o silêncio.

Este pequeno espaço que nos separa.

Anna Lucchese

Se me perguntar que palavra me explica melhor, direi "rio"

Você compartilha felicidade com estranhos?

Entre o carnaval de rua e um jogo de futebol, existe uma troca de emoções entre desconhecidos que deveria fazer parte de toda e qualquer existência.


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A foto "O Beijo" de Alfred Eisenstaedt mostra um soldado que na euforia do término da segunda guerra mundial agarra uma enfermeira e lhe dá um beijo.

Símbolo de um sentimento intenso que não cabia dentro das pessoas naquele instante, a imagem revela um fenômeno curioso: o compartilhamento da felicidade entre estranhos.

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O Beijo, de Alfred Eisenstaedt

Colocando de lado o fato que nenhuma mulher acha bonito e agradável ser agarrada na rua e beijada por um desconhecido transbordando emoção, existe algo nessa foto que causou profunda identificação por porte das pessoas naquela época, uma união silenciosa entre indivíduos que não tinham nenhuma conexão em particular.

Um jogo de futebol, por exemplo, faz com que torcedores, sem proximidade alguma até então, celebrem juntos um par de horas como se fizessem parte de uma mesma família.

Outra manifestação curiosa, o carnaval de rua. Em meio ao caos estressante e solitário de uma grande cidade, eis que surge um carro de som, fantasias improvisadas e um saco de confetes. Instantaneamente, foliões passam a se cumprimentar sorridentes, abraçam-se e cantam juntos quando são surpreendidos por aquela música que revela uma memória afetiva tão especial, perdida no tempo e na correria da vida.

São pequenos instantes mágicos que celebram algo tão precioso inibido pela rotina.

Afinal, a sociedade gasta rios de dinheiro em psicólogos para compartilhar a dor e a tristeza com um desconhecido - sem falar nas redes sociais e tantas outras formas de transbordamento dessa emoção - que a felicidade espontânea e simples acaba sendo negligenciada.

Todo mundo é feliz no Facebook e nas propagandas publicitárias, mas e na fila do banco?

Lembro do dia em que minha cunhada me ligou para dizer que estava grávida. Eu estava a duas pessoas de distância do caixa e, de repente, eu e minha felicidade atingimos aquelas almas como um cometa.

Por uma fração de segundos, todos esquecemos o que estávamos fazendo alí e celebramos uma emoção que não cabia em mim.

Não sei se acontece com todo mundo, mas sempre que vejo esse fenômeno espontâneo de compartilhamento da felicidade ao vivo e em cores entre completos estranhos, de alguma forma, imagino todos os comprimidos de antidepressivos como uma piada ruim.

Assim como é bom expressar a tristeza para que as coisas voltem a fazer sentido, transbordar felicidade também ajuda a organizar um pouco as peças dispersas desse quebra-cabeças psicólogo em que nos encontramos.


Anna Lucchese

Se me perguntar que palavra me explica melhor, direi "rio".
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