o silêncio que vem primeiro

Do silêncio se incia a música e todo um universo que a inspira e por ela respira.

Felipe Hansell

Você também é um apaixonado pelo silêncio? Leia os outros posts e deixe um comentário.

Abzû, o deus da água doce

A evolução da indústria dos jogos tem permitido experiências cada vez mais surpreendentes. Abzû é a prova disso. Com uma proposta voltada a uma perspectiva mais lúdica e minimalista, o jogo é capaz de te surpreender, não apenas como um jogo, mas te fazer questionar elementos sobre a origem da vida e seus rumos.


image8.jpg

E se você tivesse a chance de fazer uma viagem ao fundo do oceano onde os limites da sua jornada fossem definidos pelo tamanho da sua curiosidade?

Abzû é um jogo que oferece essa possibilidade de uma maneira mais encantadora do que parece.

Para entendermos um pouco melhor o significado de "Abzû", precisamos pedir ajuda aos Sumérios, aqueles que viveram ao sul da Mesopotâmia (6500 a.C. - 1940 a.C.), e sua cosmogonia. O jogo apresenta um pouco do mito do Oceano cósmico e se aproveita da união entre Tiamat (deusa do Oceano) e Abzû (deus da água doce). Segundo a lenda, os dois deuses se unem com o objetivo de formar a vida. Vale mencionar também sua etimologia: "ab" (água) e "zu" (conhecimento) que os desenvolvedores traduziram como "Oceano de Sabedoria".

image6.jpg

Com uma proposta diferente da maioria dos jogos modernos, simuladores e ultra realismos, Abzû aposta no lúdico, no minimalismo e no silêncio. Quando falo de silêncio, me refiro a falta de palavras. As únicas palavras que existem, estão no menu inicial e são muito discretas, com apenas o título do jogo em destaque. Aliás, o jogo não te explica nada, ele simplesmente te joga no meio do Oceano e sua única opção é explorar o local e entender as coisas por si mesmo.

image7.jpg

Contudo, os sons emitidos pelo jogo, bem como sua trilha sonora, mostram-se muito eficazes em sua comunicação visual. Além das cores, que comentaremos a seguir, a linguagem sonora do jogo constrói imagens poderosíssimas e narrativas muito interessantes. Por estarmos no fundo do Oceano, muitas vezes nos encontramos em momentos onde a visibilidade é baixa e a falta de luz nos impede de ter uma visão nítida que supere dois ou três metros de distância. Em momentos assim, a música e os sons do fundo do Oceano são os nossos olhos. A noção espacial que o jogo nos proporciona através dos ouvidos, faz da nossa audição, uma ferramenta fundamental para a imersão no roteiro. Em vários momentos, o cenário do jogo é muito maior que o seu campo de visão e você vai se pegar procurando ruídos de movimentos de algum animal marinho para se localizar.

Quando for jogar, procure um fone de ouvido com um grave bacana. A experiência será muito mais imersiva.

Outro ponto que faz de Abzû uma obra de arte são as paisagens cheias de cores que o jogo é capaz de mostrar. Em vários momentos temos a sensação de estarmos em uma cidade submersa, principalmente por conta das pinturas na parede e referências sumérias. Além das paletas de cores muito bem organizadas, a maioria dos elementos (plantas, pedras, animais ou até mesmo a personagem principal), não possuem contorno deixando o contraste entre os mesmos bem mais orgânico.

image9.jpg

Mas além de todo essa semiótica que o jogo constrói, existe um conceito dentro da história que une todos esses pontos. O conceito principal de Abzû é aprendizado através de liberdade. Você é livre para explorar e aprender ou compreender tudo o que se passa de acordo com o seu ritmo. Você se diverte, se encanta e se envolve como se fosse uma criança que acabou de se reconhecer como indivíduo e se encontra curiosa para descobrir o mundo.

Um fato peculiar: para os mulçumanos, a palavra "Abzu" ou "Apsu" significa colhedora de crianças. E isso, de certa forma, é uma realidade dentro do jogo, pois ele te acolhe em seu estado mais vulnerável, onde tudo é novo.

O jogo é curto e pode ser finalizado em uma única tarde.

A história vai te deixar contemplativo.

E você vai se pegar debatendo seus significados simples, porém grandiosos.


Felipe Hansell

Você também é um apaixonado pelo silêncio? Leia os outros posts e deixe um comentário..
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/tecnologia// //Felipe Hansell