o vácuo

As paradas da vida pós-moderna.

Lucas Shiniglia

Sei lá. Sem ter muito o que fazer... eu escrevo. Uma rabiscada aqui, outra ali; às vezes me surpreendo ao ver um texto coerente na minha frente, então — ao invés de colocá-lo em uma pilha de textos anônimos — eu o publico aqui

Do nirvana ao “homem sem qualidades”.

Proponho, através do seguinte artigo, uma visão pós-moderna atrelada à concepção budista dos parâmetros que regem o comportamento humano. O texto pode ser considerado pós-moderno por não se fixar em conceitos abstratos e racionais, permitindo uma interpretação profundamente intuitiva e, até certo aspecto, mística; o que caracteriza as condições pós-modernas, que são, em muitos aspectos, a antítese dos princípios modernistas, que se mostraram falhos na explicação e na definição da condição existencial humana.


monge bud.jpg

Vemo-nos deparados com notícias sobre pessoas que conseguiram se ausentar por completo de seus corpos; elas pararam todos os seus pensamentos e bloquearam os sentidos, e, por causa dessas condições, alcançaram um estado de paz absoluta, de harmonia absoluta. Essa condição humana, que se assemelha com a morte, não é nova, e já foi comentada exaustivamente ao longo dos anos, possuindo várias explicações diferentes, variando de acordo com a doutrina daqueles que tentam explicar o assunto. A despeito das várias expressões que caracterizam essa condição especial, iremos caracterizá-la com sua denominação mais comum, pelo menos a meu ver, sendo ela o nirvana. Tomando como base esse estado de paz celestial e absoluta, onde a nossa vontade de potência se sente satisfeita, passemos agora a analisar tudo aquilo que se estrutura sobre essa completude, sobre isso que podemos considerar como sendo o puro espírito. Sobre esse todo é estruturado e definido o indivíduo, que possui suas delimitações estabelecidas através das informações adquiridas pelos sentidos. Uma vez definida as dimensões do nosso Eu, restringimos a nossa interação com o todo, passando a encarar as coisas em relação a esse Eu estabelecido. Nossa mente passa a trabalhar da seguinte maneira: Eu perante isso, Eu perante aquilo, Eu perante o mundo. Essa restrição das nossas dimensões não segue sem efeitos colaterais; por causa da restrição daquilo que enxergamos como sendo nós, encarando-nos como um indivíduo diminuto, passamos, de maneira inconsciente, a nos sentir desesperados com o nosso Eu limitado perante o grandioso não-eu, e essa discrepância, entre aquilo que somos e aquilo que poderíamos ser, gera uma tensão que preenche o indivíduo com energia, preenche-o com vontade. Toda essa vontade se transforma em sentimento e, consequentemente, em ação.

Todas as pessoas se sentem desesperadamente motivadas a agir em função da ampliação desse Eu diminuto; todos nós nos arriscamos, tentamos, tentamos, jogamos e jogamos, com a intenção de alcançarmos o espírito puro, onde não mais enxergamos o mundo através do véu que delimita o indivíduo, mas sim, não mais possuindo esse véu, seremos o mundo, seremos o todo, dessa maneira suprindo a nossa necessidade mais profunda, que é a de ampliar o Eu até que esse possua a mesma dimensão que o não-eu, que o espírito puro. Todas as nossas ações e sentimentos têm relação com essa nossa constituição psíquica. Com relação à vontade proveniente dessa tensão intrínseca à existência dos seres vivos, podemos classificar, de maneira imprecisa e generalizada, dois tipos de constituições humanas: No primeiro caso o indivíduo transformará toda essa vontade em ação, sendo essa ação estritamente reativa, que não é meticulosamente analisada, mas sim executada impulsivamente e precipitadamente; esse agir se tornará empreendimentos, tentativas, que raramente são previamente analisadas e estudadas, assim como a energia utilizada na execução dessas ações não é acumulada e conscientemente direcionada para uma direção específica. No segundo caso, o indivíduo irá ponderar, em excesso, todas as suas possibilidades, todas as consequências e os motivos dos seus possíveis atos, dessa forma resguardando grande parte da sua vontade, acumulando-a para utilizá-la apenas quando uma direção, condizente com tudo o que foi analisado, for definida.

musil art.jpg

Situando-nos como um observador externo, que analisa essas duas possibilidades de indivíduo, poderíamos perceber o imenso rastro, de ações impulsivas e pouco elaboradas, deixado pelo primeiro tipo de indivíduo; ao mesmo tempo, poderíamos citar com precisão suas qualidades, seus méritos e suas fraquezas; poderíamos definir com precisão aquilo que o primeiro indivíduo é, enquanto o segundo indivíduo permanece oculto, não nos permitindo uma dedução precisa; seu posicionamento contemplativo, perante o mundo, e a ausência de parâmetros que possam defini-lo o transformaram em alguém que poderia ser classificado, por um observador externo, como “um homem sem qualidades”.


Lucas Shiniglia

Sei lá. Sem ter muito o que fazer... eu escrevo. Uma rabiscada aqui, outra ali; às vezes me surpreendo ao ver um texto coerente na minha frente, então — ao invés de colocá-lo em uma pilha de textos anônimos — eu o publico aqui .
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/recortes// @destaque, @obvious //Lucas Shiniglia