o vácuo

As paradas da vida pós-moderna.

Lucas Shiniglia

Sei lá. Sem ter muito o que fazer... eu escrevo. Uma rabiscada aqui, outra ali; às vezes me surpreendo ao ver um texto coerente na minha frente, então — ao invés de colocá-lo em uma pilha de textos anônimos — eu o publico aqui

Do conhecimento à arte

É preciso que investiguemos a intuição pura para descobrirmos os objetos que nos são fornecidos. Ela é a base do pensamento, conhecê-la e defini-la é imprescindível para o entendimento do conhecimento humano.


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Desde sempre, grandes pensadores buscam definir com precisão as bases do intelecto e do conhecimento. Kant, melhor do que muitos outros, destaca-se nessa difícil tarefa; segundo ele, a única forma de adquirirmos conhecimento consiste na elaboração conceitual a partir da intuição pura. Aquilo que percebemos através dos sentidos é definido de maneira intelectual, proporcionando-nos uma concepção do ambiente à nossa volta e fazendo com que a psique se estruture em função daquilo que somos direcionados a enxergar. Servindo como base para essa estrutura conceitual, possuímos a intuição pura, que se encontra situada além dos conceitos sintéticos, além dos sentimentos. Localizada em meio ao espaço livre de fenômenos, a intuição pura possui possibilidades infinitas, nela somos capazes de fazer qualquer tipo de associação.

Em meio ao espaço infinito, que contém possibilidades infinitas de associações, encontramo-nos primeiramente como seres destituídos de qualquer tipo de arranjo das coisas. Com o passar do tempo vamos estruturando os conceitos na nossa mente; esses conceitos irão nos direcionar pela vida, eles serão utilizados como base para determinar o nosso comportamento frente o que nos apresenta os sentidos. Nunca é demais lembrarmos que as estruturas conceituais são extremamente variáveis e relativas; os conceitos, que determinam o comportamento dos indivíduos, podem ser alterados a qualquer momento. Além de possuirmos uma mente com conceitos instáveis, esses mesmos conceitos não são universais, ou possuem uma relação exata. Tomando como base essas exposições, podemos definir, sem receio, que cada indivíduo possui um mundo particular; cada pessoa possui uma representação específica do ambiente à sua volta, o que a faz enxergar e agir de determinado modo. Além disso, essa estrutura é instável, podendo ser alterada a qualquer momento.

O aprendizado de relações novas entre as coisas é muito mais rápido e eficiente para aqueles que não possuem conceitos fixos e imutáveis. Quando nos desvencilhamos das nossas concepções e analisamos uma nova proposição, utilizando apenas a intuição pura, ficamos impressionados com a rapidez com que aprendemos a uma nova perspectiva sobre o funcionamento dos elementos que constituem o mundo. Em relação a essa forma de aprendizado, percebemos o quanto alguns conceitos são diferentes daquilo com o que estamos acostumados; essa discrepância, que exige um desligamento praticamente completo dos nossos conceitos anteriores, torna o aprendizado difícil. São poucas as pessoas que possuem uma capacidade elevada de se desprender dos conceitos que estruturam a mente; por causa disso, muitas relações inovadoras e complexas permanecem misteriosas e esdrúxulas para a maioria das pessoas.

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Após o sacrifício de muitos gênios, podemos definir com clareza a forma como os conceitos são estruturados na nossa mente, desse modo sendo permitido que avancemos em nossas investigações sobre o intelecto, passando a analisar uma pergunta que intriga os estudiosos da mente humana: Seremos nós capazes de definirmos exatamente aquilo que devemos valorizar ou não? Repetindo a pergunta em termos mais claros: Seremos nós capazes de controlar as estruturas conceituais da nossa mente? Para aqueles que pensam, nem que seja um pouco, sobre si mesmos, a resposta é clara, sendo ela um categórico Não. O funcionamento da mente foge ao nosso controle; ela faz associações, estrutura arquétipos, faz transferências; todos esses acontecimentos acorrem longe da nossa percepção. Possuímos um mundo grandioso em nossas mentes, ele é restrito e imperscrutável, e define a maior parte daquilo que somos, e daquilo que queremos ser.

Deparados com a impotência humana perante o que está estruturado em nossas mentes, percebemos o quanto os nossos conhecimentos sobre o intelecto são vagos e imprecisos; a humanidade ainda não encontrou a real forma de funcionamento da psique. Sem termos conhecimento do motivo e a maneira como algumas coisas são definidas na nossa mente, permanecemos à deriva dos acontecimentos, à deriva dos pensamentos.

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Muitos se propuseram a mergulhar no intelecto para tentar explicar as nossas atitudes, as nossas sensações. Esses artistas corajosos habitaram regiões inóspitas da existência, eles buscaram o esclarecimento através de experiências intensas e destrutivas; esse estilo de vida lhes proporcionaram mortes prematuras, muita sabedoria e obras imortais. Essas almas raras arriscaram tudo pelo conhecimento, abdicaram de todas as coisas pela humanidade.

Quando nos deparamos com as obras desses gênios corajosos, sentimos, logo de cara, a presença de uma expressão visceral e sincera. Quase sempre, após essas grandes obras, sentimo-nos mais sábios, mais esclarecidos; o mundo parece repousar sobre bases mais sólidas e nós nos sentimos mais seguros e confiantes.

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Consideramos que essas vozes geniais provêm, na maioria das vezes, do passado. Talvez essa nossa sensação, de que as grandes almas existiram apenas no passado, ocorra por causa da filtragem que foi feita ao longo do tempo, onde todas as obras rasas e ruins foram esquecidas, abandonadas. Nos dias atuais ainda nos deparamos com os verdadeiros artistas, que arriscam tudo na intenção de desvendar os mistérios humanos; infelizmente, esses gênios são ofuscados por muitos farsantes e aproveitadores. É preciso que garimpemos as obras que são lançadas diariamente, para que possamos encontrar algo que nos seja permitido caracterizar como sendo uma verdadeira obra artística. Em meio ao interminável amontoado de obras insossas e fúteis, as verdadeiras obras de arte ainda sobrevivem. Por mais que só enxerguemos charlatões, ainda existem pessoas arriscando tudo pelo conhecimento, arriscando tudo pela humanidade.


Lucas Shiniglia

Sei lá. Sem ter muito o que fazer... eu escrevo. Uma rabiscada aqui, outra ali; às vezes me surpreendo ao ver um texto coerente na minha frente, então — ao invés de colocá-lo em uma pilha de textos anônimos — eu o publico aqui .
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