o vácuo

As paradas da vida pós-moderna.

Lucas Shiniglia

Sei lá. Sem ter muito o que fazer... eu escrevo. Uma rabiscada aqui, outra ali; às vezes me surpreendo ao ver um texto coerente na minha frente, então — ao invés de colocá-lo em uma pilha de textos anônimos — eu o publico aqui

Uma das concepções sobre o amor, do autor Robert Musil, contida no livro O homem sem qualidades

O seguinte artigo se trata de um resumo interpretativo de um capítulo da obra-prima inacabada de Robert Musil, “O homem sem qualidades”. Esse resumo foi elaborado em função de um capítulo alternativo do livro, intitulado: Love is not easy.


“O amor é supervalorizado! O homem louco, que está em desarranjo, se esfaqueia e corre até uma pessoa inocente que está no mesmo local onde se encontra a sua alucinação — No amor esse louco é considerado como sendo normal!”

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Quando amamos nos apaixonamos por uma alucinação, por um personagem que imaginamos e que, na melhor das hipóteses, possui um doze avos daquela pessoa que serve como base para a nossa figura imaginada. Mesmo nos apaixonando por uma alucinação, sentimos um mundo de sensações indescritíveis, podendo caracterizá-lo como um estado de espírito que beira uma existência completamente preenchida e satisfeita; incitados por essas sensações incomuns, enxergamos um mundo transmutado, que se alterou de dentro para fora; tudo passa a conter beleza e ser harmonioso, os dias são mais excitantes, as situações, que antes incomodavam muito, agora possuem uma nova interpretação, sendo ela, por incrível que pareça, satisfatória.

Buscando uma explicação mais profunda com relação a esse estado de espírito tão especial e revigorante, podemos analisar as afirmações de Schopenhauer sobre o amor, que o classifica como uma artimanha da natureza, que tem por objetivo unir duas pessoas, apesar do egoísmo e da individualidade excessiva de cada uma, com o intuito de que a espécie se propague e continue a existir. Nessa concepção o amor não seria nada além do que eros, nada além do que reprodução e sexualidade; classificação essa que é adorada pelos psicanalistas. No entanto, o passar do tempo nos mostrou as limitações das teorias psicanalíticas, que não são capazes de explicar muitas de nossas sensações e experiências, e não conseguem estabelecer interpretações mais abrangentes e sensíveis, o que faz com que os parâmetros se baseiem em afirmações capciosas e inverificáveis; essa metodologia de análise, que se mostra ineficiente (em muitos aspectos) e inverificável, não foi um empecilho que impediu a determinação de conceitos e condutas, imputando valores e comportamentos, que atualmente são considerados como verdades absolutas, sendo propagados e popularizados como dogmas inquestionáveis, que dizem elucidar os acontecimentos da vida e as profundezas da existência. Essa é a religião da nova era.

Partindo da análise do amor por parte de alguém que é mais sensível, e ainda mantendo uma classificação metafísica sobre o assunto, é possível estabelecermos uma nova visão para o tema, que é extremamente polêmico e controverso, o que faz com que caracterizemos qualquer nova interpretação apenas com a estirpe de uma condição plausível, e nunca como um conceito inquestionável.

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Para começar a nossa nova classificação nos concentraremos naquelas pessoas solitárias e desiludidas com a vida, que se encontram em tal estado de desespero e insatisfação que necessitam de uma ilusão satisfatória, uma bela imagem fixa, que elimine o fardo, a volatilidade e a incerteza que é a vida. Essa pessoa que cria um objeto amado, sendo esse objeto um animal de estimação, um amuleto, uma paisagem, uma lembrança, etc., sente-se como que distraída e esquece seus aborrecimentos e frustrações, mergulhando em uma alucinação criada pela sua mente, dessa maneira eliminando as insatisfações que a incomodam, mas, ao mesmo tempo, entorpecendo por completo sua vida, praticamente se retirando dela e vivendo em uma ilusão, em um mundo criado pela mente. Dentro desse mundo irreal a pessoa recupera suas forças e o animo de viver, essa renovação acorre em detrimento do mundo real, dos acontecimentos externos, que passam a ser praticamente ignorados, negligenciados, tudo em prol da conservação e da satisfação do indivíduo, que se sente muito mais feliz em meio ao seu mundo imaginário, mesmo ele não sendo coerente e condizente com a realidade.

Nesse caso, o amor se mostra como a artimanha dos desiludidos, que não suportam mais a vida e precisam de um estimulo poderoso que os mantenham vivos e os impeçam de se frustrar com o fluxo incerto e ininterrupto que é a vida. Essa característica extremamente volátil e mutável, que é inerente à nossa existência, pode assustar a qualquer um, sendo necessária uma ilha imóvel, uma lembrança imóvel, que suscite sentimentos poderosos e que nos permita suportar a existência. Parece que é um desejo poderoso, presente em nós, seres humanos, a busca por uma condição estável, segura, mesmo essa condição não sendo condizente com a realidade. A existência em meio a realidade ainda é um fardo demasiado pesado, e nós procuramos, a todo o momento, anestésicos que possam facilitar a existência.

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De acordo com essa nova hipótese, o amor continuaria sendo um sentimento que tem relação com a manutenção da espécie, mas sendo essa manutenção algo totalmente diferente do que foi anteriormente proposto por Schopenhauer (que preconizava a manutenção da espécie através da reprodução). Segundo essa nova concepção poderíamos justificar o amor entre pessoas do mesmo sexo, o amor por animais de estimação, por ideias, por lembranças, por esportes, por determinados objetos, etc.. Um sentimento intensamente potente, que transforma o mundo por completo, proporcionando-nos satisfação, força e conforto, assim renovando as nossas esperanças com relação a todas as coisas, fazendo com que nos sintamos felizes, satisfeitos e completos; e, dessa maneira, tornando a vida suportável, impedindo-nos de sucumbir ao desespero e à aniquilação da existência. Essa explicação, referente ao amor, parece, pelo menos para mim, plausível.


Lucas Shiniglia

Sei lá. Sem ter muito o que fazer... eu escrevo. Uma rabiscada aqui, outra ali; às vezes me surpreendo ao ver um texto coerente na minha frente, então — ao invés de colocá-lo em uma pilha de textos anônimos — eu o publico aqui .
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