o vácuo

As paradas da vida pós-moderna.

Lucas Shiniglia

Sei lá. Sem ter muito o que fazer... eu escrevo. Uma rabiscada aqui, outra ali; às vezes me surpreendo ao ver um texto coerente na minha frente, então — ao invés de colocá-lo em uma pilha de textos anônimos — eu o publico aqui

O ETERNO PROCESSO DE INDIVIDUAÇÃO

Será que realmente sabemos aquilo que somos, ou como somos? A consciência ainda é uma entidade germinal, diminuta; ela nos diferencia de todos os outros seres vivos que existem, permitindo-nos não mais sermos definidos pelo ambiente, mas sim definirmos aquilo que somos, independente do ambiente. Infelizmente, essa entidade ainda tem muito o que evoluir para que possamos considerá-la eficiente. Mesmo em sua ineficiência constantemente comprovada, podemos perceber pequenos acontecimentos que nutrem um resquício de esperança de que essa entidade se tornará, no futuro da humanidade, abrangente e eficiente, fazendo com que o ser humano finalmente seja superado e que nós nos tornemos deuses.


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O processo de individuação é um processo de descoberta das nossas características pessoais, abrigadas no inconsciente. É uma descoberta do Eu, uma tentativa de nos definir como indivíduos, tornando-nos conscientes das nossas tendências e desejos; é uma descoberta que expõe a nossa alma, que permite a nossa identificação como sujeitos possuidores de características inimitáveis perante o todo, como sendo um microcosmo particular, e de arranjo único, em meio a tudo aquilo que nos cerca.

Nós nos reconhecemos como indivíduos? Nós compreendemos nossas vontades e tendências mais profundas? É preciso que ampliemos a nossa percepção para que sejamos capazes de nos investigar profundamente; essa investigação profunda nos permitirá compreender aquilo que define as nossas características psicológicas. Esse processo — que é caracterizado como individuação — permite que desvendemos aquilo que somos, permite que corrijamos aquilo que não queremos ser e possibilita a definição de novos parâmetros. Um Eu maduro, forte e bem definido é capaz de se proteger dos arroubos provenientes de nossos processos inconscientes, assim como uma personalidade sólida e bem estabelecida é capaz de impedir o surgimento de outros traços pessoais, característica essa que tem relação com uma espécie de bloqueio das influências externas; no indivíduo de personalidade fortemente estruturada, o ambiente à sua volta continua incitando comportamentos latentes, mas o indivíduo maduro não permite que essas influências alterem seu comportamento, dessa maneira percebendo as influências externas , mas agindo da forma que lhe é mais conveniente. O indivíduo maduro também é capaz de se desvencilhar de um arquétipo que surge de forma potente e ameaça as características individuais; ele, com sua consciência evoluída, é capaz de conter as interpretações inconscientes exageradas, dessa forma não sucumbindo a projeções, que a mente, teimosamente, insiste em construir. A consciência é a melhor forma de alterar os conteúdos inconscientes.

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Quando investigamos mais profundamente os conteúdos da nossa mente, deparamo-nos com um grande caos, uma variedade interminável de sensações, memórias, arquétipos, sombras, sentimentos, experiências, etc.. A síntese desse caos, por mais confuso que possa parecer, determina a nossa personalidade. Em uma pessoa de consciência diminuta, o conteúdo inconsciente irá determinar as ações e reações do indivíduo, sem que esse possua controle sobre aquilo que ele se sente impelido a fazer; nesse caso a pessoa pode ser considerada como sendo apenas algo em-si, como que um objeto que não pode ser nada além daquilo que ele é, como uma caneta que é simplesmente uma caneta, e, pela falta de consciência sobre sua condição, não pode alterar aquilo que ela é. Uma pessoa dotada de uma percepção mais abrangente pode desvendar e determinar o seu em-si, característica essa que pode ser designada como em-si-para-si. Nesse caso, um tanto quanto incomum, o indivíduo é capaz de identificar os conteúdos, presentes em sua mente, e é capaz de estabelecer uma nova ordenação para sua personalidade, tornando-se a pessoa que ele realmente deseja ser.

Possuímos almas múltiplas, ou, melhor dizendo, diferentes maneiras de nos definirmos como indivíduo perante tudo aquilo que percebemos, que sentimos, e que é caracterizado como espírito. As pessoas ultrassensíveis são suscetíveis aos acontecimentos externos a elas; aquilo que acontece em volta dessas pessoas incita uma maneira de ser, incita um arranjo específico da personalidade. Perceber uma característica de alguém à nossa volta é, de algum modo, senti-la, experimentá-la. Essa nossa forma de enxergarmos as coisas à nossa volta não é absolutamente exata, aquilo que sentimos não é realmente a verdadeira essência daquilo que observamos; para ser mais exato, aquilo que percebemos é uma inferência capciosa, proveniente das nossas próprias experiências de vida. Cabe a nós analisarmos tudo pormenorizadamente, sem termos medo de refutar e reconstruir nossas interpretações do mundo e nossas ideias, se quisermos enxergar um ambiente externo a nós que se aproxime daquilo que ele realmente é.

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Experimentar, testar, jogar, arriscar, investigar, são tarefas indispensáveis para a instauração de uma personalidade que seja mais condizente com aquilo que as coisas realmente são. O processo de individuação é eterno, nós sempre estamos nos descobrindo, determinando o ambiente à nossa volta, e definindo aquilo que somos.


Lucas Shiniglia

Sei lá. Sem ter muito o que fazer... eu escrevo. Uma rabiscada aqui, outra ali; às vezes me surpreendo ao ver um texto coerente na minha frente, então — ao invés de colocá-lo em uma pilha de textos anônimos — eu o publico aqui .
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