o vácuo

As paradas da vida pós-moderna.

Lucas Shiniglia

Sei lá. Sem ter muito o que fazer... eu escrevo. Uma rabiscada aqui, outra ali; às vezes me surpreendo ao ver um texto coerente na minha frente, então — ao invés de colocá-lo em uma pilha de textos anônimos — eu o publico aqui

OS ARQUÉTIPOS E A CONSCIÊNCIA

“E durante mais uma de minhas caminhadas matinais sem rumo, um acontecimento, totalmente diferente de qualquer outro que vivenciei durante essas caminhadas irrelevantes, me influenciou de forma violenta. Vi um verdadeiro ser humano, ele estava acordado e parecia capaz de controlar todos os seus movimentos, todas as suas reações; seu olhar chegava a ser assustador, era profundo e parecia enxergar tudo à sua volta.”


Desde sempre o espírito é um mistério; investiga-lo é impossível, restando a nós apenas suposições inverificáveis, que por mais que tentemos validá-las, nunca conseguimos considera-las como sendo 100% verdadeiras. Considerado como sendo a parte mais profunda e essencial do intelecto, o espírito foi classificado como o propulsor da vida, da ação; dizem que ele está em contato com todas as coisas e possui desejos que não podem ser desvendados por nós. Como entidade mais próxima ao espírito, encontramos o arquétipo, que é considerado uma transferência do desejo descontrolado e sem formato do espírito para uma imagem externa, uma possibilidade que promete sanar os nossos desejos profundos e imperscrutáveis.

Nos sonhos deparamo-nos com símbolos que representam os arquétipos e os conteúdos inconscientes da nossa mente. As profundezas do intelecto são identificadas como sendo ambíguas, variando entre o bem e o mal, variando entre dois extremos. Em meio a esses extremos, de plenitude e de completa aniquilação, são feitas associações espontâneas e inconscientes; essas associações fogem ao nosso controle consciente, e raramente são identificadas. Todas as situações que vivenciamos são desenvolvidas pelo inconsciente, ele faz associações a memórias, assim definindo uma interpretação para a situação com a qual nos deparamos, que se enquadra em apenas duas possibilidades: redentoras ou destruidoras da vida. As profundezas do intelecto operam apenas através do tudo ou nada, sem meio termo.

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Mesmo deparados com o extremismo da nossa mente, não nos sentimos impotentes perante as construções conceituais inconscientes. Ao longo da vida conseguimos verificar o quanto nossos conceitos são infundados; essa discrepância, entre aquilo que a mente define e a realidade, leva-nos à desconstrução e à diminuição da intensidade de muitos de nossos conceitos. Essa reestruturação consciente elimina os exageros conceituais, proporcionando uma base conceitual mais coerente e real.

No entanto, muitos de nossos arquétipos e interpretações exageradas permanecem longe de nossa percepção, influenciando-nos em todas as nossas ações, causando desconforto e desespero, sem que possamos fazer nada para alterar esses exageros, pois não conseguimos identifica-los, o que não nos permite reestruturar esses conceitos de maneira consciente e condizente com a realidade.

Para conseguirmos identificar os nossos motivos profundos é preciso que ampliemos a nossa percepção, tornando-a capaz de enxergar mais profundamente. Uma pessoa dotada de uma percepção abrangente é capaz de identificar os agentes externos que lhe incitam sensações, assim como é capaz de perceber a maneira como são estruturados os seus conceitos.

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As características mais marcantes dos indivíduos dotados de uma consciência avantajada são o olhar vazio e a ausência de sentimentos. A consciência ampla é uma habilidade raríssima, e permite a desconstrução de qualquer arquétipo, de qualquer conceito. Infelizmente, a desconstrução de qualquer estrutura da mente pode conduzir a um estado de apatia extrema, uma condição de não agir, que é almejada pelo indivíduo. Em uma consciência de senso crítico afiado e percepção profunda, a construção de um objetivo torna-se uma tarefa dificílima.

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O último estágio da consciência humana é denominado o controle absoluto, onde a pessoa é capaz de desconstruir e construir aquilo que ela quiser. Essa condição psíquica é ainda mais rara; nela, o indivíduo torna-se capaz de enganar a si próprio, estabelecendo conceitos e condições imaginárias, que o permitem alcançar o modelo existencial que foi proposto de forma racional.


Lucas Shiniglia

Sei lá. Sem ter muito o que fazer... eu escrevo. Uma rabiscada aqui, outra ali; às vezes me surpreendo ao ver um texto coerente na minha frente, então — ao invés de colocá-lo em uma pilha de textos anônimos — eu o publico aqui .
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