o vácuo

As paradas da vida pós-moderna.

Lucas Shiniglia

Sei lá. Sem ter muito o que fazer... eu escrevo. Uma rabiscada aqui, outra ali; às vezes me surpreendo ao ver um texto coerente na minha frente, então — ao invés de colocá-lo em uma pilha de textos anônimos — eu o publico aqui

O QUE NOS CONSIDERAM É O QUE SOMOS?

“Aquilo que é dito sobre uma pessoa, geralmente, tem mais influência em seu futuro do que aquilo que ela realmente é.”


Uma pessoa é um gigantesco aglomerado de experiências, de sensações, de objetivos, de medos, de desejos, e muito, mas muito mais outras coisas. Tendo, todos nós, um pano de fundo amplamente vasto, onde concepções discrepantes ocasionalmente se chocam e onde a cada dia nos vemos completamente renovados — quando comparados aos dias anteriores —, fica difícil estabelecermos uma personalidade fixa para nós mesmos. Desse modo, acabamos por nos encarar como um sujeito múltiplo, que possui muitas possibilidades, muitas reações prováveis e muitos objetivos.

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Enxergando-nos com um olhar subjetivo e profundo, percebemos o quanto nossas ações não são definitivas, o quanto as condições externas a nós são influentes em nossas tomadas de decisão e, por fim, o quanto aquilo que fazemos, aquilo que parecemos ser e querer, não é o que realmente somos.

Após essa simplória introspecção particular, podemos aplicar aquilo que aprendemos, com nós mesmos, para que passemos a encarar cada pessoa à nossa volta como sendo um indivíduo igual a nós, cheio de incertezas, desejos, medos e possibilidades. Enxergar outra pessoa como um sujeito múltiplo, assim como nos enxergamos, é uma atitude que elimina preconceitos, elimina interpretações pré-concebidas e imutáveis; é um ato de igualdade e compreensão.

No entanto, essa atitude sensata para com o próximo, que nos parece tão simples quando escrita, está absolutamente ausente do nosso cotidiano. Nosso dia-a-dia é permeado por ignorância e julgamentos absurdos e preconceituosos. Em muitos casos, os julgamentos são frutos de um ego que se sente, de algum modo, ameaçado, necessitando que aquilo que o intimida seja rebaixado, seja desvalorizado, mesmo que para tanto seja necessário inventar uma característica que nunca poderia ser inferida sobre o outro, quando tomamos como base os pequenos gestos abstratos que nos servem como referência para a nossa construção conceitual. Todos os julgamentos minimalistas são afirmados a título de verdades absolutas e imutáveis. Um pequeno ato espontâneo pode ser responsável pela criação de uma personagem totalmente diferente daquilo que somos.

A ignorância, o culto ao ego e os julgamentos preconceituosos estão presentes em todos os lugares; parece que a maioria das pessoas se sente impelida a definir um estereótipo para qualquer pessoa que cruze o seu caminho. E é a realidade, não adianta negarmos ela. Nesse nosso mundo de rótulos redutores e pejorativos, ampliamos ainda mais a nossa insegurança, o que é um absurdo; tudo aquilo que constitui um julgamento precipitado e preconceituoso é incoerente, e nos importarmos com esses julgamentos é ainda mais incoerente e absurdo.

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Mesmo que os julgamentos e interpretações sobre nós pareçam infundados e preconceituosos, vemo-nos obrigados a lidar com eles, pois, infelizmente, esses julgamentos determinam a forma como as pessoas nos enxergam e nos tratam. E, a cada nova interpretação alheia incoerente, sentimo-nos frustrados. Toda definição exata provém daqueles que aparentam ser os mais ignorantes e, de acordo com a frase que diz: “tudo que enxergamos nos outros é aquilo que de algum modo enxergamos em nós mesmos”, sempre são mesquinhas, limitadas. Parece que os julgamentos provêm apenas daqueles que são limitados e insensíveis, enquanto as pessoas realmente sensitivas permanecem ausentes de qualquer interpretação definitiva, por se sentirem incapazes de unir todas as suas vastas impressões, seu conhecimento e percepções, o que as fazem ficar sempre em dúvida, com relação a elas mesmas e aos outros, o que caracteriza o primeiro aspecto da sabedoria.

Mesmo em meio a esse ambiente limitado e preconceituoso, que quase sempre nos frustra, podemos utilizar certas ferramentas a nosso favor. A mais eficiente é a passividade; a habilidade de nos manter ausentes, de não possuirmos uma atitude exata, permite que aparentemos uma forma de vazio, que possibilita qualquer interpretação por parte das pessoas à nossa volta. Dessa forma podemos, mais facilmente, perceber aquilo que mais se aproxima de ser a personalidade preponderante daqueles com quem convivemos.

Em meio a tantos julgamentos limitados, e egos inflamados, onde uma atitude define, para sempre, aquilo que somos, sempre nos classificando com a pior das possibilidades, reza a lenda que existem pessoas magnânimas, sábias e originais; provavelmente elas se escondem. Olhando para a nossa sociedade e suas condutas “normais”, não é difícil entender o porquê.


Lucas Shiniglia

Sei lá. Sem ter muito o que fazer... eu escrevo. Uma rabiscada aqui, outra ali; às vezes me surpreendo ao ver um texto coerente na minha frente, então — ao invés de colocá-lo em uma pilha de textos anônimos — eu o publico aqui .
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