o vácuo

As paradas da vida pós-moderna.

Lucas Shiniglia

Sei lá. Sem ter muito o que fazer... eu escrevo. Uma rabiscada aqui, outra ali; às vezes me surpreendo ao ver um texto coerente na minha frente, então — ao invés de colocá-lo em uma pilha de textos anônimos — eu o publico aqui

Ser humano, sociedade e amor

O texto se trata de uma breve análise da condição humana, da sociedade e do amor, tomando como parâmetro a concepção do autor Robert Musil.


Parece ser do feitio humano a criação de imagens fixas, de ideias que, de alguma forma, tornam a existência mais fácil, mais suportável. No entanto, às vezes esses ideais podem ser destruídos, fazendo com que encaremos o fluxo louco da vida, com todas as suas variantes incalculáveis, suas incertezas e sua velocidade alucinante. Essa assustadora destruição do nosso ideal pode ocorrer por causa de uma verificação do mesmo; ao alcançarmos e realmente experimentarmos a ideia que nos iludia, e amenizava o nosso sentimento de pequenez perante a vastidão do mundo, acabamos por classificá-la de forma racional, não mais conseguindo nos iludir com aquilo que era projetado pela nossa mente. Nesse momento de desconstrução — onde obtemos muito menos do que aquilo que esperávamos ser capaz de sanar todas as nossas carências — somos atingidos, sem qualquer tipo de subterfúgio, pelo fluxo alucinante que é a vida, fazendo com que a nossa pequenez e impotência se tornem ainda mais evidentes e desesperadoras. A nossa particularidade diminuta, que nos delimita e nos situa perante o mundo, e que chamamos de ego, torna-se absurdamente impotente, sem um ideal que a fortaleça, fazendo com que a discrepância entre o ego e o espírito nos incomode ao ponto de presenciarmos o desespero existencial.

Essa experiência desesperadora, relatada em muitas obras artísticas, faz com que nos lembremos da importância de estabelecermos ideais inalcançáveis, inverificáveis, para que esses permaneçam intocáveis em nossas mentes, não nos sendo permitido desconstruí-los através da experiência e da percepção. Tendo em vista a criação de imagens fixas inverificáveis, que amenizam a impotência humana, possuímos a religião, os deuses, que acompanham o ser humano desde quando esse se deparou com o primeiro resquício de percepção da sua condição existencial.

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Acompanhando a evolução social da humanidade, o conhecimento foi capaz de identificar um novo ideal longínquo, que, diferente da religião, pode ser direcionado para o aprimoramento dos meios de produção, sendo esse ideal o dinheiro, a riqueza. Cada pedaço de papel, cada moeda, que tem valor de mercado, é almejado de forma absurdamente voraz pelos seres humanos; com o capital nunca conseguimos obter o suficiente, nunca estamos satisfeitos, o que nos proporciona ideais inatingíveis, que nos resguardam do desespero. Essa é a nossa nova religião, nosso novo Deus.

A nossa constituição psicológica permite a construção de qualquer meta, qualquer objetivo; no entanto, por falta de senso crítico e de pensamento autônomo, terminamos por nos adequar àquilo que é imposto para nós, direcionando toda a nossa vontade, toda a nossa existência para onde outras pessoas querem, dessa forma podemos nos caracterizar como uma pequena engrenagem que possibilita o funcionamento de um grande sistema, de um estado.

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Toda essa nossa luta cega, toda a energia que gastamos protegendo um ideal que, no fundo, sabemos ser irrelevante, são consequências de apenas um único motivo: o ego. Nossa estrutura psicológica é formulada em função do ego e almeja alcançar apenas um único objetivo, a supressão do indivíduo, a completude.

Existem muitos relatos que nos mostram a ausência do ego em ascetas e em monges, possibilitando-lhes experimentar as sensações mais surpreendentes e satisfatórias. Na nossa estrutura social antinatural a ausência do ego não nos é permitida, pois eliminaria a principal estrutura humana que incita o desespero, o desejo, o ideal e a vontade. Mesmo com a proibição do altruísmo, e da ausência do egoísmo; mesmo com a intensa imposição da valorização do ego, o ser humano ainda se depara com um estado de espírito que lhe mostra a verdadeira essência da existência, sendo essa condição incomum — e desvalorizada pelos mecanismos de imposição do poder — o amor.

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“Talvez eu odeie tudo isso porque um dia amei. Em meio às profundezas do meu ser, um novo arranjo de mundo se tornou evidente para mim; por causa do meu fascínio absurdo por outrem perdi as fronteiras que me delimitavam como indivíduo, o que me permitiu contemplar o mundo sob uma nova perspectiva, sendo ela abrangente e preenchida pelo mais puro e caloroso êxtase.”

“A ausência de si mesmo é perigosa, e para mim, felizmente, esse abandono não durou muito tempo. O amor chegou ao fim, a realidade e a minha consciência o destruíram, mas esse fim não veio sem sequelas; por ter sentido a verdadeira satisfação da existência, tudo, que antes era valorizado por mim, passou a me parecer insosso, intragável, desnecessário. Essa experiência, que me transmutou por completo, fez com que me afastasse cada vez mais da sociedade e de todo o seu materialismo. Mesmo com todo o conhecimento, que essa experiência rara me proporcionou, às vezes olho para as pessoas à minha volta, com todas as suas vontades descabidas e ilusões entorpecedoras, e metade de mim sente vontade de ser como elas.”


Lucas Shiniglia

Sei lá. Sem ter muito o que fazer... eu escrevo. Uma rabiscada aqui, outra ali; às vezes me surpreendo ao ver um texto coerente na minha frente, então — ao invés de colocá-lo em uma pilha de textos anônimos — eu o publico aqui .
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