o vácuo

As paradas da vida pós-moderna.

Lucas Shiniglia

Sei lá. Sem ter muito o que fazer... eu escrevo. Uma rabiscada aqui, outra ali; às vezes me surpreendo ao ver um texto coerente na minha frente, então — ao invés de colocá-lo em uma pilha de textos anônimos — eu o publico aqui

O absurdo que é a nossa existência

“Em qualquer esquina o sentimento de absurdo pode atingir qualquer um, de forma violenta, bem no meio da cara!”


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A região desértica da existência é um local que assusta todas as pessoas. Essa localidade inóspita, que podemos caracterizar como a base do intelecto, talvez seja o principal tormento humano, fazendo com que criemos ilusões que nos afastem do vazio, da incerteza e da fragilidade de nossas vidas. Nessa luta incansável em busca de motivos nos quais possamos nos segurar, acabamos por criar uma unidade das coisas, que nos posiciona, de maneira satisfatória, no mundo. Esse arranjo, que elimina o nosso maior desespero, será defendido de forma voraz, afinal, uma existência saudável depende da manutenção dessa ordenação específica das coisas. Coitado daquele que incite, nem que seja sem a intenção, um questionamento profundo dos ideais que iludem a existência, contra ele será direcionado o ódio mais irracional, mais selvagem.

O absurdo, que é a existência, é desesperador; além de ilusões que amenizam o fardo que é a vida, as pessoas, muitas vezes, recorrem ao suicídio filosófico, quando deparadas com a falta de sentido e a impossibilidade de uma compreensão exata das coisas à nossa volta. Como principal sustentáculo do suicídio filosófico encontramos a ideia da deidade, que tem como função central amenizar as dores e a incerteza existencial, criando um mundo compreensível, mensurável, que nos permita o entendimento e o sentimento de pertencimento, mesmo que para isso abdiquemos da realidade e da nossa capacidade de pensarmos de acordo com aquilo que percebemos, aquilo que sentimos, esse é um preço que a maioria das pessoas não hesita em pagar.

Nessas mentes comuns, que constantemente fogem do absurdo, encontramos a edificação compulsiva dos conceitos. Todos os fenômenos, todos os acontecimentos, são classificados de forma capciosa, sempre tendendo a satisfazer aquilo em que o indivíduo quer acreditar. Esse tipo de construção deturpa a realidade, adequando-a a uma maneira pré-determinada de enxergar o mundo.

Em uma mentalidade que aceita o absurdo, a inteligência se torna evoluída a ponto de encarar cada fenômeno como sendo único, assim enxergando, sem influências conceituais, o mundo. Nesse caso, o conhecimento não será estruturado de uma única forma, mas sim possuirá possibilidades múltiplas, diferentes perspectivas, parâmetros, explicações e objetivos. Nesse tipo de mentalidade, por causa das múltiplas interpretações dos acontecimentos, torna-se impossível ser estabelecido algo de concreto, cabendo a esse indivíduo a característica flutuante, que o permite alterar a maneira de se portar, dependendo das condições externas que lhe são apresentadas. No entanto, esse tipo flutuante de existência não carece de estruturação, nele, diferentemente da estruturação capciosa e direcionada a algo, a construção dos conceitos estará relacionada à maneira como a psique funciona e como os fenômenos realmente ocorrem, priorizando os motivos que melhor expliquem o verdadeiro funcionamento das coisas, independentemente desse conceito ser nocivo aos conceitos presentes no intelecto. De forma indiferente, sem ser direcionada a uma crença, o indivíduo formula suas concepções sobre a vida, o que garante uma maior realidade de seus conceitos.

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O homem que se propõe a viver em meio ao absurdo que é a existência, encarando de frente todos os aspectos da vida, sem se refugiar em ideais e ilusões, vê um mundo vasto em possibilidades se abrir para ele. A falta de sentido da vida é recompensada pela multiplicidade de caminhos a serem seguidos. A depressão e o fracasso são substituídos por uma renovação constante, por um eterno iniciar, um eterno experimentar, um eterno arriscar.

Nessa condição primordial, o pensamento profundo — referente à análise de parâmetros longínquos e inverificáveis como ponderar sobre o multiverso ou sobre a possibilidade de uma vida além-túmulo —, e muito à frente do presente, torna-se inútil. Vivendo o presente, o homem absurdo direciona seu pensamento para coisas realmente palpáveis, não mais perdendo tempo com quimeras longínquas e inverificáveis, adquirindo, dessa forma, um pensamento profundamente superficial, que prioriza assuntos realistas e palpáveis, em detrimento de sonhos alucinados.

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A vida é inútil e sem sentido. Essa sentença, que pode ser o motivo de nosso desespero, também pode ser a principal responsável pela nossa libertação, pelo nosso ímpeto e vontade desenfreada. Quando passamos a encarar a vida de forma indiferente, tornamo-nos livres, tornamo-nos jogadores despreocupados, que almejam apenas se tornarem os melhores jogadores possíveis. Essa característica despreocupada nos permite arriscar desenfreadamente, nunca nos sentindo cansados ou envergonhados, mas sim sempre desejando o nosso aprimoramento, em todos os aspectos.

Uma existência sem esperança, sem objetivos, onde nossa principal preocupação é arriscar e experimentar o máximo possível — para que ampliemos, cada vez mais, nosso conhecimento e a potência da nossa existência — é uma condição a ser almejada.

Jogar, experimentar, permitir-se vivenciar os acontecimentos mais variados, doar-se por completo à vida e todas as suas possibilidades, parece ser uma atitude reservada a poucos, muito poucos. Um estilo de vida ousado, onde não somos nada além do que jogadores, do que atores, foi e sempre será desestimulado por aqueles que pretendem domesticar e enjaular o ser humano. As filosofias covardes estão por toda parte e preconizam que nossa existência terrena não importa, que não devemos arriscar muito, nem nos esgotarmos, que devemos enxergar o mundo de uma forma pré-determinada e imutável, que somos diminutos e impotentes, etc. Todas essas características covardes criam uma população sem senso crítico apurado, que permite a manutenção do status quo, mesmo ele sendo completamente abjeto e incoerente.

O ator compulsivo, que se permite vivenciar todos os acontecimentos, adquiri para si muitas possibilidades de se portar perante os mais variados cenários que a vida pode lhe apresentar. De alma múltipla, e possuindo uma indiferença evidente, esses indivíduos raros e corajosos se permitem experimentar tudo o que a vida tem a lhes oferecer. Talvez, em três horas, essas pessoas, que se permitiram possuir uma constituição rara, vivenciem acontecimentos que um homem comum precisaria de uma vida inteira para conseguir experimentar.

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Possuidores de uma curiosidade louca, os jogadores compulsivos da existência vão experimentando a vida sem limitações, de forma abrangente, esgotando a si mesmos e explorando todas as possibilidades. Em cada acontecimento eles aprendem uma nova lição, com cada experiência eles aprimoram seus corpos e suas mentes, e esse ciclo ocorre desenfreadamente, até que esses atores obtenham todo o conhecimento possível, até que se potencializem ao máximo, até que eles se tornem os jogadores perfeitos.


Lucas Shiniglia

Sei lá. Sem ter muito o que fazer... eu escrevo. Uma rabiscada aqui, outra ali; às vezes me surpreendo ao ver um texto coerente na minha frente, então — ao invés de colocá-lo em uma pilha de textos anônimos — eu o publico aqui .
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