o vácuo

As paradas da vida pós-moderna.

Lucas Shiniglia

Sei lá. Sem ter muito o que fazer... eu escrevo. Uma rabiscada aqui, outra ali; às vezes me surpreendo ao ver um texto coerente na minha frente, então — ao invés de colocá-lo em uma pilha de textos anônimos — eu o publico aqui

Alguns aspectos da sensibilidade

“Suas impressões são precisas, Ulrich, mas você é incapaz de direcioná-las a um objetivo, a uma meta. Suas interpretações — por mais que eu tente refutar e enxergar como erradas, pois você possui uma constituição que muito me impressiona, e que me faz sentir receoso perante minhas crenças e características mais profundas — relatam, com precisão espantosa, a realidade e a natureza das pessoas. Fico impressionado quando tento constatar a veracidade delas; utilizando-as como base para minhas análises, enxergo aspectos que contêm uma lógica e uma abrangência muito aquém da minha capacidade de observar e classificar as coisas.”


deitado na cama.jpg

Após retornar de um ambiente agitado, onde uma grande quantidade de acontecimentos ocorriam ao mesmo tempo, permitindo o desenvolvimento de uma infinidade de linhas de pensamento — característica essa que poderia incomodar uma mentalidade que não possui um arranjo exato e cegamente direcionado a algo —, ele se deitou, mentalmente exausto, na cama. As mais variadas impressões — que o ambiente agitado lhe suscitara — vagavam descontroladas pela sua mente. Longe de qualquer tipo de controle mais efetivo de seus pensamentos, ele se sentia como que “pensado”, observando, atônito, todos os desenvolvimentos sem fim.

Seu espírito era impelido a reconstruir, constantemente, suas construções conceituais, em função das situações que eram desenvolvidas por ele. Esse acontecimento era exaustivo, fazendo com que seu cérebro chegasse, até mesmo, a doer; dor essa que era facilmente justificada, pois habitualmente nos deparamos com a nossa constante recusa em reestruturarmos nossos conceitos, pois a construção do cenário à nossa volta é sempre cansativa, exigindo um esforço intelectual incomum, cansativo. Se uma pequena mudança é capaz de deixar qualquer um cansado, ou, em alguns casos não tão raros, desesperados, imagine uma mudança constante, ininterrupta.

Esse aspecto, por si só, é digno de condolência, entretanto, aquilo que vinha junto com essas mudanças abruptas e contínuas eram interpretações exageradas, extremistas, que a mente é exímia em elaborar, e que faziam com que ele se sentisse constantemente desesperado ou absurdamente satisfeito, característica essa que agravava ainda mais a situação, já exaustiva, tornando-a digna não apenas de condolências, mas sim da compaixão mais profunda e sincera.

Esse homem complexo — que agora se encontrava esparramado pela cama —, possuidor de um dom que mais parece uma maldição, era um combatente à altura das condições que a vida lhe apresentava. Ele constantemente tentava criar ideais, com o intuito de que eles iriam eliminar a hiperatividade da mente e restringir a quantidade imensurável de informações que a realidade nos apresenta. Após várias tentativas ele havia se tornado um habilidoso construtor de ideais; ele se esforçava para estabelecer ideais longínquos, que se encontrassem distantes de uma verificação minuciosa, pois ele sabia, desde sempre, que a realidade é extremamente eficiente quando se trata de desconstruir ideais. No entanto, para uma mentalidade cética, abrangente e de senso crítico apurado, como a dele, os ideais longínquos e inverificáveis eram impossíveis de ser construídos, restando-lhe apenas um tipo de construção de ideal, sendo ele mais verificável, próximo, plausível, lógico; característica essa que, por causa da proximidade, fazia com que qualquer ideal fosse de difícil manutenção.

Tendo em vista esses parâmetros, ele se esforçava para observar qualidades sublimes nas coisas, para depois, afastando-se daquilo que primeiramente lhe encantava e fornecia conceitos muito úteis para a construção de um ideal, desenvolver em sua mente, que sempre exagerava, o ideal que passava a preencher e direcionar sua existência. Preocupando-se em não manter contato com os ideais que eram tão arduamente construídos, ele conseguia evitar que a realidade desconstruísse suas construções, permitindo-lhe manter, por muito tempo, conceitos que limitavam as suas impressões.

Ainda deitado na cama, ele incitava a lembrança de seu ideal mais habilmente construído, organizando seu espírito em função dessa lembrança e fugindo das inumeráveis impressões que tanto o atormentavam. Mesmo possuindo a habilidade de estabelecer ideais para si, ele, ainda assim, se preocupava em fortalecer sua mente, seu espírito, para que em um futuro, que ele esperava não ser muito distante, sua mente adquirisse a sabedoria e a força necessária para que ele se tornasse capaz de encarar a realidade sem subterfúgios, sem ideais, em sua incrivelmente alucinante multiplicidade.


Lucas Shiniglia

Sei lá. Sem ter muito o que fazer... eu escrevo. Uma rabiscada aqui, outra ali; às vezes me surpreendo ao ver um texto coerente na minha frente, então — ao invés de colocá-lo em uma pilha de textos anônimos — eu o publico aqui .
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/literatura// @obvious //Lucas Shiniglia