Ampliando a consciência

“Ele provavelmente não adivinhava, até então, o quanto eu me sentia infeliz todas as noites, o que minha mãe e a minha avó sabiam muito bem; mas elas me amavam o bastante para não consentir que me poupassem o sofrimento, pois desejavam que eu aprendesse a dominá-lo, a fim de diminuir a minha sensibilidade nervosa e fortalecer minha vontade.”


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Cada nova impressão percorre nossa mente com uma intensidade assustadora, selvagem, adquirindo proporções incrivelmente exageradas. Até mesmo um pequeno detalhe pode suscitar uma perspectiva desesperadora, ou absurdamente satisfatória. Em nossa mente os acontecimentos são desenvolvidos longe do nosso controle, irracionalmente, apresentando-nos cenários que contêm a satisfação mais incrivelmente perfeita ou cenários que contêm as características mais abjetas e desesperadoras, sendo essas possíveis construções carentes de meio-termo, ou de possibilidades que se aproximem da realidade.

Longe de verificações mensuráveis, ou de parâmetros e consequências realmente plausíveis, nossa mente vai desenvolvendo as nossas impressões. Amor ou ódio, redenção ou aniquilação, arquétipo ou sombra, sempre fazendo construções exageradas e irreais, essa é a maior característica do nosso intelecto.

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Esse acontecimento intrínseco, que ocorre independentemente da nossa vontade racional, termina por determinar aquilo que nos é mais valioso, os nossos objetivos, os nossos medos; e, de acordo com essas construções, adquirimos a nossa intuição, as nossas sensações; através dessas elaborações profundamente obscuras, ininteligíveis e incompreensíveis vamos sendo direcionados pela vida.

Deparados com essas nossas características profundas, podemos nos assustar com a constatação de que nossa mentalidade é muito mais instável do que nos parece, assim como podemos passar a temer qualquer pequeno acontecimento, que possui potencial para se tornar o responsável por um colapso mental; no entanto, esses medos são eliminados pelo próprio intelecto, que possui numerosos mecanismos de proteção, prontos para deturparem todos os aspectos da realidade em prol da nossa sanidade.

Estima-se que, até mesmo em uma simples conversa, nós utilizamos diversos mecanismos de proteção, sendo eles responsáveis por amenizar ou, até mesmo, deturpar as nossas impressões, impedindo que o intelecto se depare com uma informação que possa suscitar uma interpretação assustadora.

Entretanto, nos seres sensíveis esses aspectos psíquicos são diferentes. Neles, que enxergam demais e não são capazes de estabelecer uma estrutura exata dos conceitos, uma relação exata entre suas numerosas percepções, uma alma não é capaz de se estabelecer, e sem alma, sem direcionamento e conteúdos pré-determinados, os mecanismos de proteção deixam de existir. Nesse caso, todo acontecimento chega sem filtros ou deslocamentos ao intelecto; sem uma consciência abrangente e desenvolvida, as estruturas do intelecto vagam descontroladas e incertas, constantemente criando novos cenários, novas interpretações exageradas, desesperadoras, longe de qualquer tipo de controle.

O desespero assustador, a felicidade alucinada, o chiste que gera tensão, que é dissipada com uma risada selvagem; todas essas características, dignas de uma constituição em formação e sem consciência, estão presentes em muitos adolescentes, e, até mesmo nessas pessoas, em evidente formação intelectual, essa é uma característica um tanto rara; a maioria das pessoas realmente nasce póstuma.

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Os esforços do intelecto são ininterruptos, a mente possui parâmetros a serem preenchidos, e a todo momento, em uma mentalidade flutuante, esses mecanismos adquirem um conteúdo. A perspectiva mais satisfatória que ao mesmo tempo é a mais nociva e algo irrelevante; é dessa forma incerta e múltipla que o intelecto se estrutura enquanto não encontra seus conteúdos exatos. Alternando a todo instante os conteúdos e os motivos, o humor muda constantemente; a alegria de um momento se tornou a tristeza da hora seguinte e a informação irrelevante do dia seguinte, tudo é mutável, o espírito está fresco e em sua potência máxima, alternando constantemente os cenários e a forma do indivíduo de se interpretar perante as constantes construções.

Com pouca consciência e sem mecanismos de proteção, essas pessoas se deparam com paixões intensas, que prometem sanar todos os desejos da existência, assim como se deparam com aspectos que aparentam aniquilar tudo o que existe; esses aspectos exigem uma vontade descomunal para que sejam controlados, para que não incitem atos desesperados.

Angustiados em meio a sensações e estruturas intensas e muito longe que qualquer tipo de controle, esses seres, nos casos comuns, veem com satisfação a existência de uma estrutura exata de mundo, que lhes proporciona um conteúdo inconsciente comum e exato, que os permite eliminar todas as possibilidades discrepantes e criar uma alma e um espírito imutáveis, que permitem a existência de mecanismos de proteção, permitindo-os, desse modo, que se desvencilhem da incerteza agonizante e controlem suas impressões exageradas, característica essa que os torna irracionais para sempre.

No entanto, em casos raros, alguns seres destemidos, que possuem uma constituição forte, decidem encarar a vida e os sentimentos de frente. Ampliando sua imaginação mensurável, constatável, que pode ser analisada e direcionada (consciência), esses seres vão estruturando, de forma racional, todos os seus sentimentos e impressões, vão se tornando indivíduos evoluídos, capazes de entender e controlar todos os aspectos da psique. Eles buscam, avidamente, todos os tipos de experiências para que possam forjar, na oficina que é a mente, a consciência, ainda não criada, da sua raça.


Lucas Shiniglia

Sei lá. Sem ter muito o que fazer... eu escrevo. Uma rabiscada aqui, outra ali; às vezes me surpreendo ao ver um texto coerente na minha frente, então — ao invés de colocá-lo em uma pilha de textos anônimos — eu o publico aqui .
Saiba como escrever na obvious.
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