o vácuo

As paradas da vida pós-moderna.

Lucas Shiniglia

Sei lá. Sem ter muito o que fazer... eu escrevo. Uma rabiscada aqui, outra ali; às vezes me surpreendo ao ver um texto coerente na minha frente, então — ao invés de colocá-lo em uma pilha de textos anônimos — eu o publico aqui

Sobre a sensibilidade

“Por causa da minha sensibilidade exacerbada eu perdi a vida.”


“Desde pequeno eu sabia que não era igual às pessoas com as quais convivia; distante dos discursos vazios e dos olhares limitados, eu sentia alguma merda acontecendo dentro de mim.” A expressão de Bukowski é impactante e evidencia toda a sua discrepância, quando comparado às pessoas ditas “normais”, que pode ser observada em todos os seus escritos.

Nesse contexto de constituições raras e inteligências muito acima da média, temos registradas, felizmente, as percepções daqueles que são considerados “anormais”, “esquisitos”. Ideias complexas e interpretações inovadoras estão documentadas em obras de arte, que, por evidenciarem conceitos que se aproximam da realidade ou, até mesmo, do ideal, se tornam imortais. Os indivíduos sensíveis enxergam mais e melhor — isso é fato —; entretanto, é preciso que questionemos o que permite a certas pessoas enxergarem e sentirem mais, é preciso que desvendemos os motivos que fazem com que esses indivíduos sejam considerados fenômenos incrivelmente incomuns.

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Primeiramente, a raridade dos seres sensíveis se dá por conta da mentalidade que é preciso ser mantida para permitir a existência de uma percepção abrangente e de insights inovadores. Dotados de uma constituição sem ideais ou parâmetros pré-estabelecidos, os seres sensíveis se tornam capazes de desenvolver as mais variadas interpretações para aquilo que observam, que sentem; sem ideais ou objetivos, a percepção dos incomuns não é restringida, não é direcionada, permitindo-lhes enxergar qualquer coisa, possibilitando a construção de qualquer tipo de conceito. A ausência de ideais os permitem enxergar demais, e esse enxergar demais os tornam empatas, faz com que se desprezem e suprimam a valorização do ego, de si próprio, perante a imensidão de possibilidades e a presença de parâmetros muito mais relevantes do que si mesmos.

As múltiplas possibilidades que são desenvolvidas pelos seres sensíveis, e a ausência do ego, faz com que eles se deparem com o fim dos sentimentos. A infinidade de possibilidades é acompanhada da impossibilidade desses seres se posicionarem, de forma exata, perante algum acontecimento. Deparados com parâmetros e incertezas sem fim, eles se tornam indiferentes a todas as possibilidades e absurdamente agoniados por causa dessa característica; por serem sensíveis demais os seres incomuns se tornam indiferentes, apáticos.

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Perdidos nas profundezas da existência, alguns seres sensíveis nos descreveram seus dias no inferno:

“Enquanto espero pelas minhas realizações covardes, escrevo para vocês, que valorizam uma escrita com falta de descrição e gramática, mostro algumas páginas do meu hediondo diário de uma alma condenada.”

“Farto de ver. A visão que se reencontra em toda parte. Farto de ouvir. O ruído das cidades, à noite, e ao sol e sempre. Farto de saber. As paradas da vida — Ó ruídos e visões! Partir para afetos e rumores novos.”

“Sua sensibilidade misteriosa me seduziu. Esqueci minhas tarefas humanas e o segui. Que vida! Nós não estávamos nesse mundo, a verdadeira vida está ausente. Eu o segui, tive que fazer isso. Constantemente ele se enfurecia comigo, comigo, pobre alma. O demônio! Ele é um demônio, não é humano.”

“Nenhuma outra alma teria força suficiente para suportar o desespero. A alma dele era como um palácio, vazia a ponto de não ser possível encontrar um ego.”

“Tortura insuportável, onde precisamos de toda a nossa fé, de poderes super-humanos, que nos permite ser o mais paciente, o grande criminoso, o amaldiçoado — e o sábio supremo, entre os homens! —, porque perscrutamos o desconhecido! Porque cultivamos nossa alma, desde sempre rica, mais do que os outros! Alcançamos o desconhecido, e quando, loucos, terminamos perdendo a sabedoria de nossas visões, ela continuará viva em nossas obras, propagando as sensações inalteráveis e inomináveis, para que outros trabalhadores destemidos as utilizem, iniciando seus trabalhos de onde outros, antes deles, falharam.”

“Estou em um abismo profundo, e há muito não sei mais como rezar.”

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Mesmo perante todos os perigos de uma constituição sensível, ainda encontramos falastrões ridículos, querendo pregar sobre a sensibilidade. Por experiência própria posso dizer que aqueles que fazem discursos fervorosos sobre os sentimentos são os indivíduos mais insensíveis, egoístas e ignorantes. Olhando seus rostos imaculados, que nunca presenciaram o abismo da nossa existência, permaneço em silêncio, ouvindo calado a suas falácias sem sentido, e os imaginando como personagens do poema, castigo do orgulhoso, escrito por Baudelaire:

“Sua razão de pronto a pó se reduziu.

A flama deste sol de negro se tingiu;

O caos se lhe instalou então na inteligência,

Templo antes vivo, pleno de ordem e opulência,

Sob cujos tetos tanto Fausto resplendia

E nele floresceram a noite e a agonia,

Qual numa furna cuja boca jaz selada.

Desde então, semelhante aos animais de estrada,

Quando ia ao campo sem saber nem sequer quem era,

Sem distinguir entre o verão e a primavera,

Imundo, ocioso e feio como coisa usada,

Fazia riso e a diversão da meninada.”


Lucas Shiniglia

Sei lá. Sem ter muito o que fazer... eu escrevo. Uma rabiscada aqui, outra ali; às vezes me surpreendo ao ver um texto coerente na minha frente, então — ao invés de colocá-lo em uma pilha de textos anônimos — eu o publico aqui .
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