o vácuo

As paradas da vida pós-moderna.

Lucas Shiniglia

Sei lá. Sem ter muito o que fazer... eu escrevo. Uma rabiscada aqui, outra ali; às vezes me surpreendo ao ver um texto coerente na minha frente, então — ao invés de colocá-lo em uma pilha de textos anônimos — eu o publico aqui

A realidade líquida

“Esteja preparado para mudar rapidamente, muitas vezes.”


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Em meio ao ambiente completamente mutável em que vivemos, é imprescindível estarmos preparados para mudanças constantes, ininterruptas.

Em nossa vida, os elementos com os quais nos deparamos podem ser considerados como sendo líquidos, como fazendo parte de um rio ininterrupto, contínuo, que sempre está em movimento, sempre muda; nesse contexto, encontramo-nos perante a vida e seu fluxo ininterrupto e alucinante. Quando nos aproximamos das coisas e tentamos classificá-las percebemos o quanto essa nossa tarefa é ineficiente, e nos sentimos profundamente frustrados com isso, principalmente porque a mentalidade humana exige respostas imediatas e claras para as coisas com as quais ela se depara, fazendo com que a falta de definição das coisas seja uma característica insuportável para nós. Tendo em vista essa nossa necessidade profunda, arriscamo-nos para tentar definir aquilo com o que mantemos contato, aproximamo-nos da liquidez das coisas e nos esforçamos para classificá-las. Essa nossa tarefa constante logo se mostra ineficiente; como em um rio, quando colocamos as mãos na água, mantendo-as unidas em formato de uma concha, e capturamos o máximo que podemos da liquidez, sentimos o conteúdo líquido tocar as nossas mãos, sentimos esse conteúdo escapar por entre nossos dedos, até que olhamos para nossas mãos e a encontramos vazia, sem nada. Após observar essa primeira tentativa ineficiente de classificação, armamo-nos com algum elemento que nos ajude a capturar o conteúdo que se encontra à nossa frente, como, por exemplo, um pote de vidro. Durante essa segunda tentativa, obtemos sucesso; tornamo-nos capazes de capturar e definir com exatidão a essência daquilo que nos propomos a definir, mas, no entanto, não conseguimos mais sentir aquilo que classificamos, o que nos faz permanecer distantes, indiferentes, em relação àquilo que definimos.

Absortos nessas complicações iniciais de classificação das coisas, deparamo-nos com uma última e ainda mais complexa condição do ambiente em que nos encontramos. Nele, as coisas se movimentam e se alteram de maneira ininterrupta, constante. Quando pensamos finalmente ter definido algo que tanto absorveu nosso tempo, olhamos felizes para o exterior, para fora da nossa mente reflexiva, que tanto se esforçou para definir aquilo que parecia ser essencial para nós, e quando analisamos o novo arranjo das coisas, percebemos que nossas classificações, exaustivamente construídas, são inúteis, obsoletas; todas as coisas se transmutaram, o fluxo contínuo do rio alterou por completo o nosso elemento de análise, e agora nos deparamos com um cenário completamente novo, onde nossas explicações e objetivos são inúteis, irreais.

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“Quando mudamos aquilo em que acreditamos, mudamos o que fazemos.”

Após a descrição do cenário no qual estamos inseridos, percebemos o quanto é necessário que constantemente alteremos nossas crenças e classificações, para que essas se adaptem ao ambiente, ao arranjo das coisas, com o qual nos deparamos. Essa condição existencial não só pode, como deve ser aplicada a todas as instituições, governos, companhias, etc., pois, afinal, qualquer uma das organizações, que foram anteriormente citadas, pode ser considerada, sem exceção, como sendo um grande organismo vivo, um ser vivo, que quanto mais se aproxima da verdadeira essência das coisas, quanto mais se aproxima da natureza, mais eficiente se torna. Nesse cenário as pessoas e as companhias vão tomando decisões, vão elaborando suas concepções e estratégias. Aqueles que são mais inteligentes e perceptivos, constantemente se veem obrigados a alterar seus conceitos, por causa da constatação de que o ambiente externo se encontra completamente diferente, completamente discrepante aos conceitos que os guiam, que os direcionam pela vida.

Esse nosso exercício constante de redefinição de ideais e metas, é uma tarefa ininterrupta, e absolutamente necessária para o melhor aproveitamento das condições que o ambiente nos apresenta. Constantemente nos vemos mergulhados em nossas memórias, alterando nossas concepções, alterando nossos parâmetros e a nossa interpretação das coisas; nesse processo contínuo vamos aprimorando nossos conceitos, vamos adquirindo informações que melhor relacionam as coisas, atributo esse que nos permite possuir uma versão mais precisa e eficiente de nós mesmos. Esse processo de correção e aprimoramento sempre ocorrerá em nossas vidas, até que, por fim, entregamos nossa melhor versão, de graça, aos vermes.


Lucas Shiniglia

Sei lá. Sem ter muito o que fazer... eu escrevo. Uma rabiscada aqui, outra ali; às vezes me surpreendo ao ver um texto coerente na minha frente, então — ao invés de colocá-lo em uma pilha de textos anônimos — eu o publico aqui .
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