o vácuo

As paradas da vida pós-moderna.

Lucas Shiniglia

Sei lá. Sem ter muito o que fazer... eu escrevo. Uma rabiscada aqui, outra ali; às vezes me surpreendo ao ver um texto coerente na minha frente, então — ao invés de colocá-lo em uma pilha de textos anônimos — eu o publico aqui

Você não fica animado quando descobre uma coisa rara?

E naquele momento percebi que não conhecia aquela pessoa de forma abrangente. Aquele gesto tornou evidente um conteúdo raro, que muito me encantou, mas que parece estar muito bem escondido, ocultado por várias máscaras, que apenas agora não foram capazes de resguardar tanta beleza.


neal-cassady-ve-jack-kerouac.jpg

Os dias passam de uma forma tão banal, tão entediante. Nas ruas encontramos apenas as mesmas expressões nos rostos das pessoas, as mesmas atitudes e reações, fazendo com que todos se pareçam robôs previamente programados, que são incapazes de determinarem o que quer que seja por si próprios; a mesma polidez insossa, que esconde o desprezo mais intenso; a mesma mediocridade de sempre, que não se cansa de enxergar apenas aspectos negativos em todas as coisas.

Quando o marasmo começa a entorpecer nosso corpo, fazendo com que nos sintamos sufocados e desiludidos, acabamos por criar uma imagem daquilo que irá nos agradar, que irá iluminar os nossos dias, que irá proporcionar características satisfatórias para tudo o que encontramos, e que tanto nos incomoda.

Nutridos por nossas ilusões, vamos, a princípio, nos sentindo novamente satisfeitos; nossas imagens ideais de mundo, criadas com tanta convicção pela nossa mente, alteram a antiga realidade, que tanto nos incomodava, formulando novos aspectos e interpretações para as coisas à nossa volta. Entretanto, a constatação da discrepância entre nosso ideal e a nossa realidade faz com que comecemos a nos sentir cada vez mais frustrados com o nosso cotidiano. Nesse ponto, percebemos o quanto nosso ideal se tornou nocivo e nos esforçamos para alterá-lo, reduzi-lo, e torna-lo mais compatível com a realidade, mais realizável, e, desse modo, menos discrepante e opressor.

E é em meio à banalidade, e a reestruturação de ideais, que vamos vivendo; até que alguma coisa perece deixar de seguir o caminho habitual, ausentando-se graciosamente do marasmo comum e nos apresentando aspectos inusitados e raros. A beleza das impressões raras sempre nos deixa fascinados, a princípio; cada movimento espontâneo, daquilo que nos aparenta ser tão incomum, tão puro, tão superior, cada reação inusitada e graciosa, deixa uma sensação da satisfação mais profunda e sincera.

Tendo em vista esse novo arranjo, nosso corpo parece ser abastecido por um fluxo agradável, que nos deixa entusiasmados, esperançosos e animados com todos os aspectos da vida, que se transmutam por completo durante essas descobertas raras, e se tornam plenos em todos os sentidos e nuances.

Os momentos que nos fascinam são raros, por isso é preciso que estejamos sempre atentos, sempre despertos, para sermos capazes de enxergar as possibilidades mais belas e raras, para que possamos encontrar as almas mais lindas e inimitáveis, antes que essas desapareçam do nosso alcance, sem nunca nos mostrarem suas qualidades exóticas e evoluídas.

beat_kerouac.jpg

Longe daquilo que nos encanta, os minutos parecem se tornar horas, e as horas dias. A necessidade de estarmos perto daquilo que nos fascina é intrínseca. Desejamos observar cada ação, cada reação daquilo que se tornou incrivelmente agradável para nós. Desejamos conversar, o tempo inteiro, com nosso amigo inimitável, falando sobre tudo, sobre todos, sobre os sentimentos mais profundos e as experiências mais incomuns, como que repondo anos de conversa com nosso confidente mais perfeito, que sempre permaneceu escondido, distante, existindo apenas nas profundezas da mente, até se tornar real, palpável.

A satisfação mais confortante, as impressões mais empolgantes. Ah, como é bom descobrir uma coisa rara!


Lucas Shiniglia

Sei lá. Sem ter muito o que fazer... eu escrevo. Uma rabiscada aqui, outra ali; às vezes me surpreendo ao ver um texto coerente na minha frente, então — ao invés de colocá-lo em uma pilha de textos anônimos — eu o publico aqui .
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/recortes// //Lucas Shiniglia