o vácuo

As paradas da vida pós-moderna.

Lucas Shiniglia

Sei lá. Sem ter muito o que fazer... eu escrevo. Uma rabiscada aqui, outra ali; às vezes me surpreendo ao ver um texto coerente na minha frente, então — ao invés de colocá-lo em uma pilha de textos anônimos — eu o publico aqui

A cultura e as coisas

“Livre de relação, a representação pode se dar como pura apresentação.”


Um pintor transmite em seu quadro uma representação; ele analisa o ambiente e assimila as coisas através de uma associação aos seus conceitos e motivos, transmitindo uma representação que tem como base uma definição particular, entendimento, dos fenômenos e dos elementos que são percebidos por ele. Quando eliminado o pintor que representa, abandonando suas particularidades e pontos de vista, abandonando padrões pré-estabelecidos e perspectivas específicas, e deixando que o quadro represente toda a infinidade de interpretações possíveis, todo o vazio por trás dos conceitos, podemos, finalmente, encará-lo como pura apresentação.

as meninas.jpg

É do feitio humano buscar, a todo o momento, estabelecer uma representação exata para as coisas que percebemos. Essa nossa característica mais profunda tem como objetivo afugentar a incrivelmente perigosa multiplicidade e mutabilidade que a realidade nos apresenta, fazendo com que nos sintamos mais satisfeitos perante uma interpretação imutável das coisas. Entretanto, desde sempre sabemos que estabelecer uma ordem fixa, em um meio onde tudo é mutável, é incoerente e ineficiente.

Tendo em vista nossa necessidade intrínseca de mantermos nossas interpretações exatas em um mundo mutável, criamos os mais variados mecanismos de proteção, que afastam qualquer tipo de parâmetro que questione nossas crenças mais profundas. A percepção seletiva, os deslocamentos e o ódio, contra aquilo que não reforça nossos conceitos, são apenas alguns de nossos mais variados mecanismos de proteção, que existem independentemente da nossa vontade consciente, dessa forma, agindo sobre nós sem que nem ao menos sejamos capazes de perceber suas ações.

Afastados do vazio existencial, graças aos nossos mecanismos de proteção que mantêm firmes as nossas crenças, vamos vivendo, sempre fazendo construções conceituais capciosas, que almejam apenas manter a estrutura que nos impede de mergulhar na assustadora multiplicidade presente na pura apresentação das coisas. Nesse contexto, os seres humanos desprezam a verdade em prol daquilo que mantém suas crenças. Essa nossa característica profunda muitas vezes pode ser encontrada na literatura: “A alma tem que ser eterna, pois sem isso eu não seria capaz de suportar a vida”; “Acredito em Deus não porque Ele exista, mas porque ele é útil.”; “Partindo de uma liberdade ilimitada chega-se a um despotismo sem limites.”

Dostoievski photo.jpg

Até mesmo as constituições mais fortes, quando se depararam com o vazio existencial e a incrivelmente alucinante infinidade de possíveis interpretações, buscaram estabelecer conceitos fixos e imutáveis, que os mantivessem distantes do desespero perante nossa verdadeira condição existencial. Essas tentativas de elaboração de conceitos imutáveis, de definição das coisas à nossa volta, são definidas como sendo a cultura, e aqueles que eram detentores do poder de elaboração dos conceitos se tornaram os primeiros déspotas.

Todos os seres humanos, visando não sucumbirem à pluralidade das coisas, se adequaram às condições impostas pelos déspotas, para que, apenas assim, eles pudessem adquirir uma existência que não fosse desesperadora, insuportável.

A antirrealidade, que permitiu a manutenção de uma espécie que possui a capacidade de sucumbir por si própria, por causa de seu intelecto avançado, pode ser caracterizada como uma elaboração conceitual muitas vezes infundada e limitada, quando comparada com o verdadeiro comportamento das coisas. No entanto, nossos conceitos culturais, que vêm sendo elaborados e incrementados desde o início da humanidade, e que guiam as condutas humanas, muitas vezes passam por alterações drásticas, exigindo que as pessoas se adequem às novas formas de enxergarmos as coisas.

No livro Dom Quixote, Miguel de Cervantes descreve um exemplo de representação obsoleta, que não mais é condizente com a forma de encarar e se portar perante as coisas. Dotado de uma concepção ultrapassada, o herói do livro vive aventuras incoerentes, que não mais têm relação com a forma vigente das condutas humanas e com a mentalidade com a qual as pessoas devem enxergar as coisas; as atitudes do herói fazem com que ele seja considerado como sendo louco.

dom quixote.jpg

Distantes das formas vigentes de se enxergar as coisas, o gênio se encontra muito próximo ao louco; ambos estão situados no limiar entre conceitos profundos, que relatam a verdadeira essência das coisas, e conceitos infundados, incoerentes; eles perscrutam além das condições e das crenças que nos são impostas; apenas eles são capazes de criar o novo, de refutar os dogmas incoerentes, de estabelecer conceitos que se aproximem da realidade das coisas.

“Afastei-me de toda a cultura, desprezei as condutas pré-concebidas e aboli a linguagem, que continha relações capciosas com as coisas. Despi-me de qualquer tipo de identidade sociocultural, para que pudesse, finalmente, analisar, de forma imparcial, as coisas.”


Lucas Shiniglia

Sei lá. Sem ter muito o que fazer... eu escrevo. Uma rabiscada aqui, outra ali; às vezes me surpreendo ao ver um texto coerente na minha frente, então — ao invés de colocá-lo em uma pilha de textos anônimos — eu o publico aqui .
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/sociedade// @obvious, @obvioushp //Lucas Shiniglia