o vácuo

As paradas da vida pós-moderna.

Lucas Shiniglia

Sei lá. Sem ter muito o que fazer... eu escrevo. Uma rabiscada aqui, outra ali; às vezes me surpreendo ao ver um texto coerente na minha frente, então — ao invés de colocá-lo em uma pilha de textos anônimos — eu o publico aqui

Nós, os inconformados

“Ele chegou a casa amargurado, deparado com a força descomunal que não consegue encontrar, nem ao menos, uma singela atividade que lhe permita expressar sua oposição à perfeita inadequação do mundo.”


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A mente possui estruturas a serem preenchidas, sendo essas estruturas capazes de adquirir qualquer tipo de conteúdo, qualquer tipo de interpretação, que podem, até mesmo, carecer de lógica e referencias palpáveis, características essas que não impedem que uma determinada interpretação se torne uma verdade absoluta e inquestionável.

Em meio a construções conceituais capciosas, nós vamos, desde muito cedo, adaptando nossa percepção e o nosso pensamento para que assimilemos por completo o mundo, da forma como outras pessoas querem que enxerguemos ele.

Uma observação despretensiosa é capaz de tornar evidente esse aspecto da nossa existência. Aqueles que preconizam que cada indivíduo determina a sua representação de mundo estão completamente equivocados. A única coisa que consigo perceber à minha volta é uma busca desenfreada por adaptação, por adequação aos valores vigentes, em detrimento de qualquer tipo de interpretação particular.

As pessoas abandonam toda sua originalidade para que se tornem exímios repetidores superficiais, incapazes de fazerem uma interpretação particular das coisas à sua volta. Sem senso crítico e sem imaginação, são essas as características mais evidentes em um ser social.

Em contrapartida a todo esse discurso revelador sobre a nossa condição existencial, percebemos o quanto é improvável que não nos limitemos e nos adaptemos aos conceitos sociais, por mais que eles pareçam retrógrados a um observador lúcido. Afinal, a nossa existência é hiper-relevante e essencial para que possamos abrir mão dela por causa de um conflito ideológico, por causa de uma consciência pesada que não se sente confortável em fazer parte de um estado tirânico, governado por homens lunáticos e egoístas. Por fim, não é de se impressionar que a família Samsa tenha se tornado tão famosa; ela é uma síntese crua e evidente da nossa condição existencial, da nossa luta desmedida pela sobrevivência, da nossa fuga desesperada e constante da dor e da morte, que em nossa mente adquire proporções absurdamente exageradas e aterrorizantes, fazendo com que nos adequemos a qualquer condição que nos é imposta.

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Nossa sobrevivência é tão importante que, até mesmo, desenvolvemos mecanismos para afugentar a presença de uma consciência pesada, que não concorda com aqueles que determinam a nossa forma de ser.

Em nosso mundo, onde a grande maioria das pessoas são acometidas pela síndrome de Estocolmo — que as permite possuir uma existência saudável —, podemos considerar um fenômeno extremamente raro a existência de pessoas que possuem uma mentalidade desenvolvida de forma particular, individual, que não sucumbiu à alienação e à imposição dos valores vigentes, por mais que eles fossem estimados por todos.

Sem se submeterem a conceitos pré-estabelecidos ou a juízos sintéticos, esses seres raros vão estruturando a sua mentalidade, sua própria forma de ser, que tem como referência nada além do que suas percepções e sensações.

Nessas mentalidades cheias de senso crítico e de imaginação, várias possibilidades se tornam plausíveis, coerentes, fazendo com que a razão prática torne-se, cada vez mais, insossa e incoerente; acabando, por fim, tornando-se um motivo de escárnio, que muitos filósofos não se cansam de retratar em seus escritos: “Conforme fui crescendo, abri meus olhos e vi o verdadeiro mundo, a verdadeira forma como a vida se apresentava para mim, e então eu comecei a rir, e não parei desde então. Eu percebi que o sentido da vida é ter uma bela casa, que o maior objetivo é ter um emprego rentável, que a interpretação mais elevada de amor é se casar com uma mulher bela e rica, que sabedoria é dizer aquilo que a maioria pensa, que coragem é nos arriscarmos com o intuito de ganhar uns trocados, que cordialidade é dizer belas palavras a uma pessoa, que paixão é falar de forma fervorosa sobre algo; foi isso o que vi, e é por causa disso que rio desde então.”


Lucas Shiniglia

Sei lá. Sem ter muito o que fazer... eu escrevo. Uma rabiscada aqui, outra ali; às vezes me surpreendo ao ver um texto coerente na minha frente, então — ao invés de colocá-lo em uma pilha de textos anônimos — eu o publico aqui .
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