o vácuo

As paradas da vida pós-moderna.

Lucas Shiniglia

Sei lá. Sem ter muito o que fazer... eu escrevo. Uma rabiscada aqui, outra ali; às vezes me surpreendo ao ver um texto coerente na minha frente, então — ao invés de colocá-lo em uma pilha de textos anônimos — eu o publico aqui

Nós seguimos os mais confiantes

“Nós não seguimos os mais inteligentes, mas sim os mais confiantes.”


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Cada pessoa possui uma forma própria de interpretar os acontecimentos, de enxergar as coisas. Em um ambiente que nos permite uma infinidade de construções conceituais plausíveis, que são responsáveis por classificar e determinar aquilo que percebemos, deparamo-nos com a multiplicidade das interpretações, característica essa que evidencia o quanto os nossos conceitos são incertos e não possuem uma referência exata.

Em meio a essa relação inexata e múltipla entre os conceitos que nos situam perante o mundo, deparamo-nos com uma incerteza que se torna intrínseca em nós, que se aloja nas profundezas do nosso ser e sempre nos impede que direcionemos toda a nossa energia rumo a um parâmetro, a um conceito, pois nossas múltiplas interpretações sempre irão colocar nossas definições sob suspeita, dando-lhes um aspecto de insegurança, incerteza.

Essa nossa incerteza profunda pode ser observada toda vez que propomos, a nós mesmos, uma determinada resolução, ou uma determinada definição das coisas. Entretanto, não são todas as pessoas que possuem essa incerteza profunda, algumas pessoas apresentam uma estrutura conceitual veemente, que proporciona a elas uma característica sedutora, de uma segurança sedutora, que nos faz refutar nossas crenças incertas para que adotemos aquilo que se tornou tão irrefutável, tão exato, nos olhos de outrem. E essa é a principal característica dos líderes: uma construção conceitual veemente, exata e sem incertezas, aspecto esse que se espalha por todo o corpo, que está presente em todas as atitudes — que não mais aparentam ser inseguras, impotentes, como que se não possuíssem conceitos antagônicos que impedem o indivíduo de direcionar toda a sua energia ruma a algo. Influenciadas por esses indivíduos que deixam transparecer conceitos exatos e irrefutáveis, as pessoas se sentem tentadas a seguir aquilo que é proposto por essas personalidades convictas, independentemente da necessidade de que aquilo que é proposto seja realmente melhor. As pessoas não seguem os mais inteligentes, mas sim os mais confiantes.

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Possuidores dessas características profundas, que fazem parte da natureza e dos desejos primordiais do nosso ser, vamos, ao longo da vida, abrindo mão dos nossos conceitos para passar a interpretar as coisas de acordo com aquilo que outras pessoas nos ensinam. A imposição dos conceitos começa desde cedo, e até a idade adulta a maioria das pessoas já não mais possui a capacidade de pensar por si própria. Desestimulados, desde cedo, a valorizarmos nossas próprias impressões e conceitos, vamos assimilando apenas aquilo que nos permitem compreender, vamos nos tornando exatamente aquilo que outras pessoas querem que nos tornemos.

Toda a veemência e os conceitos tidos como irrefutáveis, e que são adotados pela grande maioria das pessoas — assim determinando sua personalidade, sua forma de enxergar, de interpretar as coisas —, parecem não resistir a uma análise mais pormenorizada, profunda e abrangente, revelando-nos, dessa forma, a fragilidade dos pilares que server de base para que se instaurem as sociedades. Esse aspecto, quando é ainda mais trabalhado e analisado, nos mostra a necessidade intrínseca de ausência de parâmetros diversos e de uma percepção abrangente, para que os conceitos veementes e exatos existam.

Quando nos permitimos observar as coisas sob diferentes perspectivas, percebemos o quanto um pensamento veemente é limitado, cego. Essa nova informação nos permite refutar, mais facilmente, tudo aquilo que nos é imposto como sendo real. Direcionados por essa nova forma de perceber as coisas, tornamo-nos capazes de identificar, mais facilmente, a estupidez, a falta de sensibilidade e a falta de inteligência que torna a maioria de nossos líderes tão veementes e, consequentemente, atrativos.

Infelizmente, as pessoas realmente inteligentes e perceptivas — que enxergam as mais variadas possibilidades, os mais variados conceitos existentes à nossa volta — estão por aí, em algum canto, cheias de dúvidas e de múltiplas interpretações — sendo elas completamente discrepantes entre si —, não as permitindo possuir uma personalidade convicta, não as permitindo serem aceitas como líderes.


Lucas Shiniglia

Sei lá. Sem ter muito o que fazer... eu escrevo. Uma rabiscada aqui, outra ali; às vezes me surpreendo ao ver um texto coerente na minha frente, então — ao invés de colocá-lo em uma pilha de textos anônimos — eu o publico aqui .
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