A realidade destrói tudo?

“De uma forma estranha, nós desvalorizamos nossos pensamentos assim que os experimentamos. Nós acreditamos ter alcançado a verdadeira proporção dos nossos conceitos profundos, mas, mesmo assim, quando não mais nos deparamos com a desilusão, que a realidade nos oferece, esses conceitos voltam a nos influenciar e a ser imprescindíveis para nós, permanecendo inalteráveis na escuridão.”


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Nas profundezas da nossa mente, nós possuímos interpretações, conceitos, que definem as coisas à nossa volta e nos orientam perante tudo aquilo que percebemos. Esses parâmetros, que irão nos direcionar ao longo de nossa existência, estão situados para além da realidade efetiva, em um cenário virtual, que, por mais que seja abrangente e englobe fatores complexos, nunca irá deixar de ser nada além do que um reflexo da realidade.

Por mais que nos esforcemos, a nossa concepção virtual da realidade permanece completamente discrepante e incapaz de elucidar, com precisão, muitas de nossas sensações e dos acontecimentos com os quais nos deparamos. Nesse ambiente, onde os conceitos sempre são limitados e insuficientes, vamos implementando interpretações capciosas para aquilo que não nos apresenta uma resposta imediata e exata.

Deparados com o quanto a maioria das coisas e dos acontecimentos são misteriosos e inexplicáveis, percebemos o quanto, ao longo de nossa vida, vamos criando motivos e interpretações para muitas das coisas com as quais nos deparamos, sem nunca mantermos um conceito em aberto, em uma condição onde nossas concepções não são exatas e irrefutáveis.

Cada novo acontecimento, cada novo arranjo ou sensação, é rapidamente definido em nossa mente, que cria interpretações instantâneas, preconceituosas, capciosas e completamente relativas, que têm relação direta com nossos conceitos anteriormente estruturados.

Essa nossa característica intrínseca, que afugenta os efeitos nocivos que uma concepção indefinida pode nos causar, faz com que tenhamos uma concepção limitada e capciosa das coisas e dos nossos sentimentos, fazendo com que nos ausentemos ainda mais da realidade, fazendo com que nosso cenário virtual se torne ainda mais exagerado e irreal, quando comparado com a verdadeira consequência dos acontecimentos, com os quais nos deparamos ao longo de nossa vida.

Guiados por nossas crenças exatas, que eliminam a pluralidade e a indefinição das coisas, vamos nos atentando a aspectos, pessoas e perspectivas que apenas reforcem aquilo em que acreditamos, que apenas validem nossas crenças e nos impeçam de nos depararmos com a possibilidade de uma desconstrução conceitual, que iria eliminar os conceitos exatos, fazendo com que nos deparemos com condições existenciais que muito nos assustam, e das quais fugimos desesperadamente, desde sempre.

Em nossa mente, onde nada permanece inexplorado e onde nossos pensamentos flutuam incessantemente, desenvolvendo e dando significado para todas as nossas experiências, vamos interpretando, inconscientemente, tudo aquilo que acontece conosco, que sentimos. Nesse cenário, que define aquilo que percebemos e que somos, cada pensamento tem o poder de determinar a forma como se estrutura o ambiente à nossa volta.

Perante o cenário mutável, percebemos o quanto um pequeno acontecimento que nos desagrada pode ser o responsável por criar um cenário deplorável e assustador para o ambiente no qual estamos inseridos, assim como um acontecimento satisfatório pode ser o responsável por criar um cenário estimulante e aconchegante para o ambiente em que estamos. Incitando um cenário perturbador e desagradável, nossas incertezas são constantemente contornadas, fazendo com que não nos deparemos com condições que desagradam demais. Essa nossa fuga inconsciente faz com que estimemos e experimentemos apenas aquilo que, de alguma forma, já está bem estruturado e definido na nossa mente.

O medo paralisante, que sentimos perante nossas construções virtuais desesperadoras, faz com que deixemos de desconstruir conceitos, faz com que deixemos de possuir novas perspectivas e interpretações para as coisas, assim como nos impede de que sejamos capazes de abandonar conceitos e direcionarmos nossa vontade para onde bem entendermos.


Lucas Shiniglia

Sei lá. Sem ter muito o que fazer... eu escrevo. Uma rabiscada aqui, outra ali; às vezes me surpreendo ao ver um texto coerente na minha frente, então — ao invés de colocá-lo em uma pilha de textos anônimos — eu o publico aqui .
Saiba como escrever na obvious.
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