o vácuo

As paradas da vida pós-moderna.

Lucas Shiniglia

Sei lá. Sem ter muito o que fazer... eu escrevo. Uma rabiscada aqui, outra ali; às vezes me surpreendo ao ver um texto coerente na minha frente, então — ao invés de colocá-lo em uma pilha de textos anônimos — eu o publico aqui

Definindo as coisas

“A realidade que se apresenta, a nós, não pode ser mensurada com precisão, atributo esse que permite a existência de infinitas perspectivas capazes de classificar, e determinar, as coisas e os acontecimentos.”


“Possuindo esse aspecto impenetrável e incerto, cabe apenas a nós, observadores, definir aquilo que observamos, definir o mundo e as coisas nele presentes. Para a realização dessa tarefa, é preciso que utilizemos a lógica e a imaginação, com o objetivo de criar modelos e explicações que possuam uma correlação abrangente, caracterizando, dessa forma, a elaboração de um sistema que pode ser considerado mais verdadeiro, mais abrangente.”

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Deparados com um mundo incompreensível e desconexo, nos surpreendemos, constantemente, com o quanto nossas impressões sobre as coisas são imprecisas, assim como nos espantamos com o exagero e a incoerência de nossos sentimentos. Perante esse ambiente misterioso e complexo nossa mente estrutura conceitos e modelos, sendo tais construções inconscientes, situando-se nas profundezas do nosso ser e definindo aquilo que somos.

Tudo o que percebemos é desenvolvido por nós, não necessitando, para a execução dessa tarefa, da presença de uma elaboração consciente. De posse de uma constituição desse tipo, podemos perceber conexões absurdas e distantes, que somente existem em nosso espírito e são provenientes de elaborações que não admitem, em hipótese alguma, a presença de elementos indefinidos ou incertos. Sendo uma necessidade inconsciente intrínseca, a definição precisa de tudo aquilo que percebemos, não admitindo lacunas e incertezas, tudo aquilo que nos apresenta perspectivas discrepantes será refutado de imediato; tudo aquilo que incita incertezas nos amedronta e será odiado e desprezado por nós.

Essa nossa constituição primitiva é absurdamente ignorante, capciosa, incoerente e irreal. Interpretando as coisas tendo como referência parâmetros irracionais e discrepantes, quando comparados com a verdadeira proporção daquilo que analisamos, vamos estabelecendo interpretações exageradas, que incitam sentimentos desesperados e atitudes ultraviolentas e incoerentes; vamos agindo inconsequentemente, sendo estimulados por impressões irreais, que existem apenas na nossa mente.

Surgindo como ferramentas que nos permitem nos desvencilharmos dessa nossa condição existencial primordial, encontramos a linguagem e a matemática, que têm como principal objetivo estabelecer um ambiente coerente e mensurável, que nos permite analisar o mundo e nossas impressões através de parâmetros que foram testados e possuem relação, evidente, com a realidade, o que, muitas vezes, não encontramos em nossas interpretações particulares e profundas.

“A filosofia é uma batalha contra a incoerência da nossa inteligência através da linguagem.”

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Almejando estabelecer conceitos virtuais lógicos, que determinam as coisas e os acontecimentos, o ser humano, desde sempre, se esforçou em busca de explicações. Primeiramente, ele fez uso da religião para explicar o mundo em que estava inserido, e, posteriormente, fez uso da ciência, que determina os elementos estudados através de similitude (semelhança) e repetição de resultados, desse modo definindo o momento da ocorrência dos eventos sem definir o modo como tais eventos ocorrem. De posse dessas duas formas de determinar o mundo, podemos dizer que, pelos menos, a religião reconhece sua limitação perante os mais variados fenômenos, enquanto a ciência possui a característica errônea de se considerar capaz de capturar a essência e determinar tudo com precisão.

“A concepção moderna do mundo fundamenta-se na ilusão de que as chamadas leis da natureza são a explicação dos fenômenos da natureza.” “Hoje fica-se pelas leis da natureza como algo intocável, como os antigos ficavam diante de Deus e do Destino. Ambos têm e não têm razão. A ideia dos antigos era mais clara, uma vez que reconheciam um limite claro, enquanto que no novo sistema se tem que dar a aparência de estar tudo esclarecido.”

Possuindo ferramentas — que nos auxiliam a determinar o nosso mundo — ineficientes, a definição racional dos fenômenos ainda permanece exageradamente capciosa e, muitas vezes, imprecisa, permitindo a existência de infinitas interpretações e modelos plausíveis. Essa incerteza em relação a tudo abre espaço para uma quantidade infinita de formas de enxergarmos o mundo (culturas), e de expressarmos o modo como enxergamos o mundo (linguagem).

Identificando essas limitações, em se tratando de elaborar uma definição precisa e irrefutável para aquilo que percebemos, poderíamos dizer que um leão, mesmo que sendo ele capaz de falar o nosso idioma, seria incompreensível para nós, pois a forma como ele interpreta as coisas, expressa em suas palavras, é totalmente desconhecida por nós, atributo esse que não nos permite analisar as coisas da forma como ele analisa, característica essa que nos mantém incapazes de compreender aquilo que foi dito.

Utilizando um exemplo menos exagerado, podemos perceber a mesma falta de entendimento quando comparamos a interação entre pessoas de culturas, formas de enxergar, diferentes.

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Além de todos esses problemas de comunicação, ainda nos deparamos com a falta de entendimento e de explicações coerentes para a maioria das coisas, aspecto esse que não nos permite possuirmos uma linguagem, não nos permite possuirmos imagens e modelos lógicos, para tais elementos. Em meio à falta de explicação dos acontecimentos e dos objetos, é dever dos pensadores perscrutarem profundamente tudo à sua volta, para que o nosso mundo conceitual possa ser ampliado, abrangendo ainda mais coisas e acontecimentos.

No entanto, essa tarefa, tão essencial para a humanidade, é permeada por aspectos atormentantes e perigosos. Despidos de conceitos fixos, que determinam aquilo que percebemos e estabelecem um mundo fixo e imutável onde existe apenas elementos múltiplos e mutáveis, esses desbravadores se deparam com o desespero que a falta de determinação e de explicações nos causa. Além dessas características, por si só desesperadoras, eles ainda se deparam com a incapacidade de identificar a eficácia e a relação de suas elaborações com a realidade.

Em um mundo onde a linguagem estabelece e preenche as dimensões do ambiente em que estamos inseridos, é impossível estabelecermos conceitos irrefutáveis para o mundo, pois possuímos uma interpretação capciosa, que não é capaz de possuir um modo de verificação de conceitos que analise as proposições através de uma perspectiva distante e imparcial, que não é previamente direcionada a interpretar as coisas de uma forma pré-estabelecida. Perante tal incapacidade, aqueles que perscrutam as coisas profundamente, que analisam sem fazer uso do modelo lógico construído e vigente (cultura), se deparam com a dor que um mundo incerto, desconexo e incompreensível lhes apresenta, sem nunca poderem fugir de tal sentimento. Tentando se desvencilhar de tais perigos, a linguagem ignora questões complexas, contornando-as e classificando-as como ilusões falsas, atitude essa que permite que a concepção de mundo não se torne dolorosa por causa de fatores misteriosos e incompreensíveis, que, infelizmente, ainda são a maioria. Nós não somos capazes de definir, com exatidão, a maioria das coisas.

“Sobre aquilo que não somos capazes de falar, devemos nos calar.”


Lucas Shiniglia

Sei lá. Sem ter muito o que fazer... eu escrevo. Uma rabiscada aqui, outra ali; às vezes me surpreendo ao ver um texto coerente na minha frente, então — ao invés de colocá-lo em uma pilha de textos anônimos — eu o publico aqui .
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