o vácuo

As paradas da vida pós-moderna.

Lucas Shiniglia

Sei lá. Sem ter muito o que fazer... eu escrevo. Uma rabiscada aqui, outra ali; às vezes me surpreendo ao ver um texto coerente na minha frente, então — ao invés de colocá-lo em uma pilha de textos anônimos — eu o publico aqui

Os iludidos

“Quando a necessidade e as metas se encontram e emergem, quando os sonhos começam a ocultar os grandes momentos e as crises da vida, a estrada torna-se estreita e obscura, e o desesperador sonho da morte desaparece da mente do homem, que anda sonhando, em seu sono profundo... O homem que, mesmo distante, sonha com sua esposa, ou com o local onde passou sua infância, começou a se tornar um sonâmbulo.”


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Parece ser uma característica inata, que permanece oculta, nas profundezas do nosso ser, apenas esperando por algum acontecimento que possa saciar sua necessidade, que possa servir de parâmetro para tal vontade, fazendo com que o indivíduo não mais seja capaz de suportar a realidade sem antes recorrer a uma série de lembranças profundas, que afastam a dor e o medo, transformando, dessa maneira, a vida, tornando-a estreita e ilusória, onde a realidade é abandonada em função de sonhos alucinados que nos fazem sentir muito bem em um ambiente ausente de toda a complexidade, insegurança e mutabilidade, que tanto nos incomoda.

Na nossa mente, onde nossos pensamentos e impressões são intensamente irreais e discrepantes, quando comparados com as verdadeiras proporções dos acontecimentos, vamos desenvolvendo, inconscientemente, tudo aquilo que vivenciamos. Dotados de tal mentalidade, torna-se comum nos espantarmos ao perceber que um acontecimento, anteriormente irrelevante para nós, adquiriu proporções absurdas, após nossos desenvolvimentos inconscientes, tornando-se uma característica essencial, que, quando não destruída pela nossa consciência, irá nos influenciar, de uma forma intensa, pelo o resto das nossas vidas, passando a definir nosso comportamento, nossas reações, nossos desejos e medos.

O nascimento dos nossos ideais é um fenômeno inato, que foge ao nosso controle consciente — quando não somos capazes de identifica-los e estabelecer proporções reais para aquilo que é exagerado em nossa mente. Esse acontecimento, inerente aos seres vivos, ocorre por causa da presença de um desespero profundo e destruidor, que pode surgir em função de um acontecimento que muito nos incomoda, ou por causa de uma alegria intensa, que, quando não mais se faz presente em nossas vidas, transmuta todas as coisas, tornando a realidade em um cenário insosso e doloroso, que passa a necessitar de uma ilusão que nos afaste de tal sentimento.

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O desespero está presente em praticamente todos os momentos da nossa vida. Cada nova situação, que contém inúmeros parâmetros novos e misteriosos para nós, incita uma condição desesperadora que faz fluir uma energia profunda, pronta para ser direcionada rumo aos parâmetros e condições que nos afligem, tendo como principal meta a alteração dos reflexos virtuais da realidade que nos atormentam. Entretanto, essa energia gerada pelo desespero é ilimitada, intensamente assustadora e muito superior àquilo que nossa constituição física-psicológica é capaz de suportar.

“Toda força que não se descarrega para fora volta-se para dentro — isto é o que chamo de interiorização do homem; é assim que no homem cresce o que depois se denomina sua ‘alma’. Todo o mundo interior, originalmente delgado, como que comprimido entre duas membranas, foi se expandindo e se estendendo, adquirindo profundidade, largura e altura, na medida em que o homem foi inibido de sua descarga para fora. ”

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Como nosso corpo não suporta, ininterruptamente, que a descarga intensa de energia, causada pelo desespero, seja direcionada para atividades e empreitadas inconsequentes — tudo isso com a intenção de sanar o nosso desequilíbrio profundo, desrespeitando nossa própria existência; mesmo deparados com tais características, algumas pessoas têm a audácia de dizer que nosso instinto mais profundo é a manutenção da espécie —, desenvolvemos nossa vida interior — alguns desenvolvendo-a muito melhor do que os outros —, sendo o primeiro passo dessa interiorização a criação de um ideal, que nos afasta da realidade e afugenta o desespero, a dor.

Em um mundo que nos permite a criação de infinitas interpretações, onde todas as coisas são um amontoado completamente desconexo, podemos dizer, sem sombra de dúvidas, que o ser humano é o responsável por estabelecer o entendimento do ambiente em que está inserido. Desse modo, torna-se óbvia a presença de uma realidade virtual, existente em nossa mente e sendo a responsável por determinar aquilo em que acreditamos, por definir nossos conceitos e determinar aquilo que somos capazes de perceber.

Nesse contexto virtual, podemos dizer que não existe diferença entre imaginação e realidade. Nossos pensamentos transformam a realidade, definem ela, podendo alterar nosso estado de espírito por causa da percepção de algum fator novo, ou por causa da identificação de algum elemento que nos faz recordar de uma situação que nos incomoda ou nos agrada.

Em um mundo que é construído por nós, sentimos, constantemente, o desespero, que incita o surgimento de uma força profunda e ilimitada, que nossa constituição não é capaz de suportar e é transformada, primeiramente, em ideais, que amenizam nossas dores, alterando a nossa realidade virtual.


Lucas Shiniglia

Sei lá. Sem ter muito o que fazer... eu escrevo. Uma rabiscada aqui, outra ali; às vezes me surpreendo ao ver um texto coerente na minha frente, então — ao invés de colocá-lo em uma pilha de textos anônimos — eu o publico aqui .
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