o vácuo

As paradas da vida pós-moderna.

Lucas Shiniglia

Sei lá. Sem ter muito o que fazer... eu escrevo. Uma rabiscada aqui, outra ali; às vezes me surpreendo ao ver um texto coerente na minha frente, então — ao invés de colocá-lo em uma pilha de textos anônimos — eu o publico aqui

As pessoas incomuns

“Minha mente não funciona como a sua. Enquanto você vê um determinado arranjo de elementos, um cenário com objetos que parecem estar em harmonia, um arranjo das coisas que parece ideal, que incita sentimentos profundos — fazendo com que você passe a desejar, intensamente, a obtenção daquilo te cativou e que se alojou nas profundezas da sua mente, fazendo com que sinta um turbilhão interminável de sentimentos quando algumas características incitam, por similitude, esses cenários na sua mente —, eu simplesmente enxergo além dessas sensações obscuras. Aquilo que é imprescindível, para muitos, aparece como que traduzido em minha mente, sem que eu me esforce ou intencione realizar essa atividade; o cenário ideal, o arranjo que incita sentimentos, aparece apenas como uma casa com um céu azul ao fundo, ou um carro, ou uma mulher, etc. Essa tradução exata daquilo que vejo, por mais que pareça irrelevante e banal, é capaz de eliminar qualquer tipo de sentimento, qualquer tipo de exagero incoerente, qualquer tipo de ilusão.”


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Um acontecimento pode se tornar muito dolorosa para nós, fazendo com que nos sintamos muito mal ao pensarmos nele ou ao nos depararmos com algum objeto, ou situação, que nos incite tal lembrança. Entretanto, muitas vezes, após um período longo ou curto, dependendo da pessoa, suas experiências e a forma como ela pensa, os acontecimentos podem obter designações racionais, que os tornam menos assustadores, fazendo com que o indivíduo deixe de sentir aquilo que sentia ao se deparar com alguns de seus pensamentos.

Estendendo esse exemplo, podemos dizer que a sensação de medo, ou de satisfação intensa, é proveniente de uma interpretação, uma projeção, absurdamente exagerada, que incita sentimentos e reações exageradas, sem que sejamos capazes de identificar as causas e motivos desse mal-estar. Muitas vezes, caracterizamos algumas de nossas sensações com nomes similares entre si, que caracterizam uma relação aparente, que incitam pensamentos semelhantes, quando, na verdade, são sentimentos completamente discrepantes, que não possuem qualquer tipo de semelhança.

Nesses casos, cabe ao observador investigar suas sensações e definições, para que, somente assim, se torne capaz de definir, com precisão, aquilo que acontece com ele. Muitas pessoas são exímias em tais tarefas complexas; elas adquirem um mundo lógico acurado e uma imaginação mais vasta, que faz com que eles sejam capazes de classificar as coisas conscientemente, permitindo-lhes que se desvencilhem de impressões irreais e exageradas, que incitam sensações descabidas, incoerentes.

Infelizmente, essas investigações são complexas e, quase sempre, dolorosas, atributos esses que impedem que muitas pessoas perscrutem profundamente seus conceitos. Assim, podemos dizer que a forma como a maioria das pessoas interpreta as coisas é absurdamente capciosa, mal trabalhada, cheia de preconceitos e conceitos infundados, determinando motivos, causas e consequências que, quase sempre, não se adequam às verdadeiras proporções dos fenômenos, que são muito mais complexos e mutáveis do que aquilo que acreditamos que eles sejam.

Percebendo a grande quantidade de possíveis definições para os acontecimentos e as coisas, descobrimos o quanto os conceitos são incertos, necessitando de proteções e imposições rigorosas para que permaneçam exatos e influentes na mentalidade das pessoas. Quando observamos com imparcialidade para o mundo, podemos adquirir interpretações novas, capazes de destruir nossas crenças, capazes de eliminar a exatidão dos nossos conceitos, trazendo dor e desespero, a princípio.

Tendo como base um mundo completamente em aberto, que nos permite possuir qualquer tipo de interpretação, criamos conceitos que nos direcionam, que designam formatos exatos para as coisas, fazendo com que um simples arranjo seja o responsável por incitar memórias que nos situam perante os acontecimentos. Essa nossa característica nos permite identificar a discrepância gigantesca entre pensamento e realidade.

“Não procure analisar a experiência em si próprio!”

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Possuindo conceitos pré-estabelecidos para as coisas, nos surpreendemos quando realmente experimentamos aquilo que estava firmemente construído no nosso intelecto; essa experiência nos remete à necessidade de reestruturação dos nossos conceitos, que, por causa da impenetrabilidade da realidade, assumem uma terceira definição, diferente da nossa estruturação anterior e diferente, ainda, da verdadeira proporção daquilo que analisamos.

Para que sejamos capazes de possuir conceitos mais próximos da realidade, é preciso que experimentemos e questionemos, constantemente, nossas definições. Essa atitude nos permite sermos capazes de enxergar as coisas sob diferentes perspectivas, possibilitando-nos imaginar os acontecimentos e objetos como possuindo várias possibilidades e explicações. Muitas vezes, nossos conceitos permanecem como que suspensos dentro de nós, como que sem uma correlação mais profunda com nosso comportamento e com nossa intuição, tornando-se, após um tempo e algumas constatações, vivencias bem estruturadas.

No entanto, algumas pessoas possuem uma constituição psíquica que não as permite vivenciar algumas experiências profundas e raras; nesse caso, muitos conceitos, por mais que tenham sido lidos e decorados até a exaustão, permanecerão apenas como teorias que se mantêm rasas, superficiais e sem aplicação, não se tornando uma vivencia, uma elaboração mais profunda e abrangente.

Assim como algumas pessoas possuem um ouvido musical, que lhes permitem sentir e perceber os tons musicais de uma maneira diferente do que as pessoas sem esse dom, alguns indivíduos possuem uma constituição que lhes permitem enxergar e sentir as coisas de uma forma diferente, aspecto esse que os torna incompreensíveis para as demais pessoas, que, por não possuírem uma constituição incomum, são incapazes de enxergar as coisas como as pessoas raras enxergam, são incapazes de compreendê-los.

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Se as sociedades são elaboradas com o intuito de criar um ambiente que permita a existência das pessoas, os conceitos preconizados dentro de tais modelos, a forma de classificar as coisas nessas sociedades, precisa contem dimensões que permitam a compreensão, que possam ser entendidos, pelo maior número possível de pessoas. Nesse contexto, as pessoas intelectualmente superdotadas permanecerão às margens das sociedades, permanecerão atônitas e serão incapazes de compreender interpretações que são completamente sem sentido para elas, que são completamente discrepantes quando comparadas às suas definições particulares, provenientes da elaboração, da definição, de sensações que as pessoas comuns são incapazes de vivenciar.


Lucas Shiniglia

Sei lá. Sem ter muito o que fazer... eu escrevo. Uma rabiscada aqui, outra ali; às vezes me surpreendo ao ver um texto coerente na minha frente, então — ao invés de colocá-lo em uma pilha de textos anônimos — eu o publico aqui .
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