o vácuo

As paradas da vida pós-moderna.

Lucas Shiniglia

Sei lá. Sem ter muito o que fazer... eu escrevo. Uma rabiscada aqui, outra ali; às vezes me surpreendo ao ver um texto coerente na minha frente, então — ao invés de colocá-lo em uma pilha de textos anônimos — eu o publico aqui

Os estranhos

“Eu senti que tinha sido feliz e que era feliz novamente. Para tudo ser consumado, para me sentir mais satisfeito, eu tinha apenas que desejar a presença de um grande público no dia da minha execução, e que eles me recebessem com gritos de ódio.”


“Ele se recusava a mentir, dizia apenas aquilo que realmente sentia, aquilo que realmente pensava. Por ser assim, por não esconder seus sentimentos e não se importar com a forma como as pessoas o enxergavam, ele era visto como uma ameaça, como um elemento capaz de demolir qualquer tipo de ilusão, qualquer tipo de artifício responsável por tornar a vida mais fácil e entorpecida, trazendo dor e agonia.”

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Somente nos momentos em que tentamos encontrar uma personalidade original, cheia de perspectivas únicas, contendo arranjos abrangentes e possuindo uma conexão lógica impecável e irrefutável, que percebemos o quanto as pessoas possuem conceitos incoerentes, mal elaborados, diminutos e, muitas vezes, completamente alheios a uma verificação e interpretação estritamente pessoal. Dessa forma, logo nos decepcionamos com os indivíduos que encontramos regularmente; a grande maioria das pessoas se esforça, desde sempre, para afugentar qualquer tipo de sensação e interpretação diferente daquelas que lhes são impostas. Em um mundo onde desde cedo somos ensinados a rejeitar nossas sensações e a desvalorizar nossa capacidade própria de elaborar conceitos, percebemos o quanto as pessoas são artificiais, incoerentes, semelhantes e alienadas.

Não possuindo a capacidade de pensar por si próprias, as pessoas precisam contar com definições alheias para que possam determinar aquilo que são; sem possuírem a capacidade de fazer uma análise crítica, incapazes de imaginar consequências e diferentes perspectivas, os indivíduos não possuem ferramentas que os permitam impedir que se tornem burros, ignorantes e cegos.

O mundo interpretado através de conceitos limitados valoriza e almeja definir conceitos que permitam a existência das mais variadas falhas e aspectos que os seres humanos deveriam se empenhar para alterar. Em um mundo onde a burrice e a ignorância não mais são preconizadas por templos suntuosos e padres convictos — que desprezam qualquer tipo de desejo e sensação —, mas sim por torres de marfim e cientistas ignorantes, os dez mandamentos perderam espaço para a lei do menor esforço, para a manutenção das espécies, para o materialismo, para a realpolitik e para o egoísmo racional. Perante novos conceitos, a ignorância e as carências humanas são mantidas e valorizadas, adquirindo novas conotações, novas interpretações.

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“A religião é o ópio das massas.” Tornou-se, nos dias atuais: “O ópio é a religião das massas.”

Atualmente, os remédios substituem a religião, afastando as pessoas da dor e de questões mal resolvidas, apenas com algumas pílulas. “A medicação é muito mais eficiente, e prática, do que a religião, é um cristianismo sem lágrimas.”

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“— Eu não acredito em Deus! Sou um ser evoluído e muito inteligente, que não mais necessita de uma ilusão para suportar a existência.

— Interessante. No entanto, pelo que ouço você falar, você acredita em dinheiro e amor, não é mesmo?

— Claro. São essas as minhas crenças racionais e reais, tangíveis.

— Eu entendo o seu ponto de vista, mas, por mais que me esforce, não consigo entender o que te torna tão mais ‘evoluído’ do que alguém que acredita em Deus; você, a meu ver, continua possuindo e sendo direcionado por ilusões, a única diferença consiste na meta estipulada por você.

— Há, Há. Você é incapaz de me compreender, não tem força suficiente para enxergar as coisas como eu enxergo. Por sorte, não dou ouvidos a seus argumentos impensados e fúteis. Adeus.”

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Em um mundo onde questões complexas continuam sendo desviadas e tratadas como se fossem anomalias, aqueles que começam a adquirir concepções discrepantes entre si, aqueles passam a enxergar possibilidades variadas nos acontecimentos, são marginalizados e tratados como se fossem doentes, que apenas serão considerados saudáveis ao adquirirem, novamente, uma concepção única e inquestionável para as coisas.

Assim sendo, a regra primordial é ser ignorante, é enxergar um mundo extremamente mutável, e de interpretações infinitas, como possuindo apenas uma definição exata e irrefutável.

O esforço desenfreado em busca de afugentar acontecimentos e mudanças que causam dor, faz com que o ser humano mantenha uma constituição burra e ignorante.

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“Podemos dizer que os indivíduos que possuem um espírito vasto são capazes de interpretar as coisas de formas variadas, o que os permite enxergar várias possibilidades, atributo esse que faz com que eles sejam capazes de compreender, de aplicar a suas interpretações das coisas, uma grande quantidade de proposições. Aspecto esse que é o pré-requisito essencial para quando desejamos analisar se uma pessoa é inteligente ou não, assim como é o pré-requisito para a desgraça.”

Distantes de qualquer possibilidade de definições variadas, sendo afastadas por remédios, por distrações e por definições conceituais, as pessoas são incapazes de explorar e delimitar, mais racionalmente, a desconstrução de ilusões e estruturas que nos direcionam durante nossa existência, fazendo com que temamos, incondicionalmente, e tentemos fugir, incessantemente, de qualquer acontecimento que nos faça questionar e desconstruir nossos direcionamentos mais profundos.

A presença desse medo irracional faz com que continuemos a valorizar conceitos que apenas nos deixam desesperados e que sabemos, muito bem, que não determinam com precisão aquilo que vivenciamos. A incapacidade de valorizarmos nossas próprias interpretações também contribui para o nosso aprisionamento, fazendo com que continuemos sendo direcionados por conceitos ineficientes, que, por mais que nos incomodem, não temos a capacidade de refutar e substituir.

As carências e os defeitos humanos, que servem como base para a construção conceitual vigente, criam um mundo onde nossa condição normal é sermos burros e ignorantes, onde as pessoas realmente evoluídas incitam perspectivas novas, que estimulam desconstruções, e causam dor, fazendo com que sejam odiadas.


Lucas Shiniglia

Sei lá. Sem ter muito o que fazer... eu escrevo. Uma rabiscada aqui, outra ali; às vezes me surpreendo ao ver um texto coerente na minha frente, então — ao invés de colocá-lo em uma pilha de textos anônimos — eu o publico aqui .
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