o vácuo

As paradas da vida pós-moderna.

Lucas Shiniglia

Sei lá. Sem ter muito o que fazer... eu escrevo. Uma rabiscada aqui, outra ali; às vezes me surpreendo ao ver um texto coerente na minha frente, então — ao invés de colocá-lo em uma pilha de textos anônimos — eu o publico aqui

A burrice coletiva

“Poderíamos possuir asas, um outro aparelho respiratório, assim como poderíamos dominar tecnologias que nos permitissem nos deslocar através do universo mais rapidamente, e tudo isso não nos serviria para nada. Pois, se fossemos a Marte e a Vênus conservando os mesmos conceitos e perspectivas, eles revestiriam do mesmo aspecto que as coisas da Terra tudo aquilo que pudéssemos ver. A única viagem verdadeira, seria não partir em busca de novas paragens, mas ter outros olhos, ver o universo com os olhos de outra pessoa, de cem outras, ver os cem universos que cada uma delas vê, que cada uma é; e isso podemos consegui-lo com um James Joyce, com um Dostoiévski; com seus pares verdadeiramente voamos de estrela em estrela.”


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É um absurdo estabelecermos condições imutáveis, pré-estabelecidas e exatas para o comportamento humano. No entanto, isso é imprescindível para que possamos criar definições para muitos dos acontecimentos com os quais nos deparamos ao longo de nossas vidas; sem tais conceitos irreais e completamente discrepantes – incapazes de identificar e incluir, em suas análises, toda a complexidade e a multiplicidade que a vida nos apresenta -, quando comparados com a realidade, sofreríamos com sentimentos ainda mais desesperadores, perante um mundo indecifrável, onde a falta de certezas dá espaço para que nossa imaginação desenvolva os cenários mais pessimistas e assustadores, característica essa que seria capaz de nos destruir facilmente, tornando a existência insuportável.

Fugindo dessa condição existencial, abraçamos os preceitos morais, que se tornam absolutamente necessários, mesmo não sendo capazes de assimilar toda a complexidade humana.

Nesse contexto, podemos perceber as pessoas como possuindo um inconsciente coletivo, que mata qualquer resquício de inteligência, mas garante uma vida segura, suportável e homogênea. Mas, infelizmente, tais preceitos morais, que regem a construção do inconsciente coletivo, são incapazes de determinar com precisão todos os acontecimentos com os quais nos deparamos, aspecto esse que faz com que uma quantidade incrivelmente gigantesca de interpretações, e culturas, exista. Cada cultura despreza aquilo que desafia suas crenças; dessa forma, um conflito entre mentalidades é inevitável.

Nesse ambiente burro, de crenças exacerbadas, irreais e intensas, onde todos são obrigados, desde a mais tenra idade, a emburrecer para se adaptarem ao ambiente em que estão inseridos, alguns ignorantes escrevem sobre tais crenças, aperfeiçoando-as, mas nunca sendo capazes de identificar e escrever sobre a verdadeira proporção das coisas, ou sobre parâmetros mais profundos que servem como base para a definição de qualquer tipo de comportamento e crença. Os verdadeiros grandes pensadores permanecem indecifráveis para a maioria das pessoas, sendo usurpados pelos estúpidos, que os tomam como referência, para propagarem suas ideias limitadas e artificiais. Um grande exemplo disso é Freud, que faz uso de Dostoiévski e de Schopenhauer, transmutando a ideia de grandes pensadores para estabelecer teorias limitadas, que reforçam ilusões e afastam, ainda mais, o ser humano de sua verdadeira constituição.

Alguns poucos tomam conhecimento da nossa razão prática, que não se aproxima da verdadeira proporção das coisas. Mas essa característica é, até certo ponto, inútil e perigosa. A sociedade é estruturada para permitir a existência da humanidade, criando uma antirrealidade que permite a manutenção da vida, que se torna irreal e limitada, após tantas ilusões e conceitos irrefutáveis, fazendo com que aqueles que possuam uma concepção discrepante, que ameaça tais valores vigentes, sejam simplesmente desacreditados, odiados e excluídos.

É dessa forma que estabelecemos nossos conceitos, adotando parâmetros que sabemos ser irreais, mas que simplesmente permitem que mantenhamos nossas crenças entorpecedoras, que nos afastam do desespero. Assim, vamos avaliando todas as pessoas e os acontecimentos com os quais nos deparamos, sempre com uma concepção limitada e burra, que não se aproxima da realidade.

Infelizmente, essa característica dos nossos julgamentos tem de ser mantida, e estimulada. Mas, mesmo em meio a esse cenário limitado onde nos sentimos impotentes, alguns grandes pensadores dão um sopro de vida para as pessoas, estabelecendo perspectivas profundas, que apresentam soluções capazes de eliminar a necessidade de uma existência burra, cheia de ilusões entorpecedoras — onde o homem tem de abandonar sua humanidade para se tornar um autômato —, permitindo, com seus escritos e proposições, que o ser humano seja capaz de suportar a existência sem recorrer a conceitos irreais e ridículos.


Lucas Shiniglia

Sei lá. Sem ter muito o que fazer... eu escrevo. Uma rabiscada aqui, outra ali; às vezes me surpreendo ao ver um texto coerente na minha frente, então — ao invés de colocá-lo em uma pilha de textos anônimos — eu o publico aqui .
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