o vácuo

As paradas da vida pós-moderna.

Lucas Shiniglia

Sei lá. Sem ter muito o que fazer... eu escrevo. Uma rabiscada aqui, outra ali; às vezes me surpreendo ao ver um texto coerente na minha frente, então — ao invés de colocá-lo em uma pilha de textos anônimos — eu o publico aqui

A estupidez

“O mundo dos astros é menos difícil de conhecer do que as ações reais dos seres, sobretudo dos seres que amamos, fortificados que são contra nossa dúvida por fábulas destinadas a protegê-los.”


“Porém, no momento não suspeitara de nada, porque ela havia contado aquilo de modo tão natural, e só mais tarde percebi a arte encantadora que ela possuía de mentir com simplicidade. O que ela dizia, o que confessava, possuía, de tal forma, as mesmas características das coisas evidentes — do que vemos, do que aprendemos de maneira irrefutável — que ela semeava, assim, nos intervalos da vida os episódios de uma outra vida de cuja falsidade então eu ainda não desconfiava. Aliás, haveria muito a discutir sobre essa palavra falsidade. O universo é real para nós todos e dissemelhante para cada um.”

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Cada acontecimento pode ser interpretado de uma forma completamente particular, única e discrepante, por cada uma das pessoas que o presenciou; assim como cada reação idêntica pode ser instigada por sentimentos completamente diferentes, que têm lugar nas profundezas obscuras e misteriosas, em cada indivíduo. Esse breve exemplo de pluralidade conceitual torna incrivelmente complexa — até mesmo para as pessoas mais estúpidas, ignorantes e convictas — a tentativa de interpretar com exatidão as palavras e as atitudes das pessoas. Além disso, podemos considerar que as pessoas alteram suas concepções ao longo da vida, ou, até mesmo, possuem várias interpretações para um único acontecimento; atrelado a esses novos aspectos, podemos, ainda, considerar o quanto a linguagem muitas vezes é ineficiente e incapaz de expressar, com precisão, nossos sentimentos, fazendo com que recorramos a uma interpretação estritamente relacionada às reações e atitudes daqueles que observamos, que, quase sempre, nos deixa ainda mais confusos, por não sermos capazes de identificar os pensamentos que incitam aquilo que percebemos. O acréscimo desses parâmetros torna qualquer tipo de definição uma tarefa praticamente impossível.

“Por mais que a visse todos os dias, ainda assim me sentia incapaz de defini-la com precisão. Cada nova interpretação, elaborada por mim, que parecia, finalmente, capaz de revelar, com precisão, a natureza mais profunda dela, perdia-se ao menor contato com a realidade, era pulverizada e tornava-se obsoleta após uma breve verificação, fazendo com que, novamente, eu me deparasse com um ser completamente misterioso para mim.”

Ampliando nossas perspectivas e possibilidades, dificultamos, ainda mais, nossa capacidade de tomar decisões e de definir com precisão as pessoas. Deparados com as mais variadas interpretações, percebemos o quanto muitas perspectivas concomitantes e simultâneas são completamente plausíveis e podem definir aquilo que estamos analisando. Essa característica nos torna indecisos, receosos perante nossas escolhas e decisões, o que nos causa dor, mas, ao mesmo tempo, nos torna sensíveis às mais variadas possibilidades, permitindo-nos analisar uma situação sob diferentes perspectivas, característica essa que aumenta a chance de escolha de uma interpretação realmente condizente com aquilo que vivenciamos.

Essas condições são completamente desconhecidas pelas pessoas estúpidas, que possuem interpretações exatas sobre as coisas, que defenderam, desde muito cedo, uma concepção específica, atitude essa que não os permitiu interpretar os acontecimentos de forma variada, múltipla. Para essas pessoas, que são a maioria, a incerteza é um fardo demasiado pesado, que é, constantemente, substituído por pensamentos quase sempre absurdamente preconceituosos e incoerentes, que utilizam algumas características conhecidas para determinar, através de associação a uma memória pré-existente e exata, qualquer tipo de situação.

Presas em seus mundos para sempre conhecidos e nunca mutáveis, ou incertos, as interpretações limitadas das pessoas estúpidas, expressas veementemente, quase sempre são mais valorizadas do que as análises sensíveis e abrangentes, expressas de forma receosa e incerta.


Lucas Shiniglia

Sei lá. Sem ter muito o que fazer... eu escrevo. Uma rabiscada aqui, outra ali; às vezes me surpreendo ao ver um texto coerente na minha frente, então — ao invés de colocá-lo em uma pilha de textos anônimos — eu o publico aqui .
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