Jogos sociais

“Aquilo que sua aparência me faz pensar vai ficar para sempre imutável e potente na minha mente; por mais estúpido que pareça ser, assim será, sei muito bem. Talvez eu, de algum modo para mim misterioso, necessite disso...”


“Quando entrei naquela sala, percebi que, desde o momento em que me viram, as pessoas, ali presentes, estavam me julgando. Utilizando daquilo que observaram em mim, elas faziam associações a conceitos e vivências antigas, e, através da relação daquilo que observavam com suas memórias, elas definiam rapidamente, com uma convicção espantosa, aquilo que eu era.”

Chega a ser assustadoramente engraçado o quanto uma mera impressão, uma singela e despretensiosa, ou pretensiosa, característica é a responsável por fazer com que uma pessoa construa, nos mínimos detalhes, toda a personalidade, os desejos, medos, atitudes, reações e preferências daquilo que observam. Tal atitude, muito comum, diga-se de passagem, que por si só é preconceituosa, e incrivelmente capciosa, torna-se ainda mais impressionante quanto constatamos que esses julgamentos são, na maioria das vezes, permanentes e estabelecem, sem possibilidade de reavaliação, aquilo que algo ou alguém representa para outrem.

“Esse julgamento inescrupuloso não era, e nunca foi, surpresa para mim. Para falar a verdade, eu até mesmo fazia uso dessas atitudes, utilizando-as para identificar aspectos profundos das pessoas com quem convivo, podendo, através de meus testes, encontrar constituições que realmente me agradam. Essa sempre foi nossa brincadeira predileta, minha e de minha mãe, fazendo com que fugíssemos do tédio desesperador que sempre era despertado em função de conversas dissimuladas e insossas. Nosso principal objetivo com esses jogos, muitas vezes perigosos, principalmente para nós, era o de encontrar mentalidades raras, complexas e completamente destituídas de ego.”

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“Na fase inicial de nossos jogos, nós mantínhamos um semblante vazio, acompanhado de atitudes sem qualquer tipo de intenção, que permitiam as mais variadas interpretações; ao mesmo tempo, lançávamos aquilo que chamávamos de ‘iscas’, sendo elas lampejos de olhares profundo e concentrados, ou frases eruditas. Após a primeira fase, observávamos aquilo que as pessoas construíam a nosso respeito; para isso, utilizávamos daquilo que minha mãe chamava de ‘folha ao vento’. Como éramos seres abrangentes e múltiplos, possuindo os mais variados conceitos e interpretações em nossas mentes, e sendo destituídos de um ego que exige proteção, podíamos contemplar as mais variadas formas possíveis de se enxergar as coisas, sem que tais formas fossem deturpadas ou alteradas em função da necessidade de proteger nosso ego, de conservar um mundo centrado apenas em nós mesmos, atributo esse que nos permitia possuir conceitos que se aproximavam da realidade. De posse dessas características raras, espantávamo-nos com o quanto éramos capazes de nos deixarmos ser, sendo direcionados por atitudes alheias, que ditavam aquilo que passávamos a ser, desse modo nos tornando uma nova pessoa a cada momento, assumindo uma nova constituição e direção, sem que essas estruturas fossem alteradas ou barradas pela nossa vontade, exatamente como folhas ao vento. Durante essa etapa, ficávamos espantados com aquilo que a atitude das pessoas, em relação a nós, nos incitava, sendo quase sempre apenas impressões e atitudes deploráveis.”

“De acordo com aquilo que identificávamos como sendo a interpretação das pessoas com relação a nós, que quase sempre eram negativas — mesmo quando apresentávamos uma constituição vazia e suscetível a muitas interpretações —, eliminávamos quase todos os participantes dos nossos jogos. Os poucos que restavam eram submetidos à segunda fase, onde nos esforçávamos, não muito, para desconstruirmos qualquer tipo de boa impressão, tendo como intuito facilitar a desconstrução natural de uma pessoa cheia de ego, que acidentalmente se encanta por algo que a faz desprezar seu enfoque egoísta, que a princípio causa dor e é afugentada a todo custo.”

“É meio redundante dizer que nunca ninguém passou da segunda fase dos nossos testes, que sempre foram encerrados nesse ponto, não nos permitindo possuir experiências posteriores a esse estágio, cabendo as possibilidades de continuidade apenas à nossa imaginação. Muitas vezes, vi-me forçado, em função dos fracassos constantes, a reavaliar os atributos da nossa metodologia que, por mais que eu perscrute, não me permite encontrar falhas, cabendo a mim apenas a conclusão de que santos não existem e que as pessoas são, salvo raríssimas exceções, um lixo!”


Lucas Shiniglia

Sei lá. Sem ter muito o que fazer... eu escrevo. Uma rabiscada aqui, outra ali; às vezes me surpreendo ao ver um texto coerente na minha frente, então — ao invés de colocá-lo em uma pilha de textos anônimos — eu o publico aqui .
Saiba como escrever na obvious.
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