o vácuo

As paradas da vida pós-moderna.

Lucas Shiniglia

Sei lá. Sem ter muito o que fazer... eu escrevo. Uma rabiscada aqui, outra ali; às vezes me surpreendo ao ver um texto coerente na minha frente, então — ao invés de colocá-lo em uma pilha de textos anônimos — eu o publico aqui

Nossas necessidades e motivos ocultos

“E assim vamos agindo no mundo externo, sendo influenciados pelas nossas carências e necessidades mais profundas.”


Quando uma necessidade adquire um conteúdo, relacionado a algo externo a nós, por mais que tentemos compreender aquilo que está em desarranjo, que nos estimula e nos entristece, não somos capazes de encontrar o que realmente nos influencia. Algumas vezes, por sorte, encontramos os motivos que nos impulsionam profundamente, mas, acompanhado ao êxito de nossa descoberta importante, vemo-nos incapazes de compreender o modo como tais motivos estão relacionados conosco, assim como somos ineficientes em entender aquilo que nossos sentimentos, relacionados à nossa necessidade profunda, realmente significam.

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Esses questionamentos profundos, que muitas vezes nos atormentam incessantemente, flutuam dolorosamente em nossas mentes, sem que possamos encontrar uma atividade ou alguém que nos ajude a saná-los. Mesmo tendo a possibilidade de executar as mais variadas tarefas e a oportunidade de conhecer milhares de pessoas, ainda assim nos sentimos atormentados, solitários, sem ninguém com quem sejamos capazes de compartilhar nossos pensamentos mais profundos. Isso ocorre não pela falta de oportunidades, mas, muito pelo contrário, em função de fatos e questionamentos muito bem conhecidos por nós: “Quem será capaz de entender aquilo que sinto?” “Existe alguém capaz de realmente compreender esse emaranhado desconexo e complexo dentro de mim?” “Será que posso encontrar ao menos uma pessoa que escute meus pensamentos mais profundos, de forma receptiva, sem usá-los, posteriormente, contra mim?”

Talvez sozinhos podemos ser capazes de invadir a humanidade, investigar nossos sentimentos, ou talvez possamos realizar tais feitos complexos apenas acompanhados. Mas, nesse caso, será que existe uma conexão profunda entre pessoas apenas através de contato físico, ou de um telefonema, ou de uma ligação no Skype, ou um chat, capaz de nos permitir sentir profunda e verdadeiramente conectados a uma outra pessoa? Independentemente da forma como ocorrem nossas interações, elas sempre serão significativas quando a relação é naturalmente amigável, fluindo facilmente, sem qualquer tipo de esforço. Nesses casos raros, podemos pensar que finalmente encontramos alguém que nos compreende, alguém em quem podemos confiar; mas, ao mesmo tempo, deparamo-nos com o questionamento, com a dúvida, em relação àquilo que começa a se alojar profundamente em nós. Dessa forma, podemos nos perceber receosos, perante questões recorrentes: “Como posso ter certeza do que sinto?” “Como posso saber o que é correto e o que é equivocado em relação à pessoa que me encanta?” “Como uma mesma pessoa é capaz de incitar a satisfação mais incrível e a dor mais desesperadora?”

Às vezes, nossas sensações podem se tornar apenas amarguradas, com relação à pessoa que antes nos encantava, desse modo incitando novos pensamentos: “Quando a satisfação tornou-se nada além do que dor e nojo?” “Talvez eu tenha tido uma interpretação equivocada ou talvez tenha esperado demais de uma outra pessoa, o que não me permitiu enxergar a verdadeira proporção daquilo com o que interagia.” “Talvez as pessoas mudem de um jeito mais abrupto e mais abrangente do que imaginamos, podendo, muitas vezes, destruir os traços e aspectos que nos faziam sentir, de alguma forma misteriosa, conectados.”

Muitas vezes, nos primeiros momentos de nossas desilusões, sentimos uma dor profunda, uma nostalgia intensa, que nos impulsiona a tentar recuperar um sentimento antigo. Todos os nossos pensamentos passam a ter relações com tal desconstrução, almejando a manutenção daquilo que está desaparecendo: “Ei, talvez nós...naquele campo...no parque, no meio de junho, aquele foi um momento memorável, essencial...Ah, acho que não.”

Então, como se tudo não fosse nada além do que um sonho, aquilo que era importante para nós simplesmente explode, morre; não mais possui força suficiente ou nos faz sentir facilmente decepcionados quando tentamos pensar naquilo que sentíamos. Essa sensação pode ocorrer para ambas as partes.

“Tem uma dor que existe apenas na nossa mente. A dor mais desesperadora na vida de alguém ocorre quando assistimos todo o nosso mundo desmoronar e tudo o que podemos fazer é observar, atônitos, sem piscar.”

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Às vezes, sendo esses casos incrivelmente raros, alguém pode ser capaz de nos conhecer melhor do que nós mesmos. Mas, infelizmente, essas relações acabam, também, desaparecendo, em função de nossas tarefas mundanas e compromissos.

Aqueles, que possuem uma sensibilidade exacerbada e nos convidam com tanta beleza, que somos incapazes de acreditar na existência de tais pessoas, assim como não podemos acreditar nos momentos mágicos que vivenciamos com elas.

Assim as pessoas passam pelas nossas vidas... e novas chegam. E você encontra, por aí, um semblante que externa as mesmas questões e sentimentos que te incomodam, que imploram para serem desvendados. Mesmo quando essas pessoas utilizam palavras com as quais não nos relacionamos, ainda assim podemos sentir a presença de semelhanças profundas. Essas pessoas tocam e ficam alojadas no coração dos nossos pensamentos.

Esses fenômenos raríssimos se alojam nas profundezas da nossa mente, passando a influenciar nossos julgamentos futuros, que serão sempre satisfatórios quando aquilo que analisamos se aproxima dessas satisfações ocultas e essenciais para nós. Esse fascínio faz com que se torne difícil esquecer determinadas pessoas.

Entretanto, algumas vezes passamos por mudanças, que alteram tudo, dizimando nossas belas construções, que passam a existir somente na nossa memória. Mesmo nesses momentos, de uma separação inevitável, sentimos uma dor profunda, sendo esse um parâmetro importante quando desejamos descobrir o quanto uma pessoa significa para nós, o quanto ela nos influencia.

Nesses momentos, onde aquilo que nos encanta morreu, alguma coisa em nós exige uma mudança: “É tempo de mudar algo, mas não sei muito bem o quê, ou quando, ou como, ou onde...” Essas empreitadas são sempre difíceis; nelas sentimos que cada momento e pensamento possuem um gosto insípido, e sabemos muito bem o motivo dessa sensação: perdemos o nosso centro. Após essa constatação, percebemos o quão fácil e estimulante é a vida quando possuímos metas e desejos, sendo que tudo isso se perde, em um oceano de desespero e dor, quando não mais somos direcionados pelos nossos ideais.

Então, novamente, muitas questões emergem: “Uma nova fase?” “Eu tenho que passar por isso para amadurecer?” “Eu deixo muitas coisas para trás e esse é o motivo pelo qual passo por fases de reestruturação, onde me deparo com perdas, que alteram tudo aquilo que sou e o que é importante para mim?”

A dor alucinante, causada por esses momentos, faz com que nos empenhemos em obter, de novo, aquilo que tornava nossa vida mais satisfatória. Desse modo, corremos de forma alucinante em busca daquilo que nos agradava, fazendo com que nos perguntemos: “Será que realmente precisamos disso ou é apenas puro desejo, apenas um impulso carnal?” “Será que, por causa da grande quantidade de novas interações, de novas pessoas, minha mente tenta fazer uma brincadeira, tenta me enganar?” “Será que essa nova necessidade intensa tornar-se-á uma referência profunda para o resto da minha vida, como um evento marcante que ficará para sempre, influenciando-me, na minha memória?”

Nesses períodos soturnos, dormimos menos, e pior, sentindo, a todo o momento, a ausência de algo essencial em nós, que, de repente, da mesma forma abrupta como morreu, pode ressurgir, fazendo com que passemos a ter um novo centro, uma nova constituição psicológica.

Decidir de forma consciente sobre esses acontecimentos é muito improvável, restando-nos apenas arriscar, tentar, explorar, em busca de novos ideais, responsáveis por nos fornecer uma existência suportável e estável.

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E, novamente, vamos em busca de alguém em quem confiar, de alguém que nos complete e seja essencial para nós, para que, somente assim, possamos recuperar a beleza e a harmonia, para que possamos recuperar a imagem que alimenta a nossa alma e que fornece um sentimento sagrado. Os olhos dessa imagem nos chamam à vida, para cair, triunfar, arriscar e arriscar e recriar a vida! Um anjo intenso que insiste em aparecer para nós, representando tudo que há de mais belo; um envio de terras sagradas para proporcionar instantes de êxtase e tornar evidente a razão de todos os erros e glórias. E de novo e de novo e de novo.


Lucas Shiniglia

Sei lá. Sem ter muito o que fazer... eu escrevo. Uma rabiscada aqui, outra ali; às vezes me surpreendo ao ver um texto coerente na minha frente, então — ao invés de colocá-lo em uma pilha de textos anônimos — eu o publico aqui .
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