Nossa cultura ridícula

“— Ele tem um rosto diferente, que me faz sentir alguma coisa legal. Ele deve ser muito rico.”


Ah, os tempos modernos. Ah, o nosso mundo conectado, que nos permite vencer distâncias e desbravar aquilo que antes nos era improvável e restrito. Ah, a internet, a maravilhosa rede de computadores que nos possibilita conhecer tudo aquilo que quisermos saber a respeito de qualquer coisa, apenas com alguns cliques. Ah, nossas máquinas supereficientes, que facilitam, e muito, todas as nossas tarefas diárias, proporcionando-nos, desse modo, muito tempo livre, que pode ser utilizado para o desenvolvimento de atividades realmente relevantes. Ah, nosso mundo contemporâneo, onde as pessoas possuem informações que as permitem refutar qualquer coisa, libertando-as, assim, de serem escravas de ilusões completamente inverificáveis e tidas como, anteriormente, inquestionáveis e intocáveis, fazendo-as ficarem presas a uma única ideia, direcionando-as, limitando-as e iludindo-as por toda sua existência. Esses atributos do nosso entorno atual são suficientes para nos fazer enxergar as pessoas, e suas atitudes e mentalidades, cheios de belas expectativas, que, infelizmente, são completamente pulverizadas desde os primeiros momentos que dedicamos à observação das pessoas com as quais convivemos.

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Em nosso mundo conectado, praticamente sem fronteiras, uma viagem, que permanecia, anteriormente, para sempre como uma ilusão longínqua — capaz de fornecer tudo aquilo que necessitamos, todo o conhecimento e as experiências necessárias para fazer com que finalmente deixemos de nos sentir incompletos —, atualmente não mais é uma experiência improvável ou absurdamente dispendiosa, permitindo-nos realmente vivenciar aquilo que antes nos iludia, permitindo-nos desconstruir, em função da verdadeira proporção daquilo que antes era desenvolvido e mensurado apenas pela nossa imaginação, qualquer tipo de ilusão descabida com relação ao contato com uma cultura estrangeira ou à visita de algum ponto turístico. No entanto, não é isso o que ocorre, mas muito pelo contrário; cada nova viagem frustrada, que parece ser muito legal de colocar no facebook ou muito interessante em uma conversa entre amigos, não sana nossa necessidade profunda e essencial, deixando apenas um gosto de desilusão, que faz com que estimemos uma nova empreitada, uma nova viagem, uma nova ilusão, sendo, essa sim, a responsável por fornecer tudo aquilo que sentimos falta em nós.

A manutenção de tais ideais faz com que essas pessoas sejam consideradas duplamente bobas, burras e estúpidas, tornando-as ainda mais patéticas do que as pessoas pobres, que por causa da falta de dinheiro direcionam toda a sua existência em função de suas ilusões de riqueza e bonança, sendo esse direcionamento estúpido e intenso — que altera comportamentos e pensamentos, tudo em função de uma miragem específica — perdoado quando constatamos a incapacidade de tais pessoas adquirirem perspectivas reais, realmente vivenciadas, para suas ilusões entorpecedoras e profundas.

Após perceber a resistência das ilusões, mesmo perante o contato com a realidade destruidora, podemos, logo de cara, descartar o grande potencial da internet em desiludir. Eliminando esse primeiro atributo, podemos nos concentrar em como a internet é importante quando se trata de fornecer informações referentes àquilo que gostaríamos de desenvolver melhor, de aprofundar. Essa ferramenta poderosa é capaz de fornecer material que nos permite desenvolvermos, ainda mais e melhor, nossas particularidades e idiossincrasias, e, ao mesmo tempo, é também capaz de proporcionar informações importantes, que ampliam os nossos horizontes e nos permitem desenvolver trabalhos complexos e exaustivos.

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Entretanto, novamente, essas características não chegam nem perto daquilo que realmente observamos, mas muito pelo contrário. Quando nos concentramos em analisar as coisas à nossa volta, podemos observar apenas a homogeneização, cada vez mais eficiente, das mentalidades, direcionando-as para objetivos em comum, introduzindo conceitos semelhantes e destruindo qualquer tipo de particularidade ou perspectiva discrepante e complexa. Ao mesmo tempo, o imediatismo e o menor esforço se tornam dogmas vivamente influentes nas vidas das pessoas, eliminando, dessa forma, a possibilidade de criação de trabalhos abrangentes, complexos e inovadores. Matando a individualidade e as perspectivas inovadora e sensíveis, podemos perceber a internet como um meio que propaga os conceitos estúpidos, fazendo-os se tornarem ainda mais influentes, ainda mais inquestionáveis e intocáveis, ainda mais pragmáticos.

Em nossa sociedade materialista e pervertida, podemos ouvir mantras estúpidos a todo o momento, em qualquer lugar, sendo eles valorizados e estimados pela maioria das pessoas, que apenas são capazes de enxergar, as coisas à sua volta, tendo como referência modelos limitados, superficiais e estúpidos:

“Tudo pode ser explicado através de conceitos simples, todas as coisas possuem uma constituição simples.”

“Em se tratando de ganhar dinheiro eu poderia desmatar uma floresta inteira, matar, roubar, etc. Eu seria capaz de fazer qualquer coisa.”

“Ela parece meio triste, meio deprimida; provavelmente está assim por pensar não ter tanto dinheiro quanto gostaria.”

“Quando uma pessoa é rica ela é muito mais bonita, muito mais atrativa.”

“Ele é muito feliz e bem sucedido, possui uma bela casa, uma bela esposa e uma caminhonete.”

“Acho que estou sentindo alguma coisa por aquela pessoa, acho que preciso transar com ela; no final todos os sentimentos e sensações têm como referência o ato sexual.”

“Aquela pessoa é meio introspectiva, reflexiva, portanto, só pode ser gay.”

“Aquela menina deve ser muito ridícula, só sai com gente pobre, não consegue agradar ninguém que seja rico.”

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A potencialização da alienação, e a impossibilidade de destruição das ilusões, faz com que o tempo livre do homem contemporâneo seja absolutamente infrutífero, não passando de um tempo irrelevante, onde os acontecimentos são sempre observados sob as mesmas perspectivas, de novo e de novo e de novo; as mesmas ilusões são constantemente evocadas, fazendo com que as pessoas vivam em locais completamente irreais, sem relação nenhuma com a verdadeira proporção das coisas.

Em nosso mundo cada vez mais cego e conformista, as maravilhosas inovações tecnológicas, que possuem o potencial de fazer com que a cultura e as pessoas evoluam rapidamente, servem somente para aprimorar e propagar, mais amplamente, a preguiça, a burrice, a estupidez e a artificialidade. Criando, com precisão, uma massa amorfa e completamente incapaz de possuir sentimentos intensos e genuínos.

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A vida contemporânea está repleta de conceitos vulgares, superficiais e falsos, sendo eles estimados pela grande maioria das pessoas. As perspectivas inovadoras, profundas e sinceras existem, infelizmente, na maioria das vezes, apenas nos livros, e, ainda assim, em uma pequeníssima quantidade de livros.

“— Ele tem um rosto imponente, sempre despreocupado, como que alheio a tudo à sua volta. Indiferente até não poder mais, ele expressa algo completamente novo, nunca antes visto por mim, capaz de incitar a curiosidade de qualquer um. Inabalável e desiludido, imune às paixões e desejos mais selvagens, que por mais que eu saiba serem, no fundo, ilusórios e completamente desimportantes, não consigo deixar de me ver influenciada por tais paixões. Pessoas assim tornam evidente a presença de ideias que definem cada coisa ou pessoa que conhecemos, fazendo com que finalmente nos tornemos capazes de entender um aspecto que se torna para sempre claro na nossa mente: Tudo o que percebemos, e sentimos, tem referência a nada além do que ideias e interpretações.”


Lucas Shiniglia

Sei lá. Sem ter muito o que fazer... eu escrevo. Uma rabiscada aqui, outra ali; às vezes me surpreendo ao ver um texto coerente na minha frente, então — ao invés de colocá-lo em uma pilha de textos anônimos — eu o publico aqui .
Saiba como escrever na obvious.
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