o vácuo

As paradas da vida pós-moderna.

Lucas Shiniglia

Sei lá. Sem ter muito o que fazer... eu escrevo. Uma rabiscada aqui, outra ali; às vezes me surpreendo ao ver um texto coerente na minha frente, então — ao invés de colocá-lo em uma pilha de textos anônimos — eu o publico aqui

Um relato nada mundano

“Sabe aquela sensação, quando você é criança e o vento toca o rosto, incitando um turbilhão de memórias e sensações, e tudo o que queremos fazer é desenhar um retrato, ou escrever o nome de uma pessoa...”


Ela sempre foi uma garota incomum, obscura. Em seu semblante era possível perceber que ela era incapaz de se controlar; essa constatação era acompanhada da marcante impressão de uma pessoa que transbordava, exalando uma energia intensa, profunda e selvagem, em todas as direções. Toda aquela força era de dar inveja, com certeza; no entanto, para um observador mais atento, era possível identificar um trauma profundo como sendo o motivo de tanto ímpeto, de tanta vontade. Toda a sua energia era gerada pelo seu passado conturbado, por uma memória dolorosa, e tinha como objetivo alterar tudo aquilo que a incomodava, transformar os cenários dolorosos. Cada nova atividade, cada nova tentativa, era vista, por ela, como uma chance de salvação, de alteração de tudo que a atormentava. Todos deveriam ter a oportunidade de vê-la, sua capacidade de se esforçar era sobre-humana; constantemente a via cheia de cortes, hematomas, queimaduras e lesões, tudo em função de suas tentativas intensas, ou, melhor dizendo, quase tudo.

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Uma parte de suas cicatrizes e hematomas não era proveniente apenas de sua vontade indomável; por incrível que pareça, para uma garota que adorava ficar sozinha e que afastava, sabiamente, todos que tentavam se aproximar, uma boa parte das suas marcas expressivas foram causadas pelas pessoas que conviviam com ela. Eu nunca vi alguém ser tão odiado, é sério, e os motivos para tanto eram vastos e variados. Primeiramente, ela era odiada quase que inconscientemente pelas pessoas; quando ela entrava em qualquer recinto, parecia ser uma espécie de demolidora; apenas com seu jeito intenso e único ela fazia com que todos passassem a questionar suas ilusões mais profundas, que ao menor toque de dúvida já fazia com que ficassem desesperados, fazendo com que desprezassem, intensamente, aquilo que incitava tal estado deplorável. Em outras pessoas, seu jeito incomum estimulava uma curiosidade intensa, um encanto profundo; ela, que apresentava uma constituição completamente nova, não conseguia ser definida com precisão, por ninguém, em função da falta de referências análogas que poderiam servir como base para uma possível classificação, sendo assim, ela era desenvolvida apenas pela imaginação, que todos nós sabemos ser irreal e exagerada, tornando-se um símbolo intenso e lindo, que prometia recompensas inimagináveis, nas profundezas das mentes de muitas pessoas; e ainda as pessoas têm a coragem, a ignorância, de dizer que a beleza não passa de uma simetria facial, ou um corpo da moda.... Esse motivo, que apenas parece estar muito longe do ódio, impulsionava muitas pessoas até ela, que, prontamente, eram rejeitadas. O motivo para tais rejeições era óbvio: aquelas pessoas eram limitadas e não poderiam proporcionar nada a uma pessoa como ela. Mesmo a rejeição sendo sempre a mais educada possível, ela causava danos aos egos inflamados dos admiradores; por estarem de frente a algo inalcançável, esses admiradores se sentiam reduzidos, sendo necessário, a todo custo, desconstruir a imagem tão adorada, que os diminuía e causava mal-estar. Essa depreciação era exercida com primazia, por muitos, e, consequentemente, as pessoas cegas, estúpidas e suscetíveis absorviam todas as palavras proferidas por egos feridos, como se fossem verdades incontestáveis. Para ser mais exato, tais pessoas ridículas davam uma conotação de certeza e verdade a declarações dolorosas e inseguras dos admiradores, fazendo com que se tornassem pessoas estimadas, por reforçarem e confirmarem conceitos inseguros, referentes a pessoas com as quais nunca realmente interagiram. Por fim, mas não menos importante, todo aquele ímpeto incomum, toda a beleza e a intensidade daquela pessoa incrível, faziam com que muitas pessoas percebessem o quanto eram limitadas, sentimento esse que era abandonado em função da depreciação e do ódio contra aquilo que incitava tais sentimentos. A união desses motivos criava um ódio generalizado, que constantemente fazia com que todas as suas ações fossem interpretadas como sendo deploráveis, fúteis e malévolas, assim como a colocava em brigas. Relembrando alguns momentos, impressiono-me em vê-la ainda viva; nunca vou me esquecer de quando cinco meninas vieram bater nela e, mesmo após ter sido esfaqueada, ela desmaiou três das agressoras e fez com que duas outras fugissem.

Sei que esse último relato foi esquisito e exigia uma intervenção, vinda, com certeza, de mim, uma das únicas pessoas realmente capazes de perceber toda a raridade e toda a perfeição contida naquela garota, mas isso eu me sentia incapaz de fazer. Essa incapacidade não era proveniente de covardia ou qualquer coisa do tipo, mas sim de uma curiosidade alucinada, de uma vontade intensa de saber como as coisas realmente são, de compreender a vida através de acontecimentos, de sensações; dotado dessa vontade profunda, primeiramente eu destruí meu ego, que me obrigava a manter interpretações distorcidas da realidade, e, em seguida, me empenhei em vivenciar situações incomuns e intensas, muitas vezes até mesmo criando-as, esperando que com isso eu seria capaz de fazer uma descoberta profunda e essencial. Nessa época eu era jovem e esperançoso, e achava que possuía um cérebro poderoso, capaz de interpretar, de imaginar, a verdadeira proporção das coisas... Ah, doce ilusão. Aquela briga foi apenas mais um acontecimento que eu não soube mensurar com precisão, mais um acontecimento inútil, que não me revelou nada e quase custou a vida da pessoa que eu mais admirava...


Lucas Shiniglia

Sei lá. Sem ter muito o que fazer... eu escrevo. Uma rabiscada aqui, outra ali; às vezes me surpreendo ao ver um texto coerente na minha frente, então — ao invés de colocá-lo em uma pilha de textos anônimos — eu o publico aqui .
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