o vácuo

As paradas da vida pós-moderna.

Lucas Shiniglia

Sei lá. Sem ter muito o que fazer... eu escrevo. Uma rabiscada aqui, outra ali; às vezes me surpreendo ao ver um texto coerente na minha frente, então — ao invés de colocá-lo em uma pilha de textos anônimos — eu o publico aqui

Q.I. – Que isso?

“Você deve parar de pensar tanto sobre as coisas. Se você ficar analisando tudo pormenorizadamente e constantemente, irá desconstruir tudo, tudo mesmo, até mesmo Deus!”


Hoje em dia, em nosso mundo prático e de respostas rápidas, que não nos permite manter dúvidas ou conceitos em aberto, nos deparamos com metodologias para a medição e definição das capacidades intelectuais das pessoas. Um conjunto de testes pré-elaborados são os responsáveis por determinar, de forma generalizada, a acuidade mental de pessoas que possuem vivências, culturas, percepções e objetivos completamente diferentes, quando comparadas entre si.

Esses indicadores, tanto emocionais quanto intelectuais, estão intrinsecamente relacionados. Mesmo pesquisando até a exaustão, a verdadeira análise feita por tais testes ainda permanece um mistério para nós, sendo que é praticamente impossível determinarmos aquilo que essas análises realmente analisam, o que elas realmente apontam como sendo o comportamento humano e a constituição intelectual mais satisfatória.

A despeito de resultados que têm como base o número de respostas certas, que são parâmetros responsáveis por determinar as aptidões das pessoas, nesses testes, aquilo que é analisado no teste de Q.I. é a capacidade do indivíduo de utilizar sua imaginação, criando conceitos que possuem uma relação lógica impecável, irrefutável. A inteligência emocional (I.E.) está conectada ao Q.I., sendo ela a capacidade do indivíduo de ser capaz de elaborar uma definição consciente para suas emoções, de conseguir imaginar-se com sendo um outro indivíduo, de ser capaz de estruturar, de imaginar, um ambiente, conceitos e perspectivas, completamente diferentes das suas. Essa capacidade tem relação direta com o Q.I., sendo imprescindível que o indivíduo possua uma capacidade de elaboração conceitual absurdamente elevada para que ele seja capaz de estruturar as mais variadas interpretações sobre as coisas, sentimentos e acontecimentos, em um modelo exato e abrangente.

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Atrelada a uma capacidade de imaginação e estruturação lógica anormais, podemos encontrar a frieza. É um fato incontestável a perca da nossa capacidade de sentir, em função do aprimoramento da nossa capacidade de imaginar e estruturar nossos sentimentos mais intensos. Essa característica, facilmente observável, faz com que passemos a repensar nossos sentimentos e aquilo que eles realmente representam, faz com que constatemos que os acontecimentos e pessoas que nos incitam sensações intensas não passam de interpretações profundas e inconscientes, cheias de exageros irreais, que, quando exploradas e definidas com precisão, se tornam nada além do que conceitos irrelevantes, que foram reestruturados, de acordo com a verdadeira proporção das coisas, da realidade, e perderam todo o seu conteúdo desenvolvido estritamente pelo nosso inconsciente, deixando de ser impressões imprecisas e absurdamente exageradas. Nesse caso, seria de se esperar que um indivíduo com um Q.I. incomum fosse uma pessoa fria, sem qualquer tipo de sentimento. No entanto, a capacidade de imaginação das pessoas ainda é subdesenvolvida, fazendo com que ainda não sejamos capazes de imaginar o verdadeiro funcionamento da nossa mente, assim como não nos permite reproduzir em nossa mente, com precisão, a vastidão de elementos que determinam a realidade, atributos esses que fazem com que continuemos, por mais inútil que pareça ser, escravos de nossos sentimentos.

A nossa incapacidade de imaginarmos tudo, a ponto de mensurarmos com precisão a realidade, faz com que mantenhamos necessidades, que ditam a forma como nos comportamos, assim como determinam nossas reações e interpretações. Essa característica faz com que nos sintamos completamente frustrados perante aspectos que sabemos ser nocivos, incoerentes, mas que, por mais que tentemos alterá-los, continuam sendo absurdamente influentes em nossas vidas. Nesse caso, as pessoas dotadas de uma capacidade de imaginação mais avançada tornar-se-ão as mais infelizes; elas possuem a capacidade de enxergarem e estruturarem mais profundamente seus conceitos e impressões, mas, ao mesmo tempo, são incapazes de determinar com precisão, de controlar e alterar as características particulares que não as agradam.

“Isso realmente me incomoda muito; tento reproduzir em minha mente os acontecimentos que me proporcionam sentimentos intensos, mas me vejo incapaz de suscitar, apenas com minha imaginação, aquilo que sinto quando me deparo com algumas situações ou pessoas; isso me irrita, sobremaneira. Como sou curioso, vejo-me sempre perseguindo tais acontecimentos, tentando vivenciá-los novamente, para que, somente assim, eu possa analisá-los novamente, para que eu possa extrair um significado profundo e misterioso. Constantemente vejo essa minha curiosidade sendo direcionada a pessoas aleatórias, que incitam e trazem à tona memórias profundas, que parecem ser importantíssimas para mim. Esse aspecto faz com que eu me interesse muito por alguém, e isso é um grande problema. Nós valorizamos apenas aquilo que não temos, aquilo que incita nossas impressões inconscientes irreais e faz com que tenhamos interpretações absurdamente exageradas, que nos prometem recompensas incríveis; nesse caso, meu interesse intenso por alguém faz com que as pessoas sintam como que se já tivessem obtido tudo o que podiam de mim, já possuíssem toda a devoção e o que tenho a oferecer, fazendo com que eu me torne alguém insosso e entediante, incapaz de oferecer algo mais. Muitas vezes vejo-me como uma pessoa que, aos olhos de um pervertido, perde todo o interesse após o ato sexual. Essa característica faz com que eu tente analisar as coisas meio que a uma distância segura, onde a falta de interesse forjada me permite ainda ter as pessoas que me interessam por perto. Mas, no entanto, analisar desse jeito muitas vezes é insuficiente para mim, não me permitindo explorar tudo aquilo que gostaria, de investigar tudo o que pretendo... Ah, que merda!”

Esse fracasso inicial, fruto de uma capacidade de imaginação que ainda precisa ser aprimorada, não deve, em hipótese alguma, tornar-se um empecilho a tentativas de aprimoramento da imaginação e estruturação lógica humana — da consciência humana.

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Entretanto, mesmo com essas definições, que determinam as qualidades que todo homem deve almejar, deve possuir, tais testes são muitas vezes falhos, fornecendo respostas que não definem com precisão as verdadeiras capacidades dos analisados. Nesses casos comuns, uma pessoa pode ser considerada um gênio, quando na realidade apenas é capaz de imaginar situações simples e que não exigem uma conexão lógica muito vasta, assim como uma pessoa estúpida e ignorante pode obter um resultado elevado em um teste de I.E., sendo que, na verdade, ela simplesmente treinou e reproduziu respostas que, em sua concepção, iriam fazer com que ela tirasse uma nota mais alta, sem que para isso ela possua as qualidades que o teste procura encontrar.

Mesmo com as limitações e incoerências evidentes desses testes, ainda assim é preciso que eles sejam considerados e utilizados na análise das pessoas. O comportamento humano, assim como o intelecto humano, é absurdamente complexo, sendo impossível de ser definido com um simples teste. Mas, mesmo com tais limitações evidentes, ainda precisamos possuir conceitos exatos, que nos afastem da dor, que conceitos imprecisos e misteriosos nos apresentam, desse modo elaborando uma concepção que nos afasta da realidade, mas que sana nossa necessidade profunda de possuir explicações exatas, que afugentem incertezas. Essa é o papel da psicologia, nossa nova religião.


Lucas Shiniglia

Sei lá. Sem ter muito o que fazer... eu escrevo. Uma rabiscada aqui, outra ali; às vezes me surpreendo ao ver um texto coerente na minha frente, então — ao invés de colocá-lo em uma pilha de textos anônimos — eu o publico aqui .
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