o vácuo

As paradas da vida pós-moderna.

Lucas Shiniglia

Sei lá. Sem ter muito o que fazer... eu escrevo. Uma rabiscada aqui, outra ali; às vezes me surpreendo ao ver um texto coerente na minha frente, então — ao invés de colocá-lo em uma pilha de textos anônimos — eu o publico aqui

Um relato nada mundano (parte 2)

"Não sei o motivo que faz com que você insista em tentar falar, em tentar se explicar. Você não percebe que tudo isso é inútil? Eles já criaram uma concepção embasada na cor da sua pele, em algumas de suas reações, nas ideias anteriormente elaboradas em relação a pessoas que eles consideram ser iguais a você, e, por mais que você tente alterar tais definições preconceituosas, você não pode fazer nada para alterar tais concepções!"


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A pessoa mais inocente foi a que, por incrível que pareça, se tornou a maior culpada, a mais penalizada dentre as garotas envolvidas na briga. A tímida investigação conduzida pela diretora da escola coletou os relatos mais variados em relação ao incidente; cada depoimento envolvia aspectos diferentes, quando comparados; alguns alunos davam ênfase às roupas usadas pelas participantes da briga, e ao modo como essas vestes ficaram rasgadas e cheias de sangue ao final de tudo aquilo que ocorrera; outras pessoas focavam-se nos rostos das garotas, que, em alguns casos, ficaram deformados, sendo essas deformações cortes e inchaços; muitos alunos não conseguiam descrever mais do que sensações próprias, que envolviam apenas aquilo que eles haviam sentido no momento do incidente; alguns concentravam seus relatos nas reações das pessoas que observaram o ocorrido. Mesmo estando em posse de descrições ricas em detalhes, a diretora não conseguia compreender os motivos que incitaram o acontecimento desastroso; nem mesmo as testemunhas eram capazes de determinar algo, aspecto esse que fazia com que o ocorrido permanecesse um grande mistério. Mesmo não obtendo respostas exatas, a diretora suspendeu, por três dias, todos os envolvidos na briga, até que pudesse averiguar melhor os fatos e definir a punição para o verdadeiro culpado por tudo aquilo.

O aspecto indefinido do ocorrido fez com que a diretora se empenhasse ainda mais em busca de respostas, em busca de uma explicação que determinasse com precisão aquilo que ocorrera. Procurando, incansavelmente, por uma definição precisa, ela obteve, pessoalmente, as descrições dos envolvidos no acontecimento. Após visitar algumas casas e, até mesmo, um dos hospitais da cidade, ela possuía, finalmente, definições precisas para o ocorrido, que, por causa da falta de respostas, estava começando a incomodá-la muito. A falta de definições precisas dava espaço para que sua imaginação desenvolvesse, por si própria, as causas e consequências daquilo que ocorrera, sendo essas construções inconscientes muito assustadoras, fazendo com que fosse conduzida a cenários e possíveis acontecimentos — sentidos como se estivessem ocorrendo ao mesmo tempo em que eram imaginados —, que eram extremamente dolorosos para ela.

No outro dia, as testemunhas mais relevantes foram chamadas para depor novamente. Dessa vez, a diretora, em posse dos depoimentos dos envolvidos no caso, direcionou suas perguntas, tendo como referência sua interpretação daquilo que ouviu das garotas. As descrições exatas e bem direcionadas das agressoras, em detrimento do depoimento inseguro — que envolvia muitas possibilidades, e possíveis definições, que, por serem vastas e complexas, faziam com que nada pudesse ser definido com exatidão — daquela que passou a ser considerada pela diretora como sendo uma “garota esquisita”, fizeram com que a interpretação dos fatos fosse favorável às garotas que possuíam definições precisas, valorizando aquilo em que elas acreditavam, aquilo que elas diziam ser a verdade.

As perguntas, que passaram a ser capciosas, faziam mais do que confirmar as impressões da diretora, elas induziam os alunos, que ainda estavam indecisos em relação ao que deviam pensar sobre o ocorrido, a interpretarem os fatos de acordo com aquilo em que acreditava a diretora. O meu relato foi o único que não se deixou influenciar por crenças alheias; eu expliquei tudo aquilo que tinha visto, toda a injustiça, a inveja, que eram os verdadeiros motivos por trás da briga. Mesmo com minha voz firme e minha atitude segura perante aquilo que era descrito por mim, a diretora insistia em tentar me convencer de que minhas crenças e opiniões eram infundadas. Ao fim de nossa conversa fiquei ainda mais surpreso quando ela insistiu que eu agia como uma pessoa que estava nervosa, que havia passado por um estresse intenso durante o ocorrido, fato esse que não me permitia definir com precisão aquilo que vira.

“Oh, meu querido. Esse acontecimento parece lhe incomodar muito. Posso ver o jeito como cruza seus braços, ou como olha para um ponto longínquo, ao invés de olhar diretamente para mim, quando conversamos. Sei que o ocorrido foi doloroso, sei que fazê-lo se lembrar disso o incomoda, mas é preciso que investiguemos os fatos, é preciso que não nos atenhamos a preconceitos e definições infundadas, para que possamos, somente assim, punirmos os verdadeiros culpados de uma das piores tragédias dessa escola. Por ver esse seu abalo emocional, que o faz incapaz de poder me explicar com precisão suas ideias, irei ligar para seus pais e pedir que venham lhe buscar. Quero que você descanse e não se estresse ainda mais, isso pode fazer mal para uma criança da sua idade.”

“Não preciso de nada disso. Eu me sinto muito bem, muito tranquilo e relaxado. Tudo aquilo que eu disse antes é o que realmente penso e vejo. Posso dizer que...”

“Ah, meu querido, você é tão corajoso tentando admitir o contrário daquilo que posso ver claramente. Eu sei o que você está passando, o melhor a fazer é descansar e evitar voltar a estar em contato com aquilo que lhe marcou profundamente. Irei ligar para seus pais, você deve descansar!”

“Mas eu insisto, um grande equívoco está...”

“Um funcionário irá buscar seus materiais, enquanto isso você ficará na recepção esperando por seus pais.”

Percebendo a impotência da minha voz perante aquela mentalidade já definida, dirigi-me até a recepção, sem dizer mais nada, e esperei pela minha mãe, que não tardou a vir até a escola.


Lucas Shiniglia

Sei lá. Sem ter muito o que fazer... eu escrevo. Uma rabiscada aqui, outra ali; às vezes me surpreendo ao ver um texto coerente na minha frente, então — ao invés de colocá-lo em uma pilha de textos anônimos — eu o publico aqui .
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