o vácuo

As paradas da vida pós-moderna.

Lucas Shiniglia

Sei lá. Sem ter muito o que fazer... eu escrevo. Uma rabiscada aqui, outra ali; às vezes me surpreendo ao ver um texto coerente na minha frente, então — ao invés de colocá-lo em uma pilha de textos anônimos — eu o publico aqui

Um relato nada mundano (parte 3)

"O meu maior medo é que os outros me vejam como eu os vejo."


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Naquele dia, aproveitei minha folga forçada para visitar a única pessoa capaz de despertar sensações intensas em mim. O caminho que deveria ser percorrido até sua casa era muito longo, mas não percebi os incontáveis passos, ou as mais variadas pessoas com as quais me deparei ao longo do percurso. Minha mente estava focada em algo específico, fazendo com que deixasse de notar muitas coisas à minha volta, fazendo com que eu nem ao menos notasse o quanto me esforçava, o quanto me desgastava, para encontrar aquilo que me encantava. Chegando à casa dela, fui informado pela sua mãe de que ela não iria receber ninguém. Essa informação fez com que eu deixasse de pensar, por um momento, naquilo que tanto me agradava. Destituído de um ideal que antes me guiava, pude perceber o quanto estava cansado; os raios solares intensos, da metade do dia, haviam queimado a minha pele, que ardia; em meus pés haviam se formado bolhas e o ambiente à minha volta tornou-se, novamente, absurdamente múltiplo, mutável e agitado. Sentei-me na sarjeta, em frente à casa dela. Contemplei os muros e as janelas da casa, sempre pensando na pessoa que ali morava. De repente, um pensamento fez com que as lágrimas escorressem pelo meu rosto; vi-me em um mundo onde ela não mais estava presente, e isso foi muito doloroso. Tudo aquilo que me motivava, que embelezava a minha vida, havia desaparecido, fazendo com que eu mergulhasse em um oceano de tristeza e desespero, que a cada momento parecia tornar-se ainda pior, e pior, e pior, fazendo com que eu sentisse uma dor profunda e atormentadora, que estimulava, quase que involuntariamente, minhas lágrimas dolorosas.

Percebendo-me em um estado desolado, fiquei receoso de que alguém ali me visse daquela forma. Então levantei-me rapidamente e andei, novamente, o longo caminho até a minha casa.

Três dias após o incidente, a diretora adentrou a sala de aula e pediu que todos prestassem atenção naquilo que ela tinha para falar. Todos os alunos abandonaram suas tarefas e olharam atentamente para ela. Olhando despretensiosamente para os meus colegas pude identificar as cinco agressoras, alguns colegas que pareciam possuir o mesmo semblante de sempre — sem nunca alterarem o que quer que fosse em si mesmos, por mais que tudo à volta deles se alterasse por completo —, algumas pessoas que se autointitulavam sensíveis — mas que cometiam o grave erro de confundir sensações incitadas por determinações morais-culturais com sensibilidade —, quase tudo estava igual ao que sempre fora, o ambiente e as pessoas ali presentes ainda me enojavam, mas, no entanto, algumas poucas diferenças faziam toda a diferença; alguns rostos inchados faziam com que a sala se tornasse ainda mais feia e a carteira vazia da minha amiga fazia com que tudo aquilo se tornasse praticamente insuportável.

“Bom dia, meus queridos. Quero lhes informar que tomamos medidas severas em relação ao acontecimento deplorável que ocorreu aqui nessa escola na segunda-feira. Após uma análise pormenorizada da situação, punimos a verdadeira culpada de toda essa situação lastimável. Ela permanecerá suspensa por uma semana; nesse período irei me reunir com pais e professores para decidir sobre a possibilidade de uma expulsão definitiva. Quero salientar que atos de violência sempre serão punidos severamente aqui nesta escola. Ao mesmo tempo que externo minha indignação, gostaria de agradecer a colaboração de todos que ajudaram a desvendar os verdadeiros motivos que incitaram uma atitude incoerente e perigosa.”

A diretora interrompeu seu discurso por um breve momento. Ela procurou alguém pela sala, com o olhar, e quando me encontrou sua fisionomia se alterou, deixando de ser austera e severa para se tornar tristonha e compassiva.

“Sei que o que ocorreu causou impactos profundos em muitas pessoas. Para aqueles que ainda estão muito abalados, posso garantir que a escola irá fornecer todo o apoio moral nesse momento estressante e delicado. Gostaria que ninguém se sentisse acanhado em se tratando de conversar sobre aquilo que os incomoda; vocês sempre poderão contar comigo quando quiserem encontrar alguém que os escutem, que os entendam e os ajudem a lidar com suas dores mais profundas. Obrigada pela atenção,”

Ela se retirou e isso me fez muito bem. A presença dela me fez sentir como se estivesse absolutamente, profundamente, sozinho.


Lucas Shiniglia

Sei lá. Sem ter muito o que fazer... eu escrevo. Uma rabiscada aqui, outra ali; às vezes me surpreendo ao ver um texto coerente na minha frente, então — ao invés de colocá-lo em uma pilha de textos anônimos — eu o publico aqui .
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