o vácuo

As paradas da vida pós-moderna.

Lucas Shiniglia

Sei lá. Sem ter muito o que fazer... eu escrevo. Uma rabiscada aqui, outra ali; às vezes me surpreendo ao ver um texto coerente na minha frente, então — ao invés de colocá-lo em uma pilha de textos anônimos — eu o publico aqui

Muita imaginação = Grande problema

Imaginação: 1. faculdade que possui a capacidade de representar imagens;
2. faculdade de criar a partir da combinação de ideias; criatividade.


Em se tratando de imagem, de acordo com Sartre, podemos defini-la como sendo uma representação; essa representação tem referência a objetos externos, ou a elementos criados, e pode ser considerada como sendo o conteúdo de nossas sensações sensoriais (percepção). Nesse contexto, podemos considerar nossas imagens como sendo puramente virtuais, tendo como conexão aos objetos materiais apenas perspectivas capciosas e muito limitadas, que serão responsáveis por fornecer características facilmente identificáveis, que, por assimilação, incitarão o surgimento das imagens que tais parâmetros representam em nossas mentes.

Essa definição primordial da imagem possibilita o surgimento de duas interpretações discrepantes, sendo a primeira mais materialista — relacionando nossas imagens a sensações físicas, designando as imagens como sendo derivadas de sensações (como, por exemplo, o surgimento de memórias antigas através de excitamento de determinadas regiões do cérebro) — e a segunda mais intelectual — relacionando nossas sensações a imagens, que podem surgir espontaneamente em nossas mentes, incitando sensações e ações (tive um pensamento triste; em meio ao cenário obscuro, que se formou na minha mente, senti-me indisposto). Sartre, sendo ele um autor que muito admiro, deixa clara sua preferência pela interpretação mais intelectual das imagens, em detrimento de uma interpretação materialista.

Ao mesmo tempo em que explicitamos o caminho que foi escolhido por Sartre, tomamos conhecimento da perspectiva conceitual de vazio que o mesmo adota, sendo ela explicitada em algumas frases célebres: “Se investigarmos todos os nossos conceitos profundamente, acabaremos por percebê-los como sendo construídos sobre o nada.” “Nossos conceitos não existem, desde sempre, dentro de nós, eles são formulados ao longo do tempo.” Essa perspectiva faz com que encaremos a vida como sendo vazia, sem significado ou conceitos pré-estabelecidos, cabendo a nós definirmos a forma como interpretamos as coisas.

Essa perspectiva libertária, que deposita um enorme peso sobre as pessoas, ao entregar-lhes a difícil tarefa de determinarem tudo à sua volta, pode ser rapidamente contestada. Desde sempre, somos direcionados a enxergar nossas sensações, coisas e acontecimentos de uma forma sistematizada e em comum; essa imposição, de ordem social, direciona nossas perspectivas, fornecendo elementos específicos de assimilação, que irão representar imagens específicas.

maxresdefault.jpg

Essas definições, do funcionamento da nossa mente, se restringem ao nosso inconsciente, a uma localidade até certo ponto inacessível da nossa mentalidade. Desse modo, podemos dizer que nosso saber, nossos direcionamentos e interpretações, foram construídos antes mesmo que pudéssemos analisá-los conscientemente. A inserção da consciência, na estruturação do intelecto, complica ainda mais as já complexas explicações; a consciência permanece como sendo um mistério, no entanto, podemos arriscar uma definição; podemos apresentar essa entidade como sendo um modelo, um esquema, que de posse de conceitos — símbolos, palavras, modelos matemáticos — busca determinar, mensurar, com precisão, nossas imagens profundas e inconscientes. Essa nossa tentativa de definição do inconsciente é, segundo Sartre, sempre limitada, não avançando mais do que a simples definição de algumas imagens, e, mesmo tais definições diminutas, não podem ser consideradas como sendo absolutamente corretas, atributos esses que evidenciam uma grande distância entre nossas estruturações conscientes e nosso inconsciente. Ao mesmo tempo, podemos salientar a forma capciosa como enxergamos as coisas, mesmo inconscientemente, aspecto esse que evidencia a grande distância entre nosso saber profundo, nossos conceitos inconscientes, e a realidade.

Essa dupla distância é suficiente para que não mais nos sintamos satisfeitos com aquilo que pensamos conhecer, e nos impulsiona rumo a uma jornada complexa, rumo a testes incansáveis, rumo à adoração da matemática e da linguagem, que têm por intuito questionarem todas as nossas crenças e conceitos, ao mesmo tempo que os testam através das mais variadas experiências e estruturações.

Logo no princípio, percebemos ser a reestruturação de nossos conceitos uma tarefa muito difícil, capaz de pulverizar todas as nossas ilusões entorpecedoras e fazer com que nos sintamos menores e mais impotentes do que nunca, imagem essa que traz, sempre, o desespero mais insuportável. Após essa sensação, a valorização de ilusões pode passar a ser imprescindível, fazendo com que o antigo explorador destemido estruture todos os seus conceitos em função da manutenção de ideais que afugentam uma dor profundamente desesperadora.

Esse acontecimento, capaz, por si só, de fazer com que muitos deixem de se aventurar através de suas mentes e conceitos, é, em todo caso, raro e pode ocorrer apenas em pessoas dotadas de uma consciência um tanto desenvolvida. Para ser mais preciso, é necessário salientarmos o quanto nossos esquemas estão distantes, muitas vezes, dos nossos conceitos profundos; essa característica se dá pelo fato de que nossas imagens são vastas, englobando muitos elementos, que nossa consciência — vamos chamar de imaginação — não é capaz de reproduzir com precisão. No entanto, em algumas pessoas dotadas de uma capacidade intelectual ímpar, nesse caso sendo ela uma imaginação muito potente, esses conceitos profundos podem ser mensurados com precisão, podem ser “traduzidos” “trazidos à tona”, vivenciados — como determinamos as coisas como sendo imagens em nossa mente, definimos, dessa forma, uma característica virtual para os nossos pensamentos, para aquilo que acreditamos ser a realidade, atributo esse que torna aquilo que imaginamos ser, também, uma realidade, podendo essa característica ser classificada como uma realidade induzida —, e aí, meu amigo, só tenho uma coisa a dizer: Deu ruim!

dsc_0025.jpg

Em um mundo que passou a ter múltiplas possibilidades, cada escolha, cada direcionamento, terá um sabor insuportável. Em nossas mentes, onde tudo está sendo desenvolvido a todo o momento, sem que percebamos tais desenvolvimentos, nossas impressões e possibilidades vão sendo definidas; em um mundo imaginário inconsciente, distante da realidade e suas restrições, adquirimos interpretações exageradas e impossíveis para as nossas impressões. Dessa forma, uma mente múltipla será sempre atormentada pela realidade insossa de suas escolhas, que sempre estarão absolutamente distantes das expectativas inconscientes.

Nesse contexto, em meio a um ininterrupto paradoxo da escolha, qualquer decisão irá causar dor, atributo esse que transformará em lei a apatia. Essas características, por mais banais que pareçam ser, estão presentes, a princípio, de uma forma imperceptível, muito distantes de qualquer identificação consciente. Ao mesmo tempo que a ausência de consciência sobre o problema impede que o mesmo seja sanado, o indivíduo se vê constantemente desesperado, perante interpretações discrepantes, que, por serem vastas e variadas, muitas vezes ainda não adquiriram mecanismos de proteção, o que faz com que algumas perspectivas sejam desenvolvidas, sem qualquer tipo de interrupção. O aparecimento do cenário mais satisfatório ou o aparecimento do cenário mais tenebroso, não importa, as duas possibilidades são simplesmente exaustivas, desesperadoras. Só aqueles que convivem com tais extremos sabem o quanto eles devem ser reduzidos pelo nosso intelecto, a qualquer custo.

Meisel 4 refined.jpg

Tais reduções, presentes nas mentes mais saudáveis e bem direcionadas, afugentam alegrias e dores extremas, fazendo com que o indivíduo nunca vivencie tais sensações, que, por mais que sejam afugentadas, podem surgir. Nessas mentes inexploradas, situações extremas nunca são imaginadas, nem mesmo são desenvolvidas inconscientemente, sendo, desde sempre, abandonadas, em uma debandada instantânea, ao menor princípio de surgimento. Tal atributo, faz com que essas possibilidades contenham as expectativas mais exageradamente absurdas, que pela falta de desenvolvimento, pela fuga constante, permanecem como possibilidades atormentadoras. Essas pessoas podem, na vida real, se depararem com essas possibilidades dolorosas e obscuras; sem terem desenvolvido possíveis consequências e desenvolvimentos dessas situações, essas pessoas acabam por encararem, despreparadas, impressões atormentadoras, que farão com que o indivíduo se sinta desesperado e impossibilitado de agir coerentemente nesses cenários.

Uma pessoa corajosa é aquela que se permite desenvolver as situações mais amedrontadoras, que explora pormenorizadamente as possibilidades e consequências nesses cenários; essa atividade dolorosa não é em vão, no momento extremo, enquanto muitos estão amedrontados e paralisados, essas pessoas previamente destemidas poderão continuar a agir friamente, mantendo-se serenas em meio a ameaças extremas, indiferentes em meio as situações mais humilhantes, ou inabaláveis em meio a execução de atrocidades.

she wayyy out.jpg


Lucas Shiniglia

Sei lá. Sem ter muito o que fazer... eu escrevo. Uma rabiscada aqui, outra ali; às vezes me surpreendo ao ver um texto coerente na minha frente, então — ao invés de colocá-lo em uma pilha de textos anônimos — eu o publico aqui .
Saiba como escrever na obvious.
version 6/s/sociedade// @obvious, @obvioushp //Lucas Shiniglia