o vácuo

As paradas da vida pós-moderna.

Lucas Shiniglia

Sei lá. Sem ter muito o que fazer... eu escrevo. Uma rabiscada aqui, outra ali; às vezes me surpreendo ao ver um texto coerente na minha frente, então — ao invés de colocá-lo em uma pilha de textos anônimos — eu o publico aqui

Força de vontade?!

“Hoje em dia, muitas, e muitas, pessoas são cheias de força de vontade e de ímpeto. Ser alguém assim passou a ser banal, nem um pouco diferente e interessante. O que, para mim, parece ser realmente interessante, seria encontrar uma pessoa cheia de vontade e capaz de compreender os motivos de sua força exacerbada.”


“A percepção do absurdo, quando se deduz um comportamento a partir dessa descoberta, faz com que o assassinato se torne indiferente, portanto, possível. Se não acreditamos em nada, se nada tem significado ou valor, então tudo é possível e nada tem importância. Então não existem prós ou contras; o assassino não está certo nem errado. Somos livres para matar ou nos devotar a cuidar e defender quem quer que seja. O bem e o mal são, nesse caso, meramente chances ou caprichos.”

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Essa concepção completamente vazia, sem conceitos exatos e metas, não pode ser considerada como sendo absolutamente verdadeira. A vida é feita de escolhas, conteúdos psicológicos ocultos e referências, que possuem direcionamentos e prioridades bem definidas, por mais profundos, incompreensíveis e inalcançáveis que nos pareçam ser; dessa forma, o mero ato de respirar é uma decisão, um direcionamento, baseado em motivos que muitas vezes permanecem inacessíveis dentro de nós. Nesse contexto, o niilismo profundo, sem crença alguma, passa a ser totalmente incoerente, conduzindo-nos a avaliar os indivíduos destruidores de conceitos como sendo pessoas inconformadas com o ambiente onde vivem e que almejam a construção de novos valores, perspectivas e direcionamentos.

Tais definições devem ser relacionadas a indivíduos destituídos de imaginação, incapazes de fornecer conteúdos conscientes para aquilo que sentem, para aquilo que são. Essa impossibilidade faz com que conteúdos profundos permaneçam para sempre imutáveis e relevantes. Ao mesmo tempo, a falta de imaginação fará com que tal indivíduo possua uma estrutura bem definida, bem direcionada, livre de questionamentos e múltiplas interpretações. Esse mundo medíocre e limitado parece ser a realidade dos seres comuns e cheios de força de vontade. Sempre lembrando que generalizar é simplificar e errar, devemos tomar como base esse tipo específico de indivíduo quando nos propomos a analisar a força de vontade banal, que encontramos em qualquer esquina.

Possuidoras de valores e estruturas intrínsecas, as pessoas irão agir ao longo de suas vidas, defendendo aquilo em que acreditam e repudiando aquilo que ameaça suas crenças. Diferente de todos os outros seres vivos, o ser humano sempre pensa para além de si mesmo, sempre definindo metas e objetivos, que, constantemente, fazem com que eles se revoltem e neguem a realidade que se apresenta a eles. Essa nossa característica transforma o mundo em um local para sempre angustiante, onde nos empenhamos para alcançar metas, que quando alcançadas nos conduzem a novas metas. Essa nossa atitude, essa nossa busca sem fim, parece ser ininterrupta e irreversível.

Em meio a essa insatisfação intrínseca, algumas pessoas se sentem muito mais desoladas e desesperadas que o normal. Esse sentimento, muitas vezes, pode ser relacionado ao ressentimento, à distância entre a realidade do ressentido e aquilo que ele almeja. Nesse caso intenso de dor causada pela imaginação, mesmo sendo ela limitada, o indivíduo pode transformar tal ressentimento em força de vontade ou em amargura.

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No primeiro caso, o indivíduo será possuidor de uma força profunda, pronta para ser direcionada rumo a obtenção daquilo que ele almeja, daquilo que ele pensa que irá alterar sua situação e sanar suas carências e decepções. Em sua busca egoísta por mudança, esse indivíduo irá afugentar a ideia de destino, ou de um Deus que já estabeleceu tudo que irá acontecer. Nessas mentalidades ressentidas e obcecadas, qualquer coisa que os façam se enxergar como sendo alguém sem força ou habilidade, para chegarem onde desejam, será prontamente afugentada e odiada. Esse direcionamento inquestionável é baseado, sem exceções, no senso comum; ao mesmo tempo, a falta de imaginação — que faz com que esse tipo de gente consiga apenas realizar associações cotidianas, estabelecer metas e possuir conteúdos psicológicos cotidianos —, permite tais pessoas manterem seus ideais completamente protegidos de qualquer tipo de questionamento ou verificação, fazendo com que o amor e a estupidez nunca acabem.

Esses obcecados, estúpidos, esquizofrênicos, irão contagiar outras pessoas com suas paixões cegas e ignorância, com a simplicidade e falta de complexidade de suas ideias, que, por serem medíocres, estúpidas e banais, não deixam espaço para incertezas e, consequentemente, para a dor de interpretações flutuantes. Ao mesmo tempo, tudo o que conseguem enxergar, que conseguem perceber, está estritamente relacionado aos seus ideais, a suas metas.

Um mundo onde tudo é bem ordenado, e exato, é bem mais satisfatório que um mundo incerto e flutuante, isso é fato. Nesse caso, as interpretações das pessoas ressentidas, sem imaginação e cheias de força de vontade serão aceitas prontamente, serão valorizadas pela maioria das pessoas. Na mente sem imaginação, desses líderes limitados, os conceitos mais cotidianos e limitado serão considerados verdades absolutas e inquestionáveis. Como podemos perceber ao nosso redor, sem precisarmos ser gênios para tanto, o dinheiro e os bens materiais são as motivações mais profundas do homem contemporâneo comum. Desse modo, podemos dizer, sem receio, que o dinheiro é o móbil mais intenso do homem ressentido e cheio de vontade. Para ele, em sua mente limitada, tudo se resume a isso; afeto, sentimentos, desejos, medos, etc., tudo é mensurado através do dinheiro.

“— Sabe, os pais daquele garoto estão se separando, e isso me entristece. Já pude perceber que o pai e ele são muito similares; a relação entre os dois poderia significar uma melhor compreensão, para o filho, de si mesmo. Infelizmente, ele vai morar com a mãe, e não mais verá o pai tão constantemente, talvez nunca mais o verá; essa distância forçada não permitirá ao garoto explorar algumas partes essenciais de si mesmo, que definem aquilo que ele é.

— Acho que você não deve se preocupar, essa pode ser uma oportunidade boa. Provavelmente a mãe e o garoto terão mais dinheiro do que antes.”

“Aquele homem é simples e tem um jeito humilde, ninguém dá nada para ele, mas ele é uma pessoa que deve ser estimada. Fiquei sabendo que ele é dono de uma empresa e que possui muitos bens.”

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Essas pessoas, que destroem qualquer tipo de ordenação, de destino, de Deus, tendo em vista somente a obtenção de seus desejos sociais, acabam por se deparar com a grandiosa dificuldade de se tornarem criadores, de se tornarem Deuses de seus próprios mundos. Como o Karamázov do meio, eles se veem completamente desesperados em meio a um mundo sem qualquer tipo de ordenação, onde apenas o raciocínio lógico é incapaz de trazer conforto, ou como um Raskólnikov, incapaz de suportar as definições e atitudes que determinam o seu mundo. A identificação, a experiência existencial em tais cenários, faz com que esses homens passem, na maioria das vezes, a proclamarem um conhecido mantra: “Os homens devem nascer de uma ideia, de um mundo previamente ordenado.”

Mesmo não possuindo imaginação, esses seres obcecados acabam por se sentir, em um dado momento de suas vidas, desiludidos com relação a suas buscas estúpidas. Essa constatação sempre conduz a uma alteração do tipo de ressentimento, que, de cheio de força de vontade, passa a ser amargurado. Novos valores, que substituam os antigos, que desmereçam os antigos, passarão a ser estimados por essas pessoas. Desvalorização de ideologias burguesas, socialismo, movimento contracultura ou, até mesmo, o retorno à religião são alguns exemplos dessas fugas amarguradas.

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No entanto, alguns heróis estúpidos são exímios em manterem suas ilusões e crenças, que, pela falta de imaginação, permanecem para sempre em um estágio inicial, que não gera dor ou desespero. Para sempre bem direcionados e limitados, essas pessoas irão manter, para sempre, suas crenças inexploradas e discursos preconceituosos.

Deparados com essas duas possíveis vertentes dos homens comuns e cheios de força de vontade, não podemos ser capazes de dizer qual é a mais patética.

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Lucas Shiniglia

Sei lá. Sem ter muito o que fazer... eu escrevo. Uma rabiscada aqui, outra ali; às vezes me surpreendo ao ver um texto coerente na minha frente, então — ao invés de colocá-lo em uma pilha de textos anônimos — eu o publico aqui .
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