Nós criamos a verdade

“Como você pode dizer alguma verdade se não sabe mentir?”


“Tudo o que escrevo ou falo são apenas grandes mentiras...”

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“... Sei que desperto o interesse de pessoas que possuem muita imaginação, pois possuo um semblante vazio, que permite a construção de qualquer coisa, de qualquer ideal... Ao mesmo tempo, também sou muito odiado, pois o mesmo semblante vazio, que possibilita as construções conceituais mais belas, também permite as elaborações mais perversas e abjetas. Infelizmente, as definições ruins são maioria e, quase sempre, corrompem as poucas belas impressões que algumas poucas pessoas criaram a meu respeito. Por mais que esses acontecimentos pareçam ser tristes, não me preocupo nem um pouco com isso, e, muito pelo contrário, muitas vezes me sinto muito satisfeito. Nunca me senti atraído por nada nem ninguém; mesmo não podendo dizer ao certo como é se sentir curioso a respeito de algo, sei que me sentiria feliz se fosse afastado, com precisão milimétrica, por alguém de quem gosto, mas que não gosta de mim... Não que eu não goste de me iludir, isso é imprescindível para a manutenção de uma vida saudável, o que realmente ocorre é que sei o quanto podemos ser cruéis em relação a alguém que sentimos que se entregou por completo, que pensamos não mais ser capaz de nos oferecer nada de novo e mais intenso. Nesses casos, não tão incomuns para mim, faço uso das mais vastas construções deploráveis a meu respeito, e afasto, através da destruição da imagem grandiosa que criaram como sendo eu, todas as pessoas que me entediam e me perseguem constantemente. Muitos dizem que essa é uma atitude egoísta, mas não penso assim; acho, muito pelo contrário, que essa é a mais altruísta das ações, pois constantemente reitero e confirmo os conceitos mais perniciosos, que destroem minha imagem por completo, só para que alguém desencane, de vez, de mim...”

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“Concomitantemente a essas atitudes autodestrutivas, em prol de outrem, impressiono-me com o quanto ninguém é capaz de pensar por si próprio. As pessoas, quase sempre, incorporam definições alheias e interpretam o mundo à sua volta sob perspectivas sintéticas, que não foram realmente sentidas por aqueles que passam a propagá-las. Essa crença cega, por mais que seja ridícula e exija muita burrice e falta de sensibilidade, às vezes me impressiona... Sinto que se fosse menos questionador, menos obcecado em interpretar as coisas apenas da forma como realmente as vejo e as sinto, poderia ser muito mais sociável, muito mais aceito e compreendido... Esse desejo recorrente retorna de quando em vez à minha mente, impelindo-me a me aproximar de alguém estúpido e confiante em relação a seus conceitos. Esse tipo de aproximação nunca dura muito tempo; rapidamente me sinto enojado com o quanto é preciso emburrecer, humilhar e descartar qualquer coisa que ameace os conceitos exatos, assim como sinto asco do quanto temos de aceitar e personificar rótulos simples e incoerentes a nosso respeito. Essas constatações são sempre seguidas por um afastamento quase que completo...”

“... Esse exemplo tímido de socialização sempre me mostrou o quanto a manutenção de conceitos, não importando o quanto não tenham relação com a realidade, é comum, constante e intensa, enquanto a análise sob diferentes perspectivas, a acumulação de diferentes interpretações e consequências é rara. Esse atributo, deplorável e comum, faz com que as pessoas nunca mergulhem profundamente, nunca realmente questionem suas crenças e dogmas... Dessa forma, a maioria das pessoas possuem impressões limitadas, sempre precisas, inquestionáveis e imutáveis, aspecto esse que as permitem manter ideais, que, ao mesmo tempo que deturpam a realidade, afugentam qualquer tipo de dor ou incerteza desesperadora... O que mais dói é ouvir esse tipo meio macaco de ser humano se considerar mais forte do que as pessoas cheias de imaginação e impressões profundas... Para esse tipo de gente, tudo possui uma explicação exata, gritante e irrefutável, tudo é interpretado da mesma forma — por mais que cada acontecimento seja único —, tudo permanece sempre igual — por mais que tudo sempre mude e adquira novas formas —, pode morrer pai, mãe, cachorro tio, tia, esposa, esposo, a família inteira, o mundo pode mudar por completo, que elas continuarão a enxergar e a agir da mesma forma. Isso que é chamado de força, por essas pessoas, está mais para cegueira."

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“Em um mundo onde os mais cegos, limitados e estúpidos são valorizados, devemos nos empolgar e despertar nossa curiosidade para discursos como esse:

‘— Como você pode dizer alguma verdade se não sabe mentir?

— Como assim? Isso não faz sentido.

Após algumas risadas de surpresa, uma garota que ouvia a conversa os interrompeu.

— Falou bem. Isso foi muito inteligente. Só não fico mais impressionada pois percebo que está perdendo tempo, porque não é capaz de perceber que seu ouvinte é completamente incapaz de compreender o que você está falando.’”


Lucas Shiniglia

Sei lá. Sem ter muito o que fazer... eu escrevo. Uma rabiscada aqui, outra ali; às vezes me surpreendo ao ver um texto coerente na minha frente, então — ao invés de colocá-lo em uma pilha de textos anônimos — eu o publico aqui .
Saiba como escrever na obvious.
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