o vácuo

As paradas da vida pós-moderna.

Lucas Shiniglia

Sei lá. Sem ter muito o que fazer... eu escrevo. Uma rabiscada aqui, outra ali; às vezes me surpreendo ao ver um texto coerente na minha frente, então — ao invés de colocá-lo em uma pilha de textos anônimos — eu o publico aqui

Os limites do nosso mundo

“As palavras não incitam, simplesmente, uma imagem em nossas mentes. Para comprovar a incoerência de tal afirmação, que, aliás, é muito comum, tomemos, como exemplo, o ato banal de dizer: ‘Oi. Tudo bem?’; não é possível que exista uma mera imagem que represente um discurso tão abstrato. Nesse caso a relação entre palavras e imagens não é suficiente para explicar com precisão o que ocorre em nossas mentes em tais situações. Uma explicação, que parece ser mais verossímil, consiste na relação entre palavras e jogos, que são desenvolvidos na nossa mente e são responsáveis por fazer com que interpretemos as palavras. Por exemplo, um simplório ‘Oi, tudo bem?’ irá suscitar alguma situação anterior, onde ouvimos tais palavras; essa experiência anterior, e todas as suas nuances e consequências, virão à tona, na nossa mente, permitindo-nos entender e nos posicionarmos perante tais palavras. Por fim, podemos dizer que as palavras não incitam somente imagens, mas sim situações inteiras, que são desenvolvidas em uma velocidade alucinante, muito além de nossa capacidade de identificar, com precisão, todos os desdobramentos, desenvolvimentos, memórias, responsáveis por nos permitir entender e responder a um mero: ‘Oi; tudo bem?’”


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Nossa mentalidade é muito mais veloz e versátil do que somos capazes de imaginar. Às vezes ouvimos uma palavra, que incita os mais variados pensamentos, cenários e memórias, transportando-nos em alta velocidade por experiências e construções conceituais antigas, que incitam sentimentos e reações. Mesmo que nos esforcemos para identificar aquilo que se passou na nossa mente, somos capazes, apenas, de capturar, imaginar, elementos muito limitados, que não nos traduzem, com precisão, aquilo que realmente ocorreu na nossa mente, nem nos mostram o verdadeiro motivo e a verdadeira razão dos nossos sentimentos e interpretações.

“Muitas vezes me sinto triste, mas não sei ao certo o motivo de tal tristeza profunda. Eu poderia me esforçar, empenhar-me para encontrar, para definir, explicações para essas sensações, mas não me iludo com isso, pois sei que, por mais que me esforce, minhas definições não irão identificar com precisão meus sentimentos.”

Nesse contexto, podemos fazer um comparativo entre nosso pensamento inconsciente e a nossa consciência. Podemos imaginar o primeiro como sendo um viajante veloz, que em um tempo ínfimo percorre o mundo inteiro, passando por, pelo menos, 50 países nessa sua viagem acelerada, podendo, nesses países, desenvolver e experimentar muitas outras situações, podendo visitar cidades, conhecer pessoas, e mais, e mais, e mais. Enquanto isso, nossa consciência pode ser considerada um viajante deficiente e absurdamente lento, quando comparado ao primeiro viajante, que é incapaz de percorrer 1% do caminho percorrido pelo pensamento inconsciente absurdamente rápido, podendo, desse modo, identificar apenas caminhos, pensamentos, limitados, que fornecem informações vagas e imprecisas sobre a nossa mentalidade.

Essa constatação preocupante, que evidencia nossa cegueira, nossa ignorância, passa a nos incomodar, ainda mais, quando constatamos que “o limite da nossa linguagem é o limite do nosso mundo”. Possuidores de tais conhecimentos, passamos a nos sentir incomodados, receosos, perante nossa consciência limitada, que nos apresenta um mundo limitado, incapaz de conter todas as nuances da nossa complexa realidade, incapaz de assimilar e controlar todos os nossos pensamentos inconscientes.

Essa nossa deficiência conceitual, faz com que nos sintamos muito vulneráveis, frágeis, e suscetíveis a sentimentos, impulsos, reações, atitudes e acontecimentos que não fazem do nosso mundo e, portanto, não podem ser identificados com precisão, não podem ser controlados, ou corrigidos. Esse nosso aspecto intrínseco nos mostra o quanto somos incapazes de racionalizar e controlar as mais variadas situações, que vivenciamos ao longo de nossas vidas.

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Situados em um mundo limitado, onde constantemente somos aterrorizados por acontecimentos e sensações que estão situadas muito além das fronteiras da nossa linguagem, não existe nada mais natural do que nossa propensão sensata de afugentar tudo aquilo que não esteja meticulosamente desenvolvido no nosso mundo limitado. Essa nossa característica profunda fazer com que afugentemos qualquer tipo de sofrimento, dor ou desespero, irá afastar qualquer tipo de interpretação, de perspectiva, que não esteja precisamente presente no nosso mundo. Esse atributo básico, para uma pessoa intelectualmente saudável, é, concomitantemente, a base da estupidez.

“Sabe... Aquela pessoa me incomoda, de alguma forma. O seu jeito faz com que eu passe a questionar coisas que são de extrema importância para mim, transportando-me a cenários onde tudo aquilo que é imprescindível, para mim, deixe de existir, fazendo com que me sinta desolado, desesperado, em meio a devaneios exagerados e dolorosos, que sou incapaz de controlar. Sei que essa minha sensação dolorosa deveria ser minuciosamente trabalhada, sei que deveria me aproximar ainda mais da pessoa que incita isso em mim, tendo como objetivo explorar e compreender esse sentimento, atividade essa que me tornaria uma pessoa possuidora de um mundo mais vasto, assim como me tornaria mais forte e indiferente. Aquilo que essa pessoa me faz sentir é o convite perfeito para, como muitas pessoas dizem, ‘to brood awhile’, com o intuito de aprofundar meu pensamento e me tornar mais inteligente. Mas, mesmo sabendo de tudo isso, sinto-me incapaz de suportar o quão doloroso é conviver com aquela pessoa, sento-me impossibilitado de desenvolver a impressão dolorosa que ela suscita. Nesse caso, esforço-me para afugentar, a todo custo, as sensações causadas por essa pessoa em específico; para tanto, constantemente me vejo depreciando e ridicularizando todas as suas ações, preferencias, desejos, hábitos, etc., et cetera. Não contente com esse meu desprezo particular, essa minha desconstrução subjetiva, espalho essas minhas impressões para todos aqueles que conheço, fazendo com que eles concordem e apoiem essas minhas interpretações, aspecto esse que me faz sentir muito mais seguro perante aquilo em que me propus a acreditar, perante aquilo que me propus defender. As pessoas que não compartilham da minha forma particular de enxergar aquele que me incomoda, são prontamente ridicularizados e segregados por mim; essas pessoas fazem com que esse meu mecanismo de proteção seja questionado, e isso, para mim, é inadmissível. Esse desprezo, por nunca ter sido explorado racionalmente por mim, acabou por adquirir nuances ainda mais exageradas e incontroláveis, dignas de nossos desenvolvimentos inconscientes, transformando um mero incômodo inicial em um asco profundo, inexplicável e insuportável. Atualmente, qualquer coisa que me lembre tal indivíduo é prontamente odiada e atacada por mim, assim como, a todo o momento, me vejo insultando e denegrindo, instintivamente, qualquer coisa que represente a imagem daquele que me incomoda. Sei que esse jeito de ser parece absolutamente estúpido, mas não posso evitar, esse ódio, que faz com que eu despreze e afaste muitas pessoas, após uma brevíssima impressão inicial, é o responsável por afastar pensamentos ainda mais dolorosos, que não acredito ser capaz de suportar.”

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Em casos raros, algumas pessoas são capazes de manter impressões em aberto, sem necessitarem estabelecer uma definição exata. Essa condição, por si só, é rara e perigosa, pois não restringe as possíveis interpretações do inconsciente, que, sem um direcionamento exato, flutua incessantemente ao redor de tais impressões em aberto, fornecendo as mais variadas possibilidades, criando os mais variados cenários, sendo eles sempre muito distantes da realidade, sem muito intensos, muito extremos. Os desenvolvimentos inconscientes mais absurdos, que geralmente causam muita dor, exigem, nesses casos, a criação de uma definição precisa, assim como a defesa de tais direcionamentos, tendo em vista a manutenção de uma existência menos dolorosa, menos desesperada, menos volátil.

De posse desses conhecimentos, não mais podemos nos incomodar, tanto, quando ouvimos expressões do tipo: “sobre aquilo que não podemos falar devemos nos calar”. Por mais que tais expressões sejam uma justificativa tenebrosa para a manutenção de um mundo limitado e inexplorado, fazendo com que os limites da nossa consciência nunca sejam ampliados, temos que concordar que nossa mente, nosso corpo, não são capazes de aguentar investigações prolongadas, vazios conceituais prolongados, nossas próprias interpretações inconscientes exageradas e ininterruptas, o que transforma tal expressão covarde em um mantra da vida saudável, limitada e estúpida.

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Lucas Shiniglia

Sei lá. Sem ter muito o que fazer... eu escrevo. Uma rabiscada aqui, outra ali; às vezes me surpreendo ao ver um texto coerente na minha frente, então — ao invés de colocá-lo em uma pilha de textos anônimos — eu o publico aqui .
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