o vácuo

As paradas da vida pós-moderna.

Lucas Shiniglia

Sei lá. Sem ter muito o que fazer... eu escrevo. Uma rabiscada aqui, outra ali; às vezes me surpreendo ao ver um texto coerente na minha frente, então — ao invés de colocá-lo em uma pilha de textos anônimos — eu o publico aqui

A zoeira

“Ah, a zoeira...
Com certeza não me importaria, nem um pouco, se a todo momento as pessoas se preocupassem em elaborar chistes divertidos; adoraria que tudo fosse motivo de piada, que assumisse um aspecto mais irrelevante, desimportante, ao invés da típica característica exageradamente, irracionalmente, trágica.”


A zoeira, definitivamente, não é para qualquer um. A interpretação irracional exagerada, que cria cenários absurdamente tenebrosos, fazendo com que todo o nosso corpo seja colocado em alerta — prepare-se para combater, para sobreviver, para lidar com as situações mais dolorosas e intensas —, mas que logo recebe uma análise mais pormenorizada e racional, que afugenta a interpretação equivocada e perturbadora, fazendo com que nos percebamos cheios de energia, alertas, mais do que nunca, para enfrentarmos algo que não existe mais; toda essa força, essa tensão, que se tornou desnecessária, é dispersada com uma risada. Essa definição, pormenorizada, pode ser caracterizada, simplesmente, pela palavra piada o, como las personas que hablan español llaman, chiste.

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“— Vocês viram aquela loja que só vende boias? Sabe, não consigo entender como um aloja que vende só boias pode estar a tanto tempo em funcionamento. Essa loja já deve ter, pelo menos, 10 anos, e, mesmo em meio a essa crise econômica sem fim e generalizada, ela não fecha. Não é possível que as pessoas precisem tanto assim de boias. As três pessoas que estavam no carro olharam para a loja, que, na vitrine, expunha os tipos e modelos mais variados de boias para piscina. Na vitrine, que não era muito grande e que ocupava quase toda a frente da loja, podia-se ver espaguetes, boias de braço, boias maiores no formato de jacarés, tubarões e baleias, pool boias, colchões de ar, boias no formato de poltrona, e muitos outros produtos, todos eles relacionados ao mesmo segmento.

Mesmo após o veículo, onde estavam as três pessoas, ter passado pela loja, a conversa não mudou de foco.

— É muito estranho mesmo, uma loja que só vende boias, e nada mais, não pode dar tanto lucro assim, não dá para entender como estão abertos a tanto tempo. Deve ser “lavagem de dinheiro”, só pode.

Enquanto as pessoas no carro eram acometidas por pensamentos relacionados a “lavagem de dinheiro”, sendo eles incitados por uma suposição infundada e espontânea. Enquanto que, como que inconscientemente, se podia identificar a imagem de um homem que obtinha lucro de forma duvidosa, vendendo produtos e serviços sem nota fiscal, que não pagavam impostos, e, após isso, precisava encontrar uma forma de “limpar” o dinheiro obtido com a venda de tais produtos e serviços, forjando vendas e preços, para que esses lhe fornecesse uma quantia que podia ser deduzida no imposto de renda e permitiria a justificação da compra e manutenção de imóveis e outros produtos. Uma das pessoas, que estava no carro, disse:

— Ah, nada a ver. Não sei por que vocês estão tão impressionados, é óbvio que uma loja assim nunca vai afundar.

Após essas palavras, o homem que “lavava dinheiro” desapareceu da mente das pessoas que estavam no carro, em seu lugar surgiu uma loja em formato quadrado, cheia de boias dentro. Mesmo sendo de concreto, a loja boiava no oceano agitado. Mesmo sendo violentamente balançada pelo mar bravo, a loja não afundava, e, com as luzes em seu interior acesas, iluminava o oceano durante a noite. Essa imagem incoerente tornou-se preocupante; não fazia sentido uma estrutura de concreto e metal, que é muito mais densa que a água, até mesmo mais do que a água do mar — que por causa de sua alta salinidade é mais densa que o normal — flutuasse daquela forma. Ao mesmo tempo em que essa incoerência passava pela mente de todos, todas as crenças e conceitos que definiam a realidade pareciam ser questionados, ser desconstruídos, fazendo com que todos presenciassem o desmoronamento de conceitos imprescindíveis, essenciais, acontecimento esse que colocava o corpo em alerta, enrijecendo músculos e preparando todos ali para se depararem com suas interpretações particulares de fim de mundo, de dor desesperadora. No entanto, logo após essa interpretação irracional, literal, e equivocada, uma nova interpretação surgiu, nela a loja de concreto, que boiava no oceano, voltou a estar localizada onde sempre esteve. Em seu local habitual, a loja teve uma nova relação com aquilo que expressava a palavra afundar; dessa vez, esse termo passava a ter relação a falência, e, concomitantemente, mas como um sentido secundário — que reforçava a ideia de falhar, de acabar —, a afundar. Nessa nova interpretação, a loja foi associada, literalmente, a uma boia; a imagem anteriormente incoerente, e perturbadora, desapareceu, sendo substituída pela imagem de uma loja feita de borracha, que armazenava uma grande quantidade de ar, que era menos densa que a água do mar e flutuava, assim permanecendo em funcionamento, não afundando — termo referente a falir —, aspecto esse que era coerente com conceitos e interpretações previamente elaboradas, que determinavam, estruturavam, tudo aquilo que era percebido, o que eliminava qualquer tipo de tensão ou desespero. Mesmo após o desaparecimento do cenário aterrador, toda a energia gerada por ele ainda permanecia no corpo daquelas três pessoas. Por fim, essa tensão, essa força que havia se tornado desnecessária, foi direcionada, gasta, com uma risada alta. Há Há Há.”

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Por mais que as explicações para o riso pareçam ser incoerentes, equivocadas e não condizentes com aquilo que percebemos, devemos sempre nos lembrar de que nossa mente, nossas interpretações inconscientes, ocorrem de forma exageradamente veloz, a uma velocidade tão elevada que a nossa consciência (imaginação) não é capaz de identificar com precisão tudo aquilo que se passa em nossa mente. Talvez essas elaborações extensas, complexas e voláteis, essas interpretações discrepantes e que estão sendo definidas constantemente, ocorram rapidamente, e incessantemente, nas nossas mentes.


Lucas Shiniglia

Sei lá. Sem ter muito o que fazer... eu escrevo. Uma rabiscada aqui, outra ali; às vezes me surpreendo ao ver um texto coerente na minha frente, então — ao invés de colocá-lo em uma pilha de textos anônimos — eu o publico aqui .
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