As leis

“Duvido que alguém seja capaz de elaborar leis que mais se aproximem da vontade do criador do que aquelas que foram redigidas neste livro. Outros povos desrespeitaram e não deram ouvidos aos profetas, que expressavam as verdades divinas, e foram castigados impiedosamente. As seguintes leis estão em consonância com a vontade divina e trarão, para aqueles que as respeitam e zelam, a bênção celeste, nesta vida e na vida além-túmulo.”


300px-Maome.jpg

Jesus preso e condenado à morte por causar um tumulto, após sair realizando milagres em meio a inquisição espanhola. Esse cenário, talvez um dos mais populares da literatura mundial, não passa de uma estruturação meticulosa e abrangente, que serviria como base para a elaboração de um poema; nele, o autor pretendia mostrar o quanto a liberdade pode ser dolorosa, o quanto o nada, o deserto, não é desejado por ninguém, não faz bem a ninguém, sendo necessário, para a manutenção de uma existência saudável, ideais, a religião, o amor. É nesse ponto que o bispo, que condenou Jesus, se mostra um herói atemporal, que luta incansavelmente para manter as leis, uma ordem previamente elaborada de mundo e evitar que as pessoas, alguma vez na vida, se deparem com a liberdade absoluta, com o desespero irremediável.

the grand inquisitor.jpg

O personagem/autor que está desenvolvendo o poema se depara com o fardo que é uma existência sem ideais; em meio suas desconstruções profundas, ele acaba por encarar condições existenciais que não é capaz de suportar e que o levam à beira da insanidade, senão à insanidade. Ao mesmo tempo, seu irmão mais novo representa algo como que o tipo de ser humano mais “evoluído”, sendo ele possuidor de ideais inabaláveis, que o permite ser centrado e convicto em suas resoluções. O típico homem nascido de uma ideia, a “evolução” e o objetivo que Dostoiévski sempre almejou, sempre expressou em seus livros.

O assassinato a sangue frio, que não causa remorso ou dúvidas dolorosas; esse tema recorrente nada mais é do que a capacidade de direcionamento convicto rumo a algo, a decisão convicta, que não possui qualquer tipo de dúvida ou perspectiva contrária que possa questionar e tornar doloroso aquilo que havia se tornado a resolução mais correta. Dostoiévski é um tanto cego a ponto de não ser capaz de perceber ser o mais esquisito dos esquisitos, não ser capaz de perceber que sua mente hiperativa e complexa se encontra anos luz à frente daqueles que são convictos e nunca sentem remorso ou nunca são acometidos por incertezas. Ele admira os assassinos frios que encontrou durante sua visita a casa dos mortos, mas é incapaz de perceber que não poderá, algum dia, ser como eles, que sua mente inquieta nunca o permitiria estabelecer direcionamentos sem que esses não o incomodem de algum modo.

Sendo dotado de um tipo “esquisito” de pensamento, ele questiona e acaba por destruir qualquer tipo de direcionamento, de ilusão, de religião. Essa característica, por si só, faz com que ele corra riscos, a todo o momento. Isso ocorre em função da capacidade de tais pessoas gerarem um questionamento instantâneo daquilo que era tido como correto e essencial, trazendo, consequentemente, uma dor profunda que, na falta dos ideais anteriores, se tornam desesperadoramente irremediáveis. Esse tipo de gente é odiado tanto quanto o prisioneiro Raskólnikov.

Esse é o destino daqueles que questionam, mesmo que involuntariamente as leis. Talvez eles estejam fadados, para sempre, a desaparecerem violentamente.


Lucas Shiniglia

Sei lá. Sem ter muito o que fazer... eu escrevo. Uma rabiscada aqui, outra ali; às vezes me surpreendo ao ver um texto coerente na minha frente, então — ao invés de colocá-lo em uma pilha de textos anônimos — eu o publico aqui .
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/literatura// @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Lucas Shiniglia
Site Meter