o vácuo

As paradas da vida pós-moderna.

Lucas Shiniglia

Sei lá. Sem ter muito o que fazer... eu escrevo. Uma rabiscada aqui, outra ali; às vezes me surpreendo ao ver um texto coerente na minha frente, então — ao invés de colocá-lo em uma pilha de textos anônimos — eu o publico aqui

As leis

“Duvido que alguém seja capaz de elaborar leis que mais se aproximem da vontade do criador do que aquelas que foram redigidas neste livro. Outros povos desrespeitaram e não deram ouvidos aos profetas, que expressavam as verdades divinas, e foram castigados impiedosamente. As seguintes leis estão em consonância com a vontade divina e trarão, para aqueles que as respeitam e zelam, a bênção celeste, nesta vida e na vida além-túmulo.”


300px-Maome.jpg

Jesus preso e condenado à morte por causar um tumulto, após sair realizando milagres em meio a inquisição espanhola. Esse cenário, talvez um dos mais populares da literatura mundial, não passa de uma estruturação meticulosa e abrangente, que serviria como base para a elaboração de um poema; nele, o autor pretendia mostrar o quanto a liberdade pode ser dolorosa, o quanto o nada, o deserto, não é desejado por ninguém, não faz bem a ninguém, sendo necessário, para a manutenção de uma existência saudável, ideais, a religião, o amor. É nesse ponto que o bispo, que condenou Jesus, se mostra um herói atemporal, que luta incansavelmente para manter as leis, uma ordem previamente elaborada de mundo e evitar que as pessoas, alguma vez na vida, se deparem com a liberdade absoluta, com o desespero irremediável.

the grand inquisitor.jpg

O personagem/autor que está desenvolvendo o poema se depara com o fardo que é uma existência sem ideais; em meio suas desconstruções profundas, ele acaba por encarar condições existenciais que não é capaz de suportar e que o levam à beira da insanidade, senão à insanidade. Ao mesmo tempo, seu irmão mais novo representa algo como que o tipo de ser humano mais “evoluído”, sendo ele possuidor de ideais inabaláveis, que o permite ser centrado e convicto em suas resoluções. O típico homem nascido de uma ideia, a “evolução” e o objetivo que Dostoiévski sempre almejou, sempre expressou em seus livros.

O assassinato a sangue frio, que não causa remorso ou dúvidas dolorosas; esse tema recorrente nada mais é do que a capacidade de direcionamento convicto rumo a algo, a decisão convicta, que não possui qualquer tipo de dúvida ou perspectiva contrária que possa questionar e tornar doloroso aquilo que havia se tornado a resolução mais correta. Dostoiévski é um tanto cego a ponto de não ser capaz de perceber ser o mais esquisito dos esquisitos, não ser capaz de perceber que sua mente hiperativa e complexa se encontra anos luz à frente daqueles que são convictos e nunca sentem remorso ou nunca são acometidos por incertezas. Ele admira os assassinos frios que encontrou durante sua visita a casa dos mortos, mas é incapaz de perceber que não poderá, algum dia, ser como eles, que sua mente inquieta nunca o permitiria estabelecer direcionamentos sem que esses não o incomodem de algum modo.

Sendo dotado de um tipo “esquisito” de pensamento, ele questiona e acaba por destruir qualquer tipo de direcionamento, de ilusão, de religião. Essa característica, por si só, faz com que ele corra riscos, a todo o momento. Isso ocorre em função da capacidade de tais pessoas gerarem um questionamento instantâneo daquilo que era tido como correto e essencial, trazendo, consequentemente, uma dor profunda que, na falta dos ideais anteriores, se tornam desesperadoramente irremediáveis. Esse tipo de gente é odiado tanto quanto o prisioneiro Raskólnikov.

Esse é o destino daqueles que questionam, mesmo que involuntariamente as leis. Talvez eles estejam fadados, para sempre, a desaparecerem violentamente.


Lucas Shiniglia

Sei lá. Sem ter muito o que fazer... eu escrevo. Uma rabiscada aqui, outra ali; às vezes me surpreendo ao ver um texto coerente na minha frente, então — ao invés de colocá-lo em uma pilha de textos anônimos — eu o publico aqui .
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/literatura// @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Lucas Shiniglia