o vácuo

As paradas da vida pós-moderna.

Lucas Shiniglia

Sei lá. Sem ter muito o que fazer... eu escrevo. Uma rabiscada aqui, outra ali; às vezes me surpreendo ao ver um texto coerente na minha frente, então — ao invés de colocá-lo em uma pilha de textos anônimos — eu o publico aqui

Ulysses

“Um dia ouvi uma escolástica qualquer comentar, na opinião dela, sobre o quanto o livro Ulysses de James Joyce retratava a decadência atual, sobre o quanto o personagem Leopold Bloom era um simbolismo máximo dessa decadência. Depois de ouvir aquilo pensei: ‘Será que li o mesmo livro que ela?’”


O livro Ulysses de James Joyce faz uma alusão clara à Odisseia, que tem como personagem principal Ulisses, um rei dotado de qualidades, pertinentes ao seu tempo, que o permitem superar as situações mais adversas e retornar ao lar. Para muito além de uma mera alusão, o livro de James Joyce também toma como referências situações do famoso livro de Homero, estruturando toda uma narrativa, ou a falta dela, em cima dos desdobramentos e das aventuras de Ulisses. Um livro antigo sendo o responsável por fornecer interpretações, informações responsáveis por nos auxiliar a compreender, a julgar situações, tomar decisões e a construir a nossa realidade; esse fato singelo evidencia uma verdade escandalosa e totalmente recorrente, que, no entanto, às vezes não somos capazes de perceber.

Para além da ausência de sentido dos acontecimentos e do quanto alguns livros são extremamente influentes em se tratando de interpretarmos o que acontece conosco, James Joyce deixa claro em sua escrita um questionamento muito intelectual, sendo ele: “O que se passa na cabeça das pessoas, dos animais?”; esse questionamento o fez mergulhar dentro de sua própria mente, fez com que ele identificasse em si próprio uma maneira de pensar extremamente complexa e jamais imaginada, aplicável a todas as pessoas. Sua escrita acompanhou tais descobertas, englobou-as; tal junção peculiar foi batizada como fluxo de consciência.

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É evidente no livro como cada personagem é analisado profundamente, como seus pensamentos são expostos minuciosamente. Como a mente acompanha e é estimulada por acontecimentos e cenários externos. Como nosso intelecto é vasto, rápido e complexo, sendo necessário um esforço descomunal para identificar tudo o que se passa, tudo o que ocorre, e tudo o que imaginamos em um brevíssimo momento de nossas vidas. Como um simples dia, quando analisado pormenorizadamente, em todas as suas nuances e em tudo aquilo que ele estimula em nosso intelecto, pode ser transformado em um livro de mais de mil páginas, mais de 3000, mais de 10000, sei lá. Por fim, e nem um pouco menos importante, o livro é uma adaptação moderna da Odisseia, é uma apresentação pormenorizada do herói moderno, uma reestruturação do Ulisses, pois as qualidades que o transformavam em alguém capaz de superar qualquer coisa já não são mais garantias de sucesso em nossa tão desvalorizada atualidade.

É fato que, quando analisamos algo à distância, tendemos a supervalorizar as qualidades daquilo que é analisado apenas de forma imaginária. De posse de tal característica, tendemos a superestimar as qualidades antigas, assim como suas regras, ideais, etc. Transportando várias características e ideais físicos para o nosso arranjo, cada vez mais intelectual, das coisas, iriamos nos deparar apenas com aptidões obsoletas, que não representariam algum benefício real ou uma verdadeira vantagem. O homem moderno exige habilidades cada vez mais abstratas, exige aptidões cada vez mais intelectuais, para ser, aí sim, considerado um herói, um possuidor de aspectos verdadeiramente úteis e positivamente incomuns.

O Ulisses da Odisseia não carece de qualidades abstratas, muito pelo contrário. Seus aspectos intelectuais o diferenciam e o fazem se destacar ainda mais como herói. Em um primeiro momento Ulisses possui uma vaidade exacerbada, aspecto esse comprovado durante a fuga da ilha dos ciclopes, onde o fugitivo, após a execução de um bem sucedido plano de fuga, não se contém e diz o seu nome em voz alta, para que todos os ciclopes da ilha identificassem aquele os sobrepujou e foi capaz de fugir. Tal anúncio foi o responsável por toda a jornada, a princípio desnecessária, pela qual Ulisses teve de ingressar tendo em vista retornar a casa, retornar ao seu habitat ideal. Durante a jornada ele vence tentações que o afastam de seu ideal e sempre mantém seu caminho, em direção à sua amada, ao seu norte. Por fim, o mesmo dá provas mais do que suficientes de que venceu sua vaidade ao se disfarçar como mendigo para entender o que se passava em seu reino, e testar a fidelidade de seu povo, e para que, posteriormente, de posse das informações obtidas, pudesse retomar o trono.

Mesmo com algumas características intelectuais interessantes, o Ulisses da Odisseia ainda se encontra muito aquém de Leopold Bloom. É certo que Ulisses nunca teve nenhuma dúvida de seu ideal, nunca hesitou perante aquilo que o guiava durante todas as adversidades; nesse caso, resta apenas à nossa imaginação tentar elaborar um cenário onde tudo aquilo que guiava Ulisses simplesmente desaparecesse. Resta-nos apenas imaginar qual seria a consequência de um mundo sem Moby Dick para Ahab, ou um mundo sem Daisy para Gatsby. Por mais que nos esforcemos para imaginar os mais variados desdobramentos em tais cenários, acabamos visualizando algo trágico, sem se tratando da extinção do objeto de uma “monomania”.

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ando algo trágico, sem se tratando da extinção do objeto de uma “monomania”. Entretanto, para Leopold Bloom as coisas repercutem um tanto diferentes. Primeiramente, deparamo-nos com o fato de que esse herói moderno não possui qualquer tipo de ilusão que o guie. Ele enfrenta todas as vicissitudes, todos os maiores desafios e problemas sem qualquer tipo de distração benéfica, ou direcionamento específico e indispensável. Lembro-me de quando uma pessoa com dores foi aconselhada a imaginar o que mais a agradava, para que, com isso, fosse como que transportada para esse cenário agradável em sua imaginação e não mais se importasse com aquilo que a afligia. Em nossas vidas tais atitudes parecem indispensáveis, fazendo com que admiremos aqueles capazes de levarem uma existência saudável sem tais características inatas.

Além de sua capacidade racional de determinar seus objetivos, direcionamentos e a forma como reagirá aos mais variados acontecimentos , aspectos esses que por si próprios são mega heroicos, Leopold Bloom é dotado de uma curiosidade incomum, que o faz tentar entender a realidade sob as mais variadas perspectivas, desde amigos, desconhecidos, até animais, qualidade essa que o povoa de possibilidades e interpretações variadas, permitindo-o ter uma visão particular, idiossincrática, e sem imposições externas, do mundo, de suas sensações, dos acontecimentos, etc.

A vastidão do mundo intelectual de Leopold Bloom o permite controlar sentimentos e impulsos; permite-o analisar acontecimentos sob diferentes perspectivas, o que o ajuda a melhor compreender (de forma mais assertiva) pessoas, atitudes e fenômenos; permite-o se desvencilhar de uma perspectiva egocêntrica, proporcionando interpretações para além da vaidade e da manutenção de um ego inflamado... resumindo, permite-o enxergar o mundo como ele realmente é, e não como queremos que ele seja.

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Todas essas características fazem com que Leopold Bloom seja considerado o nosso Ulisses readaptado, o nosso Ulysses moderno.


Lucas Shiniglia

Sei lá. Sem ter muito o que fazer... eu escrevo. Uma rabiscada aqui, outra ali; às vezes me surpreendo ao ver um texto coerente na minha frente, então — ao invés de colocá-lo em uma pilha de textos anônimos — eu o publico aqui .
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