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Alexandre Ferreira

Servidor das letras, funcionário das palavras... ama escrever, escreve porque ama, vive porque escreve... aquele que respira a poesia das coisas cotidianas e procura diagramá-las em alfabeto.

A Felicidade em Aristóteles

A Felicidade plena é, antes e também, um conceito Filosófico e, aliás, Aristóteles nos ensinou muito bem.


Aristóteles Feliz.png Livremente extraído de https://medium.com/revista-subjetiva/o-dia-em-que-seremos-realmente-felizes-segundo-arist%C3%B3teles-279144a29805

Muitos são os caminhos que levam à felicidade.

Exceto para Aristóteles, Filósofo Grego que viveu entre os anos de 384 e 322 A.C., para quem a Felicidade é o bem último do homem, em referência à sua brilhante obra Ética a Nicômaco (São Paulo, 1973), e por isso mesmo, há que se temer que não encontremos muitos caminhos que nos levem até ela.

Mas, então, o que é exatamente felicidade? De qual felicidade estamos tratando aqui?

É por amor às perguntas que a Filosofia se realiza grandiosa e estupenda, e é por ser um meio e um fim, que as respostas são desimportantes, quase sempre, exceto quando nos inspiram por mais perguntas: tratamos aqui da grandeza humana, daqueles atributos que tornam o homem perfeito enquanto homem, na sua virtude essencial.

Não é da Felicidade vulgar que falamos, mas da radical.

Senão vejamos.

“(...) e se qualquer ação é bem realizada quando está de acordo com a excelência que lhe é própria; se realmente assim é, o bem do homem nos aparece como uma atividade da alma em consonância com a virtude (...)” (Ética a Nicômaco, I 7, 1098 a 15).

aristoteles_a_felicidade_e_o_sentido_e_o_proposito_da_v_ljjvo6d.jpg https://www.pensador.com/frase/MjA5NjA0MA/

Tal é o modelo ético pensado por Aristóteles, como se depreende pela observação do trecho acima, e aqui se fala da atividade da alma sensitiva, esta subordinada à razão, em contraposição à atividade vegetativa, se fala de virtudes éticas.

Tratemos então de pensar essa Felicidade, tal como acima introduzida e tão bem descrita por Aristóteles, como a consagração intelectual do homem no encontro supremo com as suas virtudes éticas, e basicamente, imaginemos que a chave é a ponderação.

Aristóteles temia os extremos.

Efetivamente, tanto a falta quanto o excesso estão intimamente ligados ao processo ilógico desencadeado pelas nossas paixões, o que nos aproxima da irracionalidade e nos afasta das nossas virtudes humanas básicas, que são justamente aquelas relacionadas ao sopesamento, à mensuração, ao deslinde saudável do meio-termo.

O Homem feliz é aquele que impõe os limites da razão à alma sensitiva, que não encontra outro caminho senão o da excelência.

E como são alcançadas as virtudes propostas por Aristóteles e que vão sedimentar o caminho à felicidade?

De pronto, cabe ressaltar que Aristóteles as dividiu em dois grandes grupos, decorrentes de sua teoria a respeito do intelecto.

De um lado, temos as Virtudes Éticas, que são aquelas subordinadas à razão e que decorrem do hábito, do seu exercício. Nessa categoria se encaixam as virtudes básicas do homem, tais como coragem, generosidade, amabilidade, determinação, lealdade, disciplina, integridade, honestidade, alegria, respeito, tolerância, paciência, amizade, otimismo, bondade, perdão, gratidão, humildade, justiça, empatia, compaixão.

O Homem, na busca utópica pelo seu bom hábito de viver, vai travar constantemente as lutas entre os opostos a essas virtudes, procurando fugir do que Aristóteles convencionou chamar de vícios, opostos às virtudes e decorrentes do afastamento moral. É a presença forte dos dualismos filosóficos antes aprimorados em Platão. Assim, de fato, aquele que não consegue ser generoso, certamente será egoísta, aquele que não consegue ser honesto, inevitavelmente será corrupto.

E de outro lado, encontramos as Virtudes Dianoéticas, que são aquelas que decorrem primariamente da razão do homem. Estas são descritas como um adendo à ideia de divisão do Intelecto, como acima mencionado, em prático e teórico, e são duas, especialmente:

A prudência, que consiste na virtude do intelecto prático que traduz a capacidade fundamental de entender com clareza os problemas que nos cercam e de avaliar com destreza intelectual os melhores meios que devam ser usados para se alcançar determinados fins na busca pelas soluções mais viáveis.

E a Sabedoria, que consiste na virtude do intelecto teórico que traduz a capacidade fundamental de entender os princípios que nos norteiam com clareza e de ser capaz de depreender deles as consequências para os nossos atos diante deles. Ambas são felizmente clarificadas na passagem abaixo:

“Por outro lado, a obra de um homem só é perfeita quando está de acordo com a sabedoria prática e com a virtude moral; essa faz com que seja reto o nosso propósito; aquela, com que escolhamos os devidos meios.” (Ética a Nicômaco,VI 12, 1144 a 7-12)

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Deduzimos então por todo o exposto até aqui que a Felicidade em Aristóteles é o estado tal que decorre da elevação intelectual do homem à conquista do ápice das virtudes fundamentais da razão, quais sejam, prudência e sabedoria. Por meio delas, ele vai se assemelhar a Deus, no sentido de que viverá a vida mais elevada possível a um homem, a qual se conflagrará pela conjugação da racionalidade com a plena e inexorável prática de todas as virtudes da ética e na aproximação com a moral inabalável.

Por outro lado, é demasiado relevante atentar para uma importante contraposição à ideia de Felicidade em Aristóteles, enriquecedora, porquanto ela é imaterial: Aristóteles considerou a existência dos bens materiais em sua concepção de mundo, procurando combiná-la com as suas virtudes éticas, no que entendeu que a falta dos bens materiais pode arruinar a busca pela felicidade.

Ou seja, ele não só não condenou a busca por bens materiais como foi, inclusive, além, dizendo que eram, sim, fundamentais para a consagração da existência humana, no sentido em que um homem rico não teria mais facilidade para ser feliz, todavia, um desprovido de todos os bens teria muito mais dificuldade e deveria ser muito mais virtuoso para conseguir alcançar a felicidade do que qualquer outro. E por fim, nessa mesma categoria colocou outros aspectos da vida ética como amigos, saúde e beleza. Isto porque, o prazer para Aristóteles, embora não deva ser considerado como o fim último (este é a Felicidade), deve ser revelado como resultado natural da atividade humana, andando lado a lado com o homem dotado das virtudes que formam seu arcabouço moral, assim como as boas amizades, por exemplo, que ressaltam as suas potencialidades.

Finalmente, não é difícil concluir que a concepção das virtudes éticas, a divisão do intelecto, bem como, a descrição de Felicidade como um fim humano último, amplo e complexo, por Aristóteles, constituem um dos mais adoráveis e perfeitos modelos de existência, capaz de ainda hoje vigorar como ferramenta essencial de base para o estudo da antropologia social e para alguns aspectos da psicologia humana.

A importância desses escritos supera a sua própria estética, no sentido de que transcende a sua época.

Aristóteles vive, não só pela sua Felicidade, mas também por ela.


Alexandre Ferreira

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