oblíqua

a flertar com uma linguagem cigana e dissimulada

Francielly Baliana

um ponto a contar um conto

o que te fez parar?

Escrever é tentativa. E a gente nunca sabe exatamente o que nos faz parar de tentar.


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Eu queria te dizer umas coisas que talvez você não lembra agora. Não importa em que tom, em que medida, com que palavras. Eu só queria te dizer umas coisas, daquelas bobas, daquelas pequenas, ligeiras, que correm na mente ou na infância de todo mundo pelo menos alguma vez na vida. Veja só o quanto você tem trocado letras no teclado. Já faz um tempo que não se vê uma frase útil sair desses seus dedos. Desses seus dedos tortos. Você não se lembra que o "A" fica ali logo ao lado do "S"? Como é que você pôde se esquecer disso depois de umas crônicas tão trabalhosas? Me conta, se quiser, me conta se tiver faltando algumas teclas nesse seu cotidiano. Me diz como é que você faz pra sobreviver sem colocar um pouco de você no que não é outro e nem você mesmo. Me diz como você faz, porque eu quero entender como é que algumas coisas continuam te tocando. Eu quero entender como é que você vive sem o exercício da escrita, sem o erro, a tentativa, sem o texto morto de duas linhas esquecido em um rascunho no celular. Por que é que você deixou de contar o quanto aquele vento do andar de baixo, em meio aos carros parados, te fazia se sentir livre? Por quê? Senta aqui e me diz. Me fala baixinho, se quiser, fala só pra mim. Eu quero saber. Quero saber o que é que te surpreende ainda em si mesma. Eu não aceito um nada como resposta. Eu não sei se você se lembra, mas tem algo na sua orelha que você quer sempre mostrar às pessoas quando as conhece. Talvez você não soubesse que também havia algo nas suas mãos. Te esmiuça em mim, me deixa te ler. Prometo tocar em suas páginas da mesma forma que pego nos livros, com um cuidado, com ternura. Mas vê se me diz. Diz com suas mãos, me pega, pega nos braços, pega com o meio das suas mãos e deixa os dedos fazerem um movimento que você não controla. Deixa eles dançarem uma música que você não conhece, ou que não lembra, pra me contarem esse enredo que te aprisiona. Me fala sem cuidados, sem receios, me fala nua, me fala antes que a janela se abra e você pense em fugir. Me deixa te lembrar dessas histórias, só suas, com seu pai e seus irmãos. Me conta, me diz o que te fazia sorrir, me diz o que te fez solta, me fala, vai, não me deixa ir embora sem conseguir pensar em um texto pra responder a todos aqueles que você deixou de escrever.


Francielly Baliana

um ponto a contar um conto.
Saiba como escrever na obvious.
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