oblíqua

a flertar com uma linguagem cigana e dissimulada

Francielly Baliana

um ponto a contar um conto

uma dose de vinicius e uma outra de baden - no mesmo copo

O poeta Vinicius de Moraes e o violonista Baden Powell foram grandes amigos. E gênios da composição. Mas, se das músicas muita gente já sabe, das histórias, nem todo mundo. Nosso Poetinha e Badinho, juntos, têm muito a contar. Por hoje, só uma pequena dose.


vinicius-e-baden1.jpg Vinicius de Moraes e Baden Powell

A música brasileira tem lá seu jeito de aquecer os nossos dias. O coração desanda quando ritmos como o chorinho, que sai dos dedos de um desses instrumentistas que passam a vida a compor belíssimas canções, consegue contar as mais intrigantes histórias sem dizer uma palavra sequer. Foi trabalhando em cima da vida desses artistas, entre uma nota e outra, que caí nos braços de Baden Powell. E, não por acaso, ali me reencontrei com Vinicius de Moraes. O Vinicius compositor. E amigo íntimo de Baden. Seria estranho que eu estivesse realmente inebriada com o trabalho em conjunto desses dois? Acho que não.

Junto a Vinicius, Baden tem história. Considerado um dos maiores violonistas de todos os tempos e também um dos compositores brasileiros mais expressivos, nem sempre conhecido pelo grande público, Badinho, como era chamado carinhosamente pelo poeta, era um daqueles músicos criadores de estilo, que influenciam toda uma geração que vem depois de seus acordes. Influenciado por mestres como Pixinguinha e Ismael Silva, o choro e o samba eram o quintal preferido desse artista, que morreu no ano 2000, aos 63 anos.

A parceria entre esses dois gênios marcou de forma inesquecível a música, indo até as raízes mais profundas de nossa formação. Desde menino, Baden havia se revelado um instrumentista de técnica apurada e capaz de passar por vários estilos com assombrosa naturalidade. E foi essa técnica que chamou a atenção de Vinicius quando conheceu o músico. Juntos, Badinho e o Poetinha escreveram várias canções, formando parte do que seria o disco “Os Afro-sambas”, lançado em 1966.

Mas, a intimidade construída entre Baden e Vinicius, que morreu em 1980, aos 66 anos, foi além das composições. Ela é cheia de histórias, que se fizeram nas mais variadas noites de conversa, regadas a goles de bebida. São enredos que se construíram em conjunto, em vozes e vezes. E é sobre uma das mais belas e conhecidas canções de Baden e Vinicius que se tem um relato especial, que arranca risos e faz querer ouvir, muito e mais, sobre esses dois grandes nomes da nossa arte.

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“Certo dia, Baden chegou à casa do poetinha trazendo nos dedos uma belíssima melodia que compôs num momento muito inspirado. Era por volta das nove da noite quando o violonista apresentou a melodia, e Vinicius ficou logo muito empolgado com a música que inspiraria mais uma bela poesia:

- Puxa, Badinho, que música linda! Toca de novo!

Baden, também entusiasmado com a empolgação do poeta, tornou a tocar a música. E entraram pela noite tocando e ouvindo-a várias vezes, fazendo uma pausa de vez em quando pra conversar sobre os mais variados assuntos... Isso tudo regado a muito whiskie. A madrugada chegou logo, as garrafas foram se acumulando e Baden foi ficando meio desconfiado de alguma coisa, pois Vinicius estava pedindo pra ele tocar a música desde cedo e não havia mencionado nada sobre a letra. Vinicius tornou a pedir para ele tocar, e Baden, então, perguntou:

- Espera aí Vinicius, tá tudo certo, mas… Cadê a letra? - A letra? Bom, na verdade aconteceu uma coisa, é… Eu não vou fazer essa letra mais, não! - Como assim? Estamos aqui, só nós dois, juntos desde cedo, tocando e bebendo, agora são altas horas e você me diz que não vai fazer a letra! O que houve? - Não foi nada demais. Mas, eu prefiro não dizer, vamos deixar isso pra lá. - Não, Vinicius, agora você vai me dizer o que houve. - Sabe o que é, Badinho? Essa música que você fez é um plágio! - Plágio?! Como assim, Vinicius? - É, Badinho, um plágio. - Não, Vinicius, você tá enganado… - É, Baden, eu tenho certeza. Por isso não vou fazer essa letra. Depois vai sair nos jornais: “A dupla Baden e Vinicius plagiam…” Fica chato, entende? - Mas, Vinicius, essa melodia me veio por inteira, eu fiz de uma vez, não pode ser plágio! - É, sim, Baden, tenho certeza. - Mas plágio de quê, e de quem? - Ora, Baden, isso ai é um prelúdio de Chopin! - Não, Vinicius, você está enganado. Você bebeu demais e está confundindo as bolas. - Não, Baden, você foi quem bebeu demais. Fez uma música de Chopin e tá achando que é sua. - Mas, Vinicius, eu conheço os prelúdios de Chopin, estudei todos. Te garanto que não tem nada de Chopin nessa música! - Eu também conheço, Baden, meu ouvido não falha, isso aí é Chopin com certeza! Quer ver só?! Eu vou acordar minha mulher que é formada em piano e conhece tudo, espera aí… - Não faz isso, Vinicius, tá muito tarde, e a gente tá com um bafo danado… - Tudo bem, ela já tá acostumada.

E lá foi Vinicius chamar sua mulher, que na época era Lucinha Proença. Ela chegou na sala sem saber o que estava acontecendo, mas, vendo a cena, perguntou:

- Oi, Baden, tudo bem? Vocês querem um café? - Não, Lucinha, não vamos misturar… Obrigado.

Vinicius retomou seu lugar e, dirigindo-se a Baden, disse meio ríspido: -Toca!

Baden executou e Vinicius ficou esperando algum comentário da Lucinha, que, em silêncio, não sabia o que dizer diante da visível expectativa do poeta:

- Como é? Você não vai dizer algo? - Como assim? O que você quer que eu diga? - Toca de novo, Baden!

Ao final desse bis, Vinicius novamente perguntou para sua mulher:

- Isso não é Chopin?! - Não. - Como não é Chopin?! - É uma canção romântica, é muito bonita, mas não é Chopin. - Ah, então você também tá contra mim?!

Fez-se um silêncio, confirmando um grande mal entendido da parte do poeta, que, com muita astúcia, concluiu:

- Então Chopin se esqueceu de fazer essa!

Vinicius pegou papel e caneta e escreveu quase que instantaneamente uma belíssima poesia, e a música foi batizada de "Samba em Prelúdio".”

Se é pra falar de grandes, que seja, também, através de pequenas histórias. E que maus sujeitos seriam as histórias se não gostassem de Baden e Vinicius. Pior seríamos nós, se não as cantássemos no tempo e no espaço, fazendo com que permanecessem vivas e em diálogo com as canções - preciosidades que gênios como esses dois de melhor nos deixaram.


Francielly Baliana

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