oblíqua

a flertar com uma linguagem cigana e dissimulada

Francielly Baliana

um ponto a contar um conto

A literatura latino-americana recente e o grito tímido de Junot Díaz

A literatura latino-americana recente refletida na obra do dominicano Junot Díaz. De tirar o fôlego. E de acabar com o tão cansativo american way of life.


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Tem algo de inquietante na literatura latino-americana recente. E quando digo recente, digo século XXI, algo bem próximo das redes que nos intercalam. Não falo de García Márquez e da solidão centenária da família Buendía. Não falo de Cortázar, de Fuentes, de Vargas Llosa, muito embora seus escritos ecoem em nossas estantes empoeiradas. Eu falo de Roberto Bolaño, que me foi apresentado há pouco menos de dois anos. De Junot Díaz, de Pola Oloixarac. Se os anos 1960 tiveram seu boom editorial, levando nomes da América Latina para o mundo todo, embalados pelo discurso político da Revolução Cubana, o século XXI mistura o que restou da literatura de testemunho dos anos 1980 com uma capacidade pós-moderna de fragmentação (e aprofundamento) -quase nunca vista de perto. Bolaño, o chileno, é assim. Com obras pra lá de 800 páginas, instiga o cânone europeu/norte-americano ocidental de Harold Bloom e acirra os nervos de Leyla Perrone-Moisés, que em “Altas Literaturas” não acreditava que se faria mais literatura ~ como antigamente ~. O que os críticos não viram é que Bolaño se envereda pelas ruas do México e traz a universidade, as lutas políticas, a própria crítica literária até nós. A grande pergunta “qual a função da literatura?” já não cabe aqui. A literatura, a não essencialista, a não formatada literatura é que ganha espaço. E, assim, pode falar do mundo. E de si. Bolaño navega por esses mares em 2666 e Detetives Selvagens.

Mas, quero falar aqui de uma outra experiência, dessas inesperadas fragmentações profundas, que nos despedaçam com dilemas próprios e nos refazem, se é que se pode assim dizer. Pulitzer de Ficção em 2008, A Fantástica Vida Breve de Oscar Wao, escrito por Junot Díaz, é um livro assim, que nos envolve pela dinamicidade dos meios: fala de literatura, de cinema, de quadrinhos. E despedaça uma história extremamente profunda. É, mesmo, inquietante. O autor nasceu na República Dominicana, mas viveu boa parte da vida em Nova York. Díaz faz um resgate da vida entrecruzada e fronteiriça de Oscar, um rapaz nascido nos Estados Unidos, mas filho de uma imigrante da República Dominicana, dona Belícia Cabral. Uma proposta ousada de escrita, que traz para a ficção um tanto mais que aquela noção de romance histórico crítico proposto Lukács. Traz a vida, fragmentada e pós-moderna, em mergulhos de História.

Junot Díaz nos apresenta uma República Dominicana assolada pela ditadura de Rafael Trujillo. O homem ficou no poder entre 1930 e 1961. Haja fôlego para resistir à repressão dessa quase teocracia. O fato é que Oscar, um jovem dos anos 1990, não viveu a era do trujillato, mas sua mãe e sua avó, sim. Eram resquícios de uma Santo Domingo, a capital do quase império, assolada pelo poder “sobrenatural” de El Jefe. A “diáspora” para os Estados Unidos foi uma solução para muita gente naquele tempo, e a mãe de Oscar se incluiu nisso. É o filho, no entanto, que parece não encontrar seu lugar no mundo. Negro, prole de imigrantes latinos, gordo e nerd. Desde cedo se sentiu distanciado da padronização norte-americana do homem de sucesso. Seria um fracasso. Estava ordenado. Na República Dominicana, acreditava-se (e talvez ainda se acredite), que os navios negreiros em tempos de colonização traziam uma espécie de maldição para as terras de cá, o chamado fukú. Tudo o que dava errado tinha resposta no tal fukú. O autor traz esse elemento mítico como uma justificativa de fracasso quase que predestinada à Oscar: o fukú o fizera assim. Por mais que tentasse mudar, não teria jeito.

A grande sacada, aqui, parece ser o contraposto praticamente sutil (ou não) em relação ao Destino Manifesto norte-americano. Os missionários protestantes trouxeram bênçãos. No restante da América, caberia aos EUA o trabalho de cuidado e proteção, porque os negros “de lá” carregavam maldição. Coincidência ou não, é esse mesmo Destino que traz para o século XX o tão grandioso sonho americano, o american way of life, que Oscar nunca teve a chance de desfrutar. Se não teve mérito? Ô, se teve. Mas meritocracia é um outro assunto. O rapaz estudava, escrevia o dia todo. Era isso sua rotina, junto a tardes assistindo a filmes de ficção científica. Star Wars era a saga de sua vida, não fosse a enorme distância entre sua casa, nos subúrbios de Nova York, um bairro de imigrantes, e o mundo de George Lucas. Histórias à parte, Oscar é resultado de uma ditadura violenta, de uma família em diáspora, de uma genética desfavorável, e realmente não encontrava razões em si para ter uma vida socialmente feliz. É olhado com nojo pelas ruas. Na escola, tem mínimos amigos. A faculdade, que pareceria lhe abrir espaço, só o isolou ainda mais. O grande teste que o livro faz conosco é: você se viu pensando que em algum momento Oscar emagreceria, se daria bem sexualmente, seria menos vítima da timidez? Sim. Diversas vezes. É a narrativa romântica tomando conta de nossas intenções. O final feliz. Os personagens-padrão, que passam por nós e despercebidamente nos fazem andar como robôs instigados a seguir os mesmos passos de sempre. Junot Díaz não. Traz uma história viva, um dilema de milhares de jovens que não se enquadram em certos grupos, em desajustados que se sentem incapazes de outros roteiros. Que se jogam em frente ao metrô. Que cortam os pulsos. Díaz fala de imigração, das dificuldades que há em estar distante do que se chama de lar. Não por necessariamente querer, mas por buscar exílio diante de uma realidade austera. Junot Díaz, se fala de si, fala de muitas e muitos. Traz o discurso doloroso da mãe, que endureceu o coração ao longo dos anos, da irmã de Oscar, Lola, a menina que era mais do mundo e de novos lugares do que de si mesma, fala de literatura, de política e de História em gigantes notas de rodapé, que mais ensinam que afastam. Junot fala de uma América Latina que, de uma ditadura colonial, se encaminhou para uma outra cultural e econômica norte-americana. Que tem linguagem própria a ser usada, como ele mesmo usa, mas que insiste em dar ao estrangeiro o espaço para a narração.

A literatura recente, com Junot Díaz, mais que histórica, fica dialética, e próxima. Não pinta, mas faz uma foto dizendo que, para além de falar sobre a América Latina, é preciso pensar seus desencaixes, seus discursos fora da reta, seus espasmos de loucura, como vemos em Oscar, uma mensagem que só não visualizaremos ahora se estivermos ocupados demais para ler. Como quase sempre acontece.


Francielly Baliana

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