oblíqua

a flertar com uma linguagem cigana e dissimulada

Francielly Baliana

um ponto a contar um conto

O que não se vê em La La Land

A resistência, mesmo que mínima, dentro do Oscar.


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Eu ainda insisto no Oscar. Tem alguma coisa ali que me confunde, mas tem também alguma coisa que me toca profundamente. Se a gente fala de crítica ou de cânone em literatura, fala da história do gosto. De espaços, de concessões. De hegemonias. No cinema, não vejo tantas diferenças. Portanto, falo aqui sobre a história do gosto, talvez do meu próprio, e sobre o permitido discurso hollywoodiano em nossas entranhas. "La La Land", pra mim, resume bem isso. É o lugar em que os grandes bolsos do cinema continuam tendo o mesmo espaço de sempre. É metalinguagem. Cinema caro, musicado, falando de si. Bonito, sim. Demais. Mas se me disser surpreendente: não poderia concordar. Hollywood, assim como qualquer hegemonia, dá espaços pra falar do que também não dá certo. É um tipo de equilíbrio, penso. "La La Land" trata dos amores que não são. O que, diga-se de passagem, não é nada incomum em nossas humildes vidas. Não me surpreendeu tanto. Nos vimos ali. Mas, será que nos vimos mesmo? Não há um negro protagonista quando se trata de jazz. O filme é uma homenagem ao cinema e ao jazz. E, gente, cadê negros atuando? É sobre superação, sim. Se superar e mostrar que carrega arte. Mas morando em casas maravilhosas em Los Angeles, andando de carro, vivendo a vida de ninguém. Meio surreal pra mim. (Minha) história do gosto, minha gente. Ocês me desculpem. É uma obra boa, mas não sinto que mereça o Oscar de melhor filme do ano, ou de melhores atuações.

Acho difícil comparar gêneros tão distintos, mas vocês viram a Viola Davis em "Fences", que também está concorrendo ao Oscar? Quando aquela mulher chora, gente, meu chão treme. É sério. É Hollywood também. Todos são. Não é esta a questão, necessariamente. (Estamos falando de Oscar!) Mas se for pra insistir em Estados Unidos, em histórias contadas pelos vencedores, eu não consigo deixar de pensar nas resistências a essas mesmas histórias. Naquelas que ainda foram pouco ou nunca contadas. Como em "Hidden Figures", que traz fatos reais de três mulheres negras que romperam os padrões da NASA e contribuíram para a ida ao espaço. É Guerra Fria, os direitos civis não estavam consolidados, as mulheres ainda tinham um mínimo espaço fora de casa. Clichê, sim? Mas resistência, também. Prefiro essas histórias. O que, falar, então, de "Moonlight". A coisa mais sensível envolvendo raça e orientação sexual nos últimos tempos. Maravilhoso.

"A chegada", no seu tempo, na sua vez, mexeu demais comigo. É realmente pessoal. Mistura ficção científica com linguagem. Mostra o mundo cheio de suas mais tangíveis divergências. E as transformações linguísticas, que se mostram mais culturais, mudando a própria concepção de si e do tempo. Achei maravilhoso. Talvez não se aprofunde tanto nos reais problemas linguísticos. Mas, vá lá, mais uma vez é Hollywood. Dentro dos padrões, há rupturas, sim. Diferente de "La La Land". É isso que penso por agora. "Manchester by the sea" e "Hell or High Water" mexeram comigo de alguma forma. Dramas que me fizeram pensar o desencaixe diante de situações de frustração, de perdas, e de possibilidades (não) éticas ante a um sistema econômico financeiro usurpador. Nada disso vi em "La La Land". Me desculpem, mas quando se trata de reproduzir mais uma vez a lógica que sempre se vê, prefiro a, mesmo que mínima, ruptura. É por isso que persisto vendo os filmes argentinos. Falando nisso: vejam "Las Acacias". A foto acima é de uma cena do filme.


Francielly Baliana

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