obra das palavras

Refletindo Cultura, Arte e o Comportamento

Dante Donatelli

Dante Donatelli - "Escolher modos de não agir foi sempre a atenção e o escrúpulo da minha vida" Bernardo Soares, citado por José Saramago em meio a reflexão sobre a poética de Fernando Pessoa.

Saber Morrer

A morte é o tormento de nossa existência, dentre tantas possibilidades de entendimento para a nossa finitude, foi em uma das obras de José Saramago, O Ano da Morte de Ricardo Reis, que temos uma das mais belas reflexões sobre a morte, especialmente sensível, generosamente indolente com a dor.


As religiões foram criadas pelos homens para atender duas questões elementares da nossa humanidade, explicar, ou tentar explicar, a nossa realidade, no passado, para responder por que chove ou a terra treme, e no presente, se confrontando com a ciência para desvendar os mistérios do universo; e uma segunda razão, essa mais pessoal e metafísica, por que temos que morrer e o que há, se há, algo além da morte. As religiões e deus, ou os deuses, sempre foram um grande consolo para as nossas dúvidas, no que tange a segunda demanda, as religiões ainda continuam pontuando a vida da maioria das pessoas, quanto a primeira, desde o Iluminismo e o Esclarecimento as religiões vêm perdendo força neste campo.

Saber morrer e por que se morre é a angústia primária que todas as cinco grandes religiões do mundo buscam responder: judaísmo, cristianismo, islamismo, hinduísmo e budismo e cada uma a sua maneira oferece uma alternativa aos seus crentes. Em alguns casos hoje, esta perspectiva revelada pelos sábios sacerdotes e os textos sagrados destas religiões acabam sendo motores propulsores da barbárie, explico, todos os malucos terroristas islâmicos, sejam eles de que vertente for, acreditam que ao se oferecer em sacrifício em atentados estarão se predispondo para o paraíso, e nele encontraram dezenas de virgens e fartura de toda sorte por toda eternidade. Cada louco crê no que deseja, mas que estes homens bomba acreditam nisso piamente, assim como nós, do lado de cá, cremos na lei da gravidade, isto é fato e tem custado a vida de milhares de inocentes mundo a fora nos últimos quarenta anos. Para os ateus que não tem um deus para respaldar esta demanda metafísica, há a certeza de que do pó viemos e a ele retornaremos, e é em um destes grandes ateus, por sinal já falecido, José Saramago, que encontrei a melhor, a mais digna e bela descrição do que seja a morte para nós, e este é um convite a leitura de Saramago e sua proposição acerca da morte.

Em O Ano da Morte de Ricardo Reis de 1984, Saramago oferece uma chance ao heterônimo de Fernando Pessoa que retorne do seu exílio voluntário no Brasil e possa voltar a sua amada Lisboa, pois sim, Pessoa morrera e deixará Ricardo Reis ao relento do abandono sem eira e nem beira, e como é sabido, ao menos pelos portugueses, todo e qualquer imigrante ou exilado que deixou a Terrinha, tem por último desejo findar seus dias ou ser enterrado na sua pátria, na sua aldeia. Em Paris nos anos 1990 havia uma rádio de língua portuguesa na cidade, na qual o grande patrocinador era uma funerária que tinha como mote publicitário uma oferta imperdível, levar todo e qualquer português de volta a sua terra após a morte, se tivesse o desafortunado o ocaso de morrer em solo franco. Tomado de grande curiosidade fui a funerária e conheci seus donos, e em uma conversa rápida descobri que a demanda era enorme, muitas famílias os procuravam para levar os seus entes queridos de volta para casa quando do fim, era essa a última vontade da maioria dos portugueses que vivam no entorno de Paris. A funerária era um sucesso. Ironia do destino, Saramago morreu em seu autoexílio em terras espanholas, e por lá ficou, para desgosto de muitos portugueses. Voltemos a obra de Saramago, este ateu de convicções inabaláveis, tomado de uma generosidade ímpar, ofereceu a Ricardo Reis uma possibilidade efetiva de morrer como todo português deseja, em sua terra, ao lado dos seus ouvindo a sonoridade sutil de palavras que no português parecem ter significado próprio e único, sodade, fado, enfado, és, naus ora pois, quantas palavras que somente em português, e em Portugal, soavam como felicidade, afinal é bom não esquecermos, era ele um poeta, e dos maiores a escrever nesta língua. Ricardo Reis não era feliz, não era crente e nem sequer sabia amar, sua Lídia que o diga o quão controverso e enviesado era seu amor, mas Saramago oferta a ele, e a nós leitores, a chance de saber como se morre, não necessariamente por que, mas como.

E para saber morrer é preciso antes especular sobre a sua cidade, revisitar os pequenos becos, as ruas escuras, as praças suntuosas e até os palácios como quem responde a necessidade imperiosa de acalentar a memória afetiva de um alfacinha convicto, Saramago, insere Ricardo Reis no corpo da cidade e por Portugal, nas entranhas do salazarismo repressor e tacanho, evidências estas que parecem fazer parte dos sintomas da “doença” que irá matar Ricardo Reis. Mas a vida não é perfeita, Saramago enche seu livro de ironias e dá loas ao mundo mesquinho criado pelo fascismo português e europeu dos anos 1930 e 1940, zomba da realidade e da pregação para uma vida cristã e reta, dos valores fascistas que impregnam a vida portuguesa e vai, das pequenas as grandes coisas da vida cotidiana para revelar que não seria possível ao poeta, o grande poeta, como Fernando Pessoa apresentara os Odes de Ricardo Reis, estabelecer uma existência minimamente alegre em uma sociedade tão hipócrita, que cultuava no amor cristã: a pátria, Salazar, a Virgem e o Cristo Salvador, na mesma proporção exata em que cultivava o ódio mórbido, doentio e feroz contra tudo que não lhe fosse semelhante e igual, a mais insignificante centelha de diversidade, a menor das diferenças se combatia com um rancor amoroso que somente sujeitos fascistas e sociedades fascistas, sabem distribuir e professar. Sorte a nossa, contemporâneos, não sabermos do que é feito este ódio amoroso que deseja subjugar toda diferença e castigar os que insistem em ver o mundo de outro jeito que não o seu, como somos felizes em não precisarmos viver isto.

Lisboa2.jpg Rua da Alfama, Lisboa (2012) Foto do Autor

Vai dizer o leitor desavisado que Ricardo Reis era apenas um zumbi alienado da vida assim como Fernando Pessoa o fora, puro equívoco, ele é dos mais reais personagens, dos mais vivos que se poderia encontrar em nossa literatura, tão existente que como poucos soube morrer, o nosso grande Machado de Assis, já havia ensinado como se dá o obituário de um ser genioso mas não poético como Brás Cubas, Machado, e aqui me perdoem os crentes, era um cristão a sua maneira, mas o era, Saramago era só um ateu sem boas maneiras para ensinar ou mostrar, e por esta razão nos mostrou como se deve morrer.

Como não há inferno, e nem muito menos paraíso a ser conquistado, só a nós mesmos para sermos conhecidos, o poeta alienado de tudo e de todos, tendo como única subserviência as palavras com a qual lutou a vida inteira para delas se fazerem infernos e paraísos terrestres, pecados e pecadilhos compartilhados ou solitários, se deixou sumir em um momento de pura revelação natural e social, caminhando por ruas e lugares sempre dantes caminhados e conhecidos acorreu ao Tejo e só, sumiu, calando o léxico, não tinha mais palavras para exprimir sua existência terrena, apenas se fez desaparecer, efêmero como tudo que nos cerca, é preciso que um ateu nos lembre de como tudo, absolutamente tudo, e neste tudo estão os homens e suas ricas coisas, são finitos e findam como fim. Ricardo Reis se foi, como todos iremos, tranquilo e sereno para lugar nenhum, lugar para onde todos iremos. Saramago cobriu morte de Ricardo Reis de uma paz gigantesca, digna daqueles que algum dia se sentaram à beira do Tejo e se deixou levar por pensamentos, por sentimentos e mais sentimentos de humanidade de querer de bem-querer, uma paz sublime não exigente que nos leva na direção do fim. É impossível ler esta obra e não trazer a memória o nosso legado cultural, latino e cristão no qual envolvemos a morte sempre em dor, reminiscências de pecados e erros, a busca pelo perdão ou mesmo o acerto das últimas contas com aqueles que amamos ou não, e no fundo, por vezes na superfície, a angústia comum de não saber morrer, o que virá, o que será no qual, suponho, afinal eu ainda vivo, afasta a paz fundamental para se deixar tudo acabar, um ateu, acima deste legado fez pairar sobre a morte uma sabedoria alentadora e reconfortante, ao menos para aqueles que não acreditam.

Tejo de Ricardo Reis.jpg

Margens do Rio Tejo, Foto do Autor (2012)


Dante Donatelli

Dante Donatelli - "Escolher modos de não agir foi sempre a atenção e o escrúpulo da minha vida" Bernardo Soares, citado por José Saramago em meio a reflexão sobre a poética de Fernando Pessoa..
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