obra das palavras

Refletindo Cultura, Arte e o Comportamento

Dante Donatelli

Dante Donatelli - "Escolher modos de não agir foi sempre a atenção e o escrúpulo da minha vida" Bernardo Soares, citado por José Saramago em meio a reflexão sobre a poética de Fernando Pessoa.

Vivendo no Feio

O que é a cidade de São Paulo? Um aglomerado feio e desforme que junta as pessoas mas não estimula nada de prazeroso esteticamente quando se ocupa as suas ruas ou se pretende contemplar sua arquitetura, a mim não é uma cidade, é um punhado de obras, ruas, avenidas e tudo o mais reunidos para fazer crer que moramos em uma cidade, mas na verdade, habitamos o terrível reino do feio.


Desde sempre quando se começou a pensar a cidade portuguesa na América, com alguma crítica e profundidade, penso aqui em Buarque de Holanda e seu texto clássico sobre o Ladrihador, me atenho a reflexão sobre as cidades inventadas pelos portugueses, em especial no Brasil.

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Diferente dos outros ibéricos, os espanhóis, os portugueses acreditavam na criação de espaços urbanos no qual o sujeito era absolutamente entendido como um detalhe, e até hoje isto parece uma máxima das cidades brasileiras, culminando com Brasília, um lugar para ser visto e visitado, mas não para viver, ao menos para mim. Penso aqui em duas cidades em que vivi e vivo, Lisboa e São Paulo, ambas com a marca indelével do conceito de urbanidade portuguesa, ambas com uma topografia ingrata, mas com um diferença cabal, Lisboa teve a chance, mesmo que trágica de ser reconstruída após o terremoto do século XVIII pelo gênio do Marques de Pombal, São Paulo, nem esta chance teve, foi sendo retalhada pelos devaneios da ignorância urbanística de seus governantes. Um olhar, que não precisa ser atendo por São Paulo, revela uma cidade com uma particularidade típica de sociedades profundamente preconceituosas e segregadoras, os pobres se confinaram nas extremidades da cidade, em locais marcados pela feiura extrema e a falta de infra estrutura, acompanhada de uma crônica falta de serviços e da ausência do poder público. Lisboa ao menos trata melhor os seus pobres, o charme da Alfama e mesmo a novidade que é Madredeus, o velho e o novo na capital de Portugal convivem bem e reservam aos pobres uma chance de viver com mais dignidade e serviços do que a capital paulista.

Vou me ater a São Paulo porque Lisboa tem uma qualidade que aqui não temos, um charme, uma graça e um rio caudaloso que faz da vida algo prazeroso, nos anos que lá morei posso dizer que a uma finura estética na cidade, um ar com odores perfumados que preenche os vazios e ajudam compor o olhar com um desejo de permanência constante, exatamente o inverso de tudo que se sente quando se conhece e vive em São Paulo, pois se não fosse a minha memória afetiva com a cidade creio ser difícil poder até escrever sobre ela com alguma condescendência.

A cidade em que hoje vivo é cronicamente viciada na feiura, e o faz com requintes de crueldade estética, pra já sufocamos todos os rios pequenos e grandes da cidade os transformando em linhas auxiliares da rede de esgoto, perturbamos a vida cotidiana com um paisagismo digno de uma garatuja infantil, árvores desproporcionais e canteiros sem flores, em calçadas feitas para não se caminhar, desiguais, irregulares e sujas. Porém, o pior é olhar para cima, a falta de criatividade dos nossos arquitetos é algo escandaloso, no começo do século XX os ricos construíam casas e o poder público seus templos com um ecletismo tão enviesado de beleza que é difícil se pensar que aqui se refletia alguma coisa original, fazíamos cópia de tudo que havia na Europa mesclando o horrível com o muito feio, que o digam os nossos modernistas da década de 1920.

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Hoje não é diferente, dos edifícios residenciais aos comerciais tudo parece um tentativa tosca de copiar modelos, há uma repetição enfadonha de linhas e cores, ou a ausência delas, assim como o plano urbano raramente tem quarteirões demarcados, sim em São Paulo raro o bairro que tem um quarteirão, ou a topografia é explorada em prol da beleza, os seus edifícios são uma confusa profusão de desalinhos que entrincheiram o cidadão em um não olhar para sua cidade, queremos ser hora Miami, hora Nova Iorque, hora Dacca, hora Nova Deli.

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Dois dos maiores urbanistas da história Camilo Site e G. C. Argan eram enfáticos em afirmar que deveríamos construir cidades para os homens e mulheres que nelas vivem, para que pudessem usufruir caminhando, olhando e tendo momentos de prazer no simples fato de ir e vir de sua casa para seja onde for que se deslocassem, a cidade precisa ter um fruição, um alento prazeroso conduzindo seus habitantes na direção do simples prazer estético de ver e sentir. Não fomos capazes de fazer isto em São Paulo, e que me perdoe o grande Buarque de Holanda, isto não é culpa dos portugueses, é nossa mesma, dos brasileiros que insistem em viver em lugares feios e sem nenhuma preocupação com os cidadãos, o senso comum fala na cidade dos carros ou na cidade nova para as bicicletas, eu, penso na cidade para os olhos e as necessidades de todos, pois não consigo imaginar felicidade em meio ao desalinho e a feiura.


Dante Donatelli

Dante Donatelli - "Escolher modos de não agir foi sempre a atenção e o escrúpulo da minha vida" Bernardo Soares, citado por José Saramago em meio a reflexão sobre a poética de Fernando Pessoa..
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