obra das palavras

Refletindo Cultura, Arte e o Comportamento

Dante Donatelli

Dante Donatelli - "Escolher modos de não agir foi sempre a atenção e o escrúpulo da minha vida" Bernardo Soares, citado por José Saramago em meio a reflexão sobre a poética de Fernando Pessoa.

A FAMÍLIA ACABOU

A Família acabou no seu modelo tradicional, outras possibilidade de família se colocam em nossa sociedade, e o único argumento verdadeiro em defesa destas novas formas familiares é o amor que une os seres humanos, recuso a discussão sobre a moralidade, o amor é o centro da novidade, e os conservadores não podem fazer nada para deter este amor que não está na definição de gênero, mas sim, nos corações e mentes de homens e mulheres.


A família como concebemos historicamente, e mais especialmente no mundo burguês, acabou na sua forma clássica, um homem, uma mulher e sua prole. E o mundo está repleto de teóricos ocidentais a atestar tal realidade. A mudança aqui não é algo como ação rápida na qual de uma geração para outra e, em um intervalo de vinte cinco anos se veja tudo mudar. A questão é um tanto mais complexa e lenta, como a maioria das transformações em nossa sociedade, mas são irreversíveis.

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Os conservadores, e não são poucos eles, afirmam que a família é obra de Deus, e não pode mudar, nunca jamais em tempo algum, para quem acredita na tese pode ser verdade, para a maioria que se move na direção das mudanças, a família é uma obra histórica, social, econômica e antropológica e muda no correr da história.

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O que acabou, e gostaria de ser desmentido pelos mais arraigados aos costumes, é a combinação entre desenvolvimento científico e aceitação das novas formas de amor e encontros humanos permitindo hoje uma série de novas possibilidades de agrupamento familiar, diferentes daquela una e indivisível acreditada pelos conservadores.

Se hoje podemos conceber a vida em diferentes formas, do laboratório a uma barriga de aluguel na Índia, e podemos manipular o genoma humano, dentro de princípios éticos razoáveis, as listas de possibilidades de concepção familiar são também variadas se pensarmos que para haver família é preciso a presença de descendentes.

Dois homens, duas mulheres, um homem só, uma mulher só. Todos estes agrupamentos ou não, são capazes de formar núcleos familiares no qual vínculos de parentesco e a ideia de maternidade e paternidade podem e devem ser refeitas, e assim acontece todos dos dias na maioria das sociedades ocidentais.

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A passos largos nossa civilização está pondo fim a ideia de família como até então se concebia, e este é processo sem volta, nada pode impedir que amores homo-afetivos ou lésbio-afetivos aconteçam, a última barreira não está na aceitação por parte dos conservadores, mas sim, na legitimação legal de um fato real. A questão não é gostar ou não, concordar ou não, isto é um fato dado pela realidade, casais homo ou sujeitos sós já constituem, a despeito de todos os senões legais e sociais, famílias e vivem, felizes ou não, para contrariedade dos conservadores assim como todo e qualquer família, envolta em contradições, problemas, amores e sonhos.

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O argumento histórico que melhor cabe neste momento é lembrar o quão diferente era a vida das mulheres no correr dos últimos séculos e mais particularmente após a revolução industrial. Do divórcio ao uso da pílula anticoncepcional passando pela liberdade do fazer amor quando bem entendesse, tudo isso hoje é fato corriqueiro, banal, quase sem importância para a maioria das pessoas e das mulheres em especial.

Ninguém, nem mesmo os conservadores que desejam nos mandar para Cuba, são capazes de colocar em pauta o problema da mulher que estuda e trabalha, ou o controle da natalidade por responsabilidade do casal, ou se a vida sexual ativa antes do casamento deve ser um privilégio exclusivamente masculino. São estas, e outras questões superadas, e advieram não de movimentos desejosos de acabar com a família, como diziam os conservadores dos anos 1950 e 1960, era apenas a sociedade humana se movendo.

Evidente que não temos ilusões quanto as resistências a serem enfrentadas, em especial no Brasil, no qual para referendar o nosso anacronismo a discussão sobre o aborto legal, sim porque todos os dias centenas ou milhares de mulheres são condenadas, está é a palavra correta, condenadas a clandestinidade absurda das clínicas que exploram seu desespero. Incrivelmente nossa sociedade discute melhor as diferentes manifestações de amor e encontro, do que a permanência ou não de uma gravidez.

Para além do mérito já passou da hora, do dia, do mês e dos anos para que tal debate venha à baila, não é possível tamanha indiferença e hipocrisia, como se não houvesse a ocorrência de um único aborto entre nós. A omissão é grave e só se mantém entre nós porque simplesmente se fez do aborto um crime e não um ato humano doloroso. Homossexuais, lésbicas e outras manifestações da sexualidade, se fazem mais presentes por não serem tratados como crime, como no passado.

A nossa história ocidental, burguesa, capitalista e laica aponta para o fim do monopólio heterossexual da família, o monopólio definha aos poucos, quanto tempo mais teremos de esperar para que tudo isso se torne banal e corriqueiro em nossas vidas? Não sei, mas acredito que meus netos viverão em uma sociedade mais aberta e menos preconceituosa que a nossa, assim como terei descendentes que poderão e serão homo-afetivos. A família de um homem e uma mulher acabou e Deus não tem nada a fazer a respeito, nada, queiram ou não os menos tolerantes da sociedade serão obrigados a viver cada vez mais em meio a uma diversidade assombrosa aos seus olhos, gostem ou não. Deus quando muito deve estar preocupado com as questões metafísicas da existência, quanto a família ele pouco pode fazer.

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Os crédulos se indignarão com as estas palavras, mas no fundo de toda a discussão sobre outras formas de organização familiar se coloca algo simples, corriqueiro e fundador, o amor. O que todos que não são “iguais” pretendem é apenas ter o direito de amar, sim, amar alguém, dividir a vida com este alguém e constituir uma prole para refletir concretamente este amor com descendentes ou não, é simples assim. Não é uma questão moral ou de virtude, o que pretendem homo, lésbicas, trans e incrível, os heterossexuais, é a mesma coisa, poder amar e ser amado por alguém. Questões morais cabem para discutir a coisa pública, a gestão do trabalho, o mundo político, mas não cabem para mediar e mediatizar o amor entre dois seres humanos, o que dois consentem acordado é, e acordado está. Um dos ganhos da nossa civilização foi dar a vida privada, e ao amor, a liberdade que cada par de seres deseja ter, sem qualquer necessidade de carregar culpa pelo que faz. Em meio a debates cheios de ódios e ameaças de ira divina ou só raiva humana mesmo, proporia aos defensores dos direitos homo, um debate sobre as formas de amar, ao invés de capítulos legais para ofertar parâmetros do que é família, um debate honesto sobre o como se ama, e neste quesito não há espaço para sofistas ou pseudos profetas do caos, o amor é uma benção que nos humaniza e realiza, e por incrível que pareça, ele não tem sexo definido, local de moradia ou atestado de antecedentes. Nós humanos apenas amamos e somos amados.

Em meio a derrocada da família tradicional, colocamos em seu lugar uma nova forma de dizer, eu te amo, fácil assim.

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Dante Donatelli

Dante Donatelli - "Escolher modos de não agir foi sempre a atenção e o escrúpulo da minha vida" Bernardo Soares, citado por José Saramago em meio a reflexão sobre a poética de Fernando Pessoa..
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