obra das palavras

Refletindo Cultura, Arte e o Comportamento

Dante Donatelli

Dante Donatelli - "Escolher modos de não agir foi sempre a atenção e o escrúpulo da minha vida" Bernardo Soares, citado por José Saramago em meio a reflexão sobre a poética de Fernando Pessoa.

A violência que está em nós

Somos uma sociedade violenta, muito violenta e as raízes estão em nossa formação e história. Creio que é preciso instalar uma cultura paz entre nós para que possamos superar esta condição que nos faz ser uma sociedade em estado pré-civilizatório, afinal nas últimas duas décadas matamos em média 50 mil pseudo cidadãos por ano.


Somos uma nação e uma sociedade violenta, não, violentíssima para ser mais exato. O estereótipo de somos historicamente um povo nascido e criados em um berço de esplendor na qual a índole brasileira se formou pela miscigenação adorável e amável na qual as raças aqui se encontraram é uma falácia dolorosa desmentida todos os dias no cotidiano pelos atos de barbárie que assolam a nossa sociedade.

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Os ideólogos que inventaram este país no correr do século passado, associado às sucessivas ditaduras manipuladoras da nossa história fizeram crer a nós, e ao mundo, que éramos uma nação de harmonia, permeada de brancos, negros, mulatos, cafuzos e mestiços de toda ordem, expressão máxima da nossa índole generosa e acolhedora.

Somos uma nação forjada na mais indigna das condições, a escravidão, o branco estuprou, coagiu e degradou a negra a índia e todo tipo de fêmea disponível para o seu bel prazer. Por quase quatrocentos anos a escravidão dominou a nossa vida cotidiana, comprar e vender gente era fato corriqueiro, impor sofrimento físico e humilhações públicas prática das mais bem aceitas para colocar todos no seu devido lugar na sociedade.

Os pouco mais de cento e vinte anos de republicanismo não nos fizeram cidadãos, pelo contrário, o estado tutelou a vida dos pobres e impôs sem qualquer constrangimento, os meios e mecanismos para controlar homens e mulheres. A república se fez ditadura ou simplesmente uma autocracia como na república velha, a democracia, única oportunidade efetiva de ver todos inclusos na sociedade é tão nova que uma parte da elite hoje se recente, desta tal democracia, e quer a volta da ditadura, para debelar pela força a barbárie que eles mesmos são fiadores.

Os séculos de autoritarismo, violência institucional e pobreza associada a uma segregação constante de parte da população nos deixou no mesmo lugar de onde nunca saímos, a de um lugar violento no qual as relações sociais são pautadas pela força, e ou pela agressividade pura e simples.

A vida humana vale centavos, o calão e xingamento são normas e falta de qualquer compostura na vida pública um fato, nos agredimos e somos cúmplices de violências diárias e estamos cada vez mais cínicos e indiferente a ela, vez por outra quando um branco morre se faz alarido, mas é passageiro, todos os dias dezenas de pessoas perdem a vida por nada ou quase nada já que as relações sociais se pautam pela força e não pelo diálogo e as trocas entre iguais.

A força da violência que nos forma é tão presente que as instituições públicas se organizam por ela para medir sua eficácia, a polícia é temida e usa corriqueiramente da violência como meio e forma de intervenção social, seja com professores, seja nas periferias ou nos morros, bater, atirar, imolar ou simplesmente fazer sumir é parte do fazer institucional.

Em um processo perverso e cruel, há uma retroalimentação da violência no corpo da sociedade e de suas instituições uma justifica e legitima a outra, e parece haver um cego consenso ao tratar sempre a questão pelas suas bordas e não pelo que de fato é. Não temos um caráter gentil e generoso, somos uma sociedade forjada na violência e na força e assim continuamos respeitando o nosso legado antropológico e histórico.

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É possível pacificar a nossa sociedade, para isso é preciso investir em uma cultura de paz, de tolerância e entendimento. Cultura de paz se cultua e cultiva por gerações desde o banco escolar, e vai da simples troca de gentileza em um vagão de trem, ao se dar bom dia, dizer obrigado, pedir licença, saber se desculpar. Os antigos chamavam a isto de educação. Da mesma forma que não se pode conceber uma polícia que seja militar, é preciso ser só polícia, militares foram feitos para guerra, por definição, polícia foi feita para prevenção.

Acredito que seja possível a sociedade brasileira sair desta condição pré-civilizatória na qual a força, e a indiferença que lhe segue, pauta nossa vida diária, não deixaremos de ser o que somos, mas é possível melhorar e muito, e efetivamente não será distribuindo armas as pessoas, condenando adolescentes ou investindo na pena de morte que faremos tal passagem civilizadora, transformar as instituições, educar as pessoas e dividir riqueza seria um bom começo.


Dante Donatelli

Dante Donatelli - "Escolher modos de não agir foi sempre a atenção e o escrúpulo da minha vida" Bernardo Soares, citado por José Saramago em meio a reflexão sobre a poética de Fernando Pessoa..
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