obra das palavras

Refletindo Cultura, Arte e o Comportamento

Dante Donatelli

Dante Donatelli - "Escolher modos de não agir foi sempre a atenção e o escrúpulo da minha vida" Bernardo Soares, citado por José Saramago em meio a reflexão sobre a poética de Fernando Pessoa.

CENA BRASILEIRA (uma merda)

A Casualidade de uma cena entre garotos expõe a sociedade que desejamos, ou não?


Cena 1- No ônibus

Cidade do Rio de Janeiro, dia 25/06/2015, meio-dia, dois adolescentes de dezesseis anos estão em um ônibus voltando para casa depois de mais um dia de aula.

Por alguma razão eles se atracam, pode ser por causa de uma menina, por causa de um jogo de bola, por causa do time de coração de cada um, pode ser qualquer um desses motivos tolos que movem garotos a brigar. São chutes, socos a esmo, palavrões largados soltos para todos os lados e muitas bravatas.

O ônibus está quase vazio, mas isso não é cabível. O motorista para o ônibus, - que coisa é essa no meu ônibus? Já pra fora, os dois!

Corta.

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Cena 2 – Na Rua

Os dois meninos descem discutem um pouco mais, largam as suas mochilas e se atracam novamente. Nem sabem onde estão. Na frente de um Shopping na Gávea.

Eis que um carro da polícia civil, passando ao acaso pela rua com dois diligentes e parrudos policiais, vê a cena, pulam para fora do carro, arma em punho e aos berros, já dando uns sopapos nos garotos, - vamo para com essa merda, porra! –

Os garotos param, assustados de certo com toda atenção que tinham, os policiais, ciosos, colocam os meninos de cara para o chão, - Sussega ae meirmão! –

Corta.

Cena 3- Os Bárbaros

Diante da cena em plena urbe cidadãos de bem se aglomeram, e ai ouve-se, - Mata, mata esses filhos da puta. Nego safado. – Em meio a balbúrdia de pedidos de um linchamento cristão, um incauto pergunta ao douto que se esgoela pedindo a morte dos “nego safado” – e ai, eles te roubaram? – E o cidadão de bem, cristão devoto, admirador de Malafaia e eleitor de Bolsonaro, rosna como cão hidrófobo, - Sei lá o que fizeram! Mas se tão ai no chão é bom matar logo

O cidadão ouve e revoltado se aproxima de um dos garotos, deitados no chão e algemado, e lembrando as lições da grande jornalista Rachel Sheherazade não se intimida na sua covardia, chuta o garoto, para ovação geral e grita, em um urro bárbaro, típico das ralés nazistas que passavam noites e noites caçando judeus, comunistas e gays pelas cidades alemãs durante a década de 1930, para serem espancados e mortos, urra como um animal – morra, morra filho da puta.

A plateia da urbe, repleta de cidadãos de bem vai ao delírio, são bolsonaros, olavos de carvalho, malafaias, raqueis, cristãos, militares e civis felizes. O alívio sentido pela ralé com a barbárie é imensa e incontida. Tudo aquilo gratifica a alma vazia e oca, repleta de ignorância, incultura e a boa maldade cristã. A câmera não capta, e nem conseguiria este estado de êxtase e cidadania que transborda pelos poros e bocas dos cretinos em delírio de selvageria.

Corta.

Cena 4 A Mãe

Na delegacia a mãe de um dos garotos, ao ver o vídeo e a narrativa dos policiais se indigna, ela é uma trabalhdora, mulata, carioca, moradora da Rocinha, casada com um trabalhador preto como ela, tem mais um filho menor e luta todos os dias para educar os meninos e oferecer um futuro melhor.

A briga era por uma destas tolices típicas da adolescência e que brotam as centenas, aos milhares nos pátios e salas de aula de todas as escolas do mundo, era só isso, e mais nada.

Indignada a mãe é abordada por uma repórter da GloboNews, e ela reflete, assim como um esquerdista safado, diria lá os bolsonaros, os olavos, os malafaias - Só fizeram isso com meu filho porque ele é negro e favelado. –

Corta.

Isto de fato ocorreu e eu aqui apenas narrei os fatos roteirizando e acrescentei os comentários. Mas este é um filme, um curta metragem, recorrente em nosso cotidiano.

Eu me compadeço da miséria humana e do ódio racista, classista e infame que habita corações e mentes de hipócritas travestidos de bons cidadãos e decentes cristãos. Os bárbaros já fizeram suas escolhas linchamentos, justiça com as próprias mãos, morte a tudo e de todos que eu não concorde, não goste, ou não entenda.

É este o país que queremos para hoje?

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Dante Donatelli

Dante Donatelli - "Escolher modos de não agir foi sempre a atenção e o escrúpulo da minha vida" Bernardo Soares, citado por José Saramago em meio a reflexão sobre a poética de Fernando Pessoa..
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