obra das palavras

Refletindo Cultura, Arte e o Comportamento

Dante Donatelli

Dante Donatelli - "Escolher modos de não agir foi sempre a atenção e o escrúpulo da minha vida" Bernardo Soares, citado por José Saramago em meio a reflexão sobre a poética de Fernando Pessoa.

O que a Irlanda tem a nos ensinar

A República da Irlanda é um exemplo para o Brasil e os brasileiros, atos, concretos e simbólicos, marcam a transição cultural de uma sociedade historicamente conservadora para uma nação mais equilibrada e irmanada pela razão de ser justa com seus filhos e filhas.


A República da Irlanda, criada a fórceps pela força e luta de seu povo, em especial na passagem do século XIX para o XX é um exemplo para o Brasil, não que tenhamos afinidades eletivas com a história irlandesa, longe disto, conto aqui o amálgama do mundo das ideias que nos aproxima dos irlandeses em sua saga para formar uma nação independente e livre, mesmo ainda rachada pela dominação inglesa que controla o norte. irlanda-bandeira.jpg

A Irlanda sempre foi uma nação conservadora, e com fortes vínculos com a cristandade, exemplo deste conservadorismo foi a dificuldade de James Joyce, o maior de todos os escritores irlandeses em conseguir publicar, no ano de 1905 sua coletânea de contos, Dublinenses (com edição em português publicado pela Hedra Editora, 2012) as controvérsias sobre a linguagem de alguns contos levou a sua não publicação. Um leitor contemporâneo, hoje, fica surpreso em imaginar que possa haver algo de indecente na linguagem.

Esta situação é sintomática de uma mentalidade extremamente tacanha na qual a Igreja Católica tinha enorme influência na vida cotidiana das pessoas, estratagemas como a roda na qual as mulheres colocavam os filhos bastardos era comum até a segunda metade do século XX. O peso da moralidade católica na vida cotidiana e na sua leitura do mundo eram enormes. Ter filhos padres e freiras era também uma situação usual, a igreja e seus clérigos peregrinavam por aldeias e bairros nas cidades arregimentando novas vocações.

A pobreza e a imigração extrema marcaram a vida da maioria das famílias irlandesas nos últimos duzentos anos, tratados como cidadãos de segunda classe pelo Império Britânico a construção de uma identidade moderna e descolada do mundo britânico custou a vida e a decência de muitos homens e mulheres.

Somente São Patrício, o padroeiro da Irlanda, e seu conversor ao cristianismo, devia crer lá pelo século IV, V que aquela ilha um dia seria um lugar de paz e trataria seus filhos com dignidade, afora ele, difícil encontrar um crente no progresso do país. Até muito recentemente a Irlanda continuava sendo um grande exportador de mão de obra barata para o Reino Unido e de imigrantes para os Estados Unidos, Canadá, Austrália e Nova Zelândia, mais de um terço da população deixou o país nos últimos cem anos.

A despeito da divisão da Irlanda em duas, o norte, sob controle inglês e uma guerra fratricida entre católicos, desejosos de unir os irlandeses e protestantes defensores da condição de parte do Reino Unido, há sempre a hipótese a ser considerada, se o peso religioso fosse menor a unidade irlandesa seria mais fácil. A despeito de tudo a Irlanda nos últimos vinte e cinco anos se modernizou. Os ingleses com seu humor e ranço, nunca perdoaram os irlandeses pela sua independência, o humor e a chacota dava conta em editoriais de jornais, notícias e piadas na TV sempre jocosas acerca das mudanças na Irlanda e subestimava a capacidade de organização, educação e trabalho dos irlandeses.

A modernidade irlandesa não foi somente permitir que cada cidadão pudesse fazer três refeições ao dia, ou se abstivesse de imigrar, ou mesmo pudesse ter uma casa decente, bens duráveis e um automóvel. Modernidade é mais do que isso, ela veio acompanhada com um outro olhar sobre o mundo e os valores que permeiam a vida, o peso de uma cultura católica pesada e onipresente ainda está lá, viva, mas paulatinamente se torna parte da formação histórica de um povo, de uma nação, e não mais a referência única e absoluta da sociedade, de homens e mulheres.

Faz pouco mais de duas semanas o povo irlandês votou e aprovou o casamento homoafetivo, isto é um marco simbólico que mostra como as sociedades se movem a despeito de qualquer desejo funesto ou tradição consagrada em seu meio, a história irlandesa, confundida com a própria história do catolicismo nas ilhas britânicas se fez outra. A cultura, ato humano, é transformável, se refaz no tempo.

Os irlandeses ensinam para nós que mesmo um povo subjugado, achacado por vizinhos poderosos e dono de uma tradição conservadora é capaz de mudar, de trazer o novo à baila e incorporar todos os seus filhos e filhas basta, “apenas e tão somente”, permitir a eles e elas, ter o direito a uma educação decente, uma economia estável e rica o suficiente para atender a todos, e entendamos que riqueza não é ostentação ou a infâmia do exagero, é o atendimento aos direitos mais elementares da cidadania, com salários decentes e fácil acesso aos bens que a riqueza oferece, distribuir a riqueza que é de todos, da nação e somente de alguns poucos. Junte tudo isso e o obscurantismo não terá lugar na sociedade.

A cultura, assim com o povo que a gesta, não são perenes em suas crenças ou verdades, uma das graças de existir é que tudo que é humano pode e deve se transformar, é condição elementar dos grupos sociais.

A Irlanda nos ensina, também, que é possível se manter crente, a sua maioria continua católica, mas que a fé e a religião são condições privadas, e nada não devem interferir nas necessidades, desejos e vontade de um povo mesmo que para isso se tenha que reescrever a sua própria história, recompor a sua identidade e enterrar por fim as almas penadas da tradição que perambulam pelas suas ruas e casas. Ao cumprir este ritual simbólico do novo, a Irlanda acolhe a todos, crente que Deus sabe o que faz e Joyce sabia o que escrevia:

“Sua própria identidade desaparecia num mundo cinzento e incorpóreo: o mundo sólido, mas antes construído e habitado por esses mortos, dissolve-se e se esvaía.” ( Os Mortos in Dublinenses, p.197 edição citada) joyce_james.png


Dante Donatelli

Dante Donatelli - "Escolher modos de não agir foi sempre a atenção e o escrúpulo da minha vida" Bernardo Soares, citado por José Saramago em meio a reflexão sobre a poética de Fernando Pessoa..
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